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Edição de Moda 2012

Semana Carioca Para Inglês (e Todo Mundo) Ver

A Charlet visitou escolas de modelos na Rocinha e na Cidade de Deus, fez amizade com com transexuais, foi a bailes funk e deu vários outros outros rolês.

por Fernanda Negrini; Fotos por Rhys James e William Fairm
26 Junho 2012, 1:00pm


Charlet e suas novas amigas transexuais em um motel do Rio de Janeiro.

No Início do ano lançamos no VICE.com a Fashion Week Internationale, nossa série apresentada pela ex- estagiária da VICE Reino Unido Charlet Duboc que explora semanas de moda bem diferentes da que estamos acostumados a ver no circuito Nova York, Londres, Paris e Milão, e o contexto político e cultural por trás delas.

Na primeira temporada da série, Charlet viajou para o Paquistão, onde os desfiles acontecem num abrigo anitibombas; para o Camboja, onde acompanhou a primeira semana de moda da história do país; para a Colômbia, onde viu mulheres sendo fatiadas para atingirem ideais de beleza bizarros; para a Nigéria, onde colheu depoimentos sobre a violenta homofobia local; e também para os Estados Unidos, onde cobriu as semanas de moda Full Figured, com modelos plus size, e o Los Angeles Lingerie Show.

O primeiro episódio da segunda temporada começa no Rio de Janeiro. Por aqui, além de cobrir a semana de moda carioca, a Charlet visitou escolas de modelos na Rocinha e na Cidade de Deus, fez amizade com com transexuais, foi a bailes funk e deu vários outros outros rolês. Enquanto esperamos a estreia do episódio fizemos esta entrevista com a Charlet.

VICE: Qual era sua relação com a moda antes da série?
Charlet Duboc:
Eu tinha feito alguns trabalhos como modelo, mas decepcionava. Posar é uma maldição para mim. Sou como uma criancinha desengonçada dentro desse corpo. Também discotequei em várias festas de moda e fiz tudo que você pode imaginar em algumas temporadas da Semana de Moda de Londres, normalmente tentando ser expulsa das festas, e não tentando entrar nelas.

Como foi que você começou a trabalhar no escritório da VICE em Londres?
Eu estava desiludida e sem inspiração com a vida no leste de Londres. Depois de passar cerca de seis meses bundando em casa, assistindo reprises de Segura a Onda e de Ren e Stimpy, mudando a cor do esmalte umas 64 vezes por dia e levantando só meio dedo para escrever resenhas de discos uma vez por mês para a VICE, meu namorado cansou daquilo e achou que era hora de eu ter mais estabilidade na minha vida. E então arrumei um estágio de jornalismo na VICE. 


As funkeiras do grupo Gaiola das Popozudas levam Charlet às compras na esperança de encontrar um jeans que aumente seu bumbum. 

E como surgiu a ideia da série?
Como estagiária da VICE, eu estava sempre atrás de histórias de moda que a grande mídia não cobria. Um dia, em janeiro de 2011, descobri através de uma pesquisa pelo Google que tinham centenas de semanas de moda acontecendo quase que semanalmente durante o ano todo em praticamente todos os continentes. Foi como se uma luz tivesse se acendido na minha cabeça. Eu queria descobrir o porquê dessas semanas de moda estarem acontecendo e o que elas significam para suas comunidades. A semana de moda era mais um pretexto para contar uma história maior sobre diferentes culturas. O que vemos no noticiário é uma imagem incompleta e, muitas vezes, enganosa desses lugares. Tudo o que sabemos sobre o Paquistão, por exemplo, é o lado negativo que aparece no noticiário, nunca ouvimos falar que existe uma cena fashion incipiente ali.

Por sorte, o Andy Capper [editor global da VICE e produtor da série] concordou que era uma história que estava se coçando para ser contada. Na semana seguinte, eu já estava em um avião indo para Islamabad com o William Fairman, o diretor gênio da série.

Para a sorte de todos! E depois do Paquistão você cobriu semanas de moda em países como Camboja, Colômbia e Nigéria, além da Full Figured Fashion Week para modelos plus size e do Los Angeles Lingerie Show nos Estados Unidos. Fale um pouco sobre como sua percepção sobre as principais semanas de moda do mundo mudou depois da primeira temporada da série.
As semanas de moda de Londres/Paris/NY/Milão são fenômenos ocidentais. Entendo as semanas de moda da série como uma entidade diferente. A Semana de Moda de Londres é uma coisa que acontece e chega até mim duas vezes por ano, querendo ou não. Você passa uma semana galopando em um par de câmaras de tortura do Ghesquière, refestelando-se diante de pessoas ridiculamente lindas, e não se lembra de muita coisa quando acaba, a não ser de como você vai passar os próximos meses de luto por aqueles sapatos Alexander Wang nos quais deseja torrar o dinheiro do aluguel. Tem a ver com a nossa cultura descartável. Tem a ver com dinheiro, tendências, inovação, status, primeira fileira, brindes, quais estilistas estão arrasando este ano, quais estão em baixa, e chegar na próxima festa antes de acabar a bebida grátis na anterior. É divertido e familiar, mas como bem dizem os franceses: “Plus ça change, plus c’est la même chose”. Mas muito frequentemente, a moda é uma batalha entre a criatividade e o negócio. As semanas de moda pelo mundo me fizeram valorizar a integridade da moda de Londres, porque a paixão não tem limites e a moda em Londres não fica só babando ovo para a indústria. 


Charlet troca ideia com o Isac Borges, aka Pretinho do Poder, na Cidade de Deus.

Quais as principais diferenças entre essas semanas de moda e as que você cobriu ao longo desse último ano?
Algumas delas possuem uma identidade muito distinta. Outras são incipientes em países comparativamente em desenvolvimento, que promovem semanas de moda sob o molde das quatro principais. E esses eventos acontecem em uma escala muito menor. As coleções são menos luxuosas. Tem pouca ou nenhuma outra imprensa internacional acompanhando. São acessíveis apenas para uma porcentagem minúscula e endinheirada da população. As semanas de moda não representam necessariamente suas respectivas culturas. Elas são muito voltadas para compradores e para o comércio, e servem para impulsionar a indústria têxtil em economias sufocadas, e não para ditar quem está vestindo o quê. Achei as pessoas bem menos arrogantes. Elas sorriem para mim com mais facilidade. Também acho que rola menos pó. 

O primeiro episódio da segunda temporada de Fashion Week Internationale começa no Brasil com o Fashion Rio. O que você achou do evento?
Achei que no Rio a vibe e as coleções são muito descontraídas, diria que não muito diferente do “estilo de vida californiano”, o que é bom! Não parece que o Rio vá ditar moda algum dia, mas pelo menos as coleções condizem com um estilo de vida leve, tropical, veranista e saudável. Mas fiquei decepcionada com as coleções de moda praia que vi. São todas muito medíocres e seguem um padrão internacional. Eu queria ver fio dental, bundas e coxas incríveis na passarela para refletir as praias de Copacabana e Ipanema, mas, pena, o que vi nas passarelas parecia coisa de Saint-Tropez.

Tinham muitas modelos internacionais nas passarelas, talvez para demonstrar que a moda brasileira também funciona para padrões mais europeus, mas quando você tem um país com uma quantidade enorme de mulheres com aparências tão distintas, e alguns dos exemplares mais lindos da espécie, por que importar modelos loiras magricelas?! 


Nossa apresentadora foi à Rocinha conhecer a Dream Models, escola de modelos do Zé Luis.

Falando em loiras magricelas, você estava bastante interessada em investigar a questão da desigualdade racial na moda brasileira.
Sim! Durante minha pesquisa, ficou claro que muita gente sente que os negros são pouco representados na indústria da moda brasileira. Como estrangeira, fiquei surpresa, porque o Brasil tem uma reputação internacional por ter conseguido criar uma sociedade socialmente integrada apesar dos problemas econômicos. Li que havia poucos negros na passarela, apesar de mais de 50% da população brasileira ser negra ou mestiça, e de o país ter a maior população negra fora da Nigéria. 

E qual foi sua impressão quando chegou aqui?
Durante as filmagens do episódio, senti não haver um problema escancarado de racismo institucionalizado, apartheid social ou qualquer coisa desse tipo. Parece mais uma ressaca dos tempos de escravidão que as pessoas optam por ignorar, não muito diferente de divisões raciais que encontrei em muitas outras nações multiculturais que visitei. O que foi interessante para mim foi ver como muitos negros no Brasil não se identificam como negros. Por haver tanta mistura, não sentem uma conexão com a África. Para eles, ser brasileiro é mais que uma nacionalidade, é uma raça. O grupo de consciência negra Educafro fez um protesto para conscientizar as pessoas sobre essa questão do racismo na moda, e acredito que as pessoas ali presentes acharam que foi positivo e que a situação está melhorando. Vi muitos negros no Fashion Rio, tanto na plateia quanto na passarela. Com certeza havia muito menos que brancos, mas não era uma ausência ofuscante.

Fomos à principal agência de modelo carioca, a 40 Graus Models, e vimos que há muita procura por modelos negras neste momento. Ainda não dá para dizer se é uma tendência ou uma mudança que veio para ficar. Tomara que seja uma mudança permanente. Também fomos a escolas de modelos na Cidade de Deus e na Rocinha, e vimos como a atividade promoveu algo positivo para jovens das comunidades, e uma oportunidade real para algumas poucas sortudas. Foi incrível. 


Aspirantes a modelos fazem aula de desfile na escola Lente dos Sonhos.

Você também estava bem interessada nas transexuais brasileiras. Por que os gringos piram tanto nas transexuais brasileiras?
Por onde começo? As transexuais se identificam como mulheres e querem vidas normais, mas são relegadas ao trabalho sexual porque a sociedade ainda não as aceita completamente. E acho que como prostituição no Brasil não é ilegal, é interessante para os gringos, porque já tem muito tabu levantado, então queremos mergulhar e aprender. A transexualidade é uma coisa mais escondida na nossa cultura. Dirigir pelas ruas do Rio à noite e ver dezenas de homens enormes de maquiagem e silicone nos seios é incrível! E tem também as que você não sabe se é ou não é. Conhecemos uma prostituta transexual que teve um filho com sua “amiga” lésbica. Mas o que me interessou mesmo foi que a indústria da moda brasileira parece estar liderando o movimento que abraça as transexuais, defendendo-as como modelos e mulheres lindas. Então queríamos ver como era a vida das transexuais, aprender sobre elas, já que no mundo ainda há muita ignorância e receio em relação ao assunto. 


A ONG Eduacafro, liderada pelo Frei David Santos, armou um desfile afro em frente ao Fashion Rio para protestar contra a falta de modelos negros nas passarelas do evento. 

Durante a pré-produção desse episódio você disse que também queria um namorado brasileiro, de preferência negro. Você se deu bem?
[Risos] Merda! Eu tenho que tomar cuidado com o que falo. Preciso dizer que estou feliz com o meu namorado, mas digamos que se eu estivesse solteira, teria sido muito feliz, e com sorte teria voltado para casa com algumas lembranças. Um modelo em particular que se alistou na 40 Graus me apeteceu. Não vou dizer seu nome, mas quando você assistir ao episódio vai ver que rolou uma química na entrevista (ele até me deu o telefone). Nos cruzamos algumas vezes e ele era lindo, mas infelizmente eu me comportei.

E quais são as próximas paradas da Fashion Week Internationale?
Jamaica, Congo, Israel e provavelmente algum lugar do Oriente Médio! 

Veja as aventuras da Charlet no Rio Fashion Week aqui