‘O Fim do Mundo, Enfim’, conta a história do primeiro festival punk brasileiro, em 1982

Com direção de Camila Miranda, o documentário do Selo Sesc traz depoimentos de punks da velha guarda sobre o clássico show no então recém-inaugurado Sesc Pompeia.

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18 Fevereiro 2016, 11:00am

O surgimento do punk em São Paulo, nos anos 1980, deu-se à sombra de uma crise econômica mundial que acometeu a sociedade com a falência de empresas, o aumento da dívida externa, a inflação exacerbada, o desemprego estratosférico e o enfrentamento da ressaca de um regime ditatorial. É uma história temperada com todos os ingredientes de um conto insurgente romântico. Há algo de muito inspirador na estética e no discurso, ingenuamente incendiário, das primeiras composições de bandas como Cólera, Olho Seco, Ratos de Porão, Garotos Podres e Inocentes, entre tantas outras. A Turma da Carolina e toda a punkaiada dos subúrbios da capital e do ABC, espelhadas nas tretas de gangue do Warriors, no princípio do faça você mesmo e num anarquismo que se resumia em algo como “foda-se o sistema”, abriram caminhos para toda a infraestrutura do rock independente que veio depois. Não só isso, a primeira geração punk criou seu próprio discurso, e durante certo tempo, os punks realmente foram vistos como uma ameaça à ordem vigente.

Prova disso está impressa no documentário O Fim do Mundo, Enfim, que o Selo Sesc lançou nesta terça (16), com exibição no CineSesc da rua Augusta. Dirigido por Camila Miranda, o filme trata do primeiro festival punk do país, o Começo do Fim do Mundo, que rolou em 1982 no então recém-inaugurado Sesc Pompeia. O festival foi marcado por um acontecimento bizarro: mesmo que não estivesse rolando confusão nem protesto nas ruas do bairro, só de saber a respeito de uma aglomeração de punks no local, a polícia colou pronta para a guerra, dando porrada na galera e apreendendo material, com direito a corredor polonês. Além do documentário, o DVD traz o registro do festival que aconteceu no mesmo espaço em 2012, em celebração aos 30 anos daquele mítico fim de semana dos dias 27 e 28 de novembro.


Reencontro das bandas em 2012 no Sesc Pompeira. Foto por: Alice Vergueiro

A parte que registra os shows do revival ficou bem legal. Uma edição ágil assume diferentes ângulos que garantem um substrato fiel à energia das apresentações. Ainda é revigorante, décadas depois da explosão punk, ver o Fabião (Olho Seco) cantar “Que Vergonha”, o Mao (Garotos Podres) entoar o hino “Aos Fuzilados da CSN” e o Ariel (Invasores de Cérebro) esgoelando perigosamente o refrão de “São Paulo”. Dessa vez com som gravado dos canais de uma mesa de som e as cristalinas distorções de Marshalls com caixa e cabeçote. Uma realidade bem diferente daquela impressa na coletânea gravada em tape-deck. Já no que se refere ao documentário, ele segue uma narrativa muito feijão com arroz. Trata-se basicamente de depoimentos coletados no evento comemorativo entremeados por imagens de arquivo numa montagem linear. Confesso que eu esperava por uma abordagem com saídas mais criativas para se falar de punk no Brasil. De repente fazendo melhor uso de ilustrações animadas na hora de introduzir certos temas, ou passagens narradas em hyperlink, cobertas por cenas representativas do contexto sociocultural em que o punk eclodiu. De qualquer forma, não deixa de ser um item de videoteca básica para os interessados no assunto.


Da esq. para a dir.: Antonio Bivar, Clemente e Camila Miranda. Foto: Guilherme Santana

Após a exibição do filme, armou-se um debate com a presença do Antonio Bivar, autor do livro O Que É Punk (Brasiliense) e organizador do festival de 82; do Clemente Nascimento, vocalista e guitarrista do Inocentes; e da Camila Miranda, a diretora. O bate-papo contou com alguns momentos estranhos. Um senhor anarquista de 69 anos presente, o Rodolfo Viana, questionou o conhecimento dos punks da geração 80 sobre os “sofisticados fundamentos do anarquismo”, e meio que estragou a celebração nostálgica da sessão. Nenhuma discussão política levantada, como quando um rapaz perguntou a respeito do posicionamento dos punks das antigas diante dos movimentos atuais, a exemplo do Passe Livre, foi aprofundada. Nessas vezes, o Clemente gaguejava e tolhia o papo. Indaguei se a geração mais ativista, do anarco-punk dos anos 90 – representada por bandas como Execradores, Metropolixo, Amor, Protesto y Ódio e Abuso Sonoro – chegara a travar um diálogo com o pessoal da velha guarda, e o Bivar veio falar de shows com diferentes tribos reunidas na Europa e do Flicts.

Mencionou-se o nome do Supla, a maior queimação de filme do punk tupi, e o Clemente declarou que o “O Supla é punk. Punk dos Jardins, mas punk!”. Bem, pelo que sei o Supla mora no Centro, e não nos Jardins, mas isso, nem o visual ou sua amizade com o Bob Gruen, fazem dele um punk, e sim apenas uma figura midiática fissurada em música e moda, com poder de consumo. Num lampejo de empolgação, o Bivar teve a manha de sugerir que, tal qual acontece na Inglaterra, fosse criado um roteiro turístico pelos endereços históricos do punk em São Paulo. Não consigo pensar em nada menos punk do que isso. Até o Bob Cuspe consideraria tal proposta um absurdo. Mas caso a CVC formule um turismo punk no futuro próximo, sugiro que as parcelas do passeio sejam pagas com o cartão de crédito do Sex Pistols.