Foto: Larissa Zaidan/VICE

Baco Exu do Blues fala das inspirações que fizeram 'Bluesman'

O segundo álbum do rapper baiano foi feito pensando no blues, em Kanye West, no Jay-Z, em Basquiat e no Van Gogh.

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nov 23 2018, 4:48pm

Foto: Larissa Zaidan/VICE

Antes que Esú chegasse às ruas, Bluesman já era uma realidade. Ao menos na cabeça do rapper Baco Exu do Blues, que desde que se nomeou com o "primeiro ritmo a tornar pretos ricos", já sonhava em fazer um álbum que levasse o blues como tema principal. O sonho se torna realidade nessa sexta (23), na forma das nove faixas e 30 minutos do segundo álbum do artista soteropolitano, que chega dois anos depois de seu estouro meteórico com a tão – e, mesmo assim, ainda pouco – falada "Sulicídio".

"A ideia inicial era ter um disco de blues sem tocar blues. Eu fui pegando pelo sentimento, internalizei muito os discos de blues que eu mais gostava e esperava sentir o que eles estavam tentando passar com a música", fala Baco em entrevista ao Noisey na última quinta-feira (22). "Cada álbum eu ia sentindo uma parada diferente e meio que associei que o blues tem quatro sentimentos primários. Esses sentimentos foram o ponto de partida de Bluesman, o que usei pra classificar ele como blues."

Os quatro sentimentos cavados por Baco — o amor, a perda, a dor e a conquista — estão condensados nas músicas de Bluesman, que parece muito mais sentimental e recheado de love songs do que foi Esú — cuja única representante, "Te Amo Disgraça", se tornou a música mais conhecida do rapper. "Eu não podia fazer um álbum chamado Bluesman e deixar os sentimentos de fora", pondera Baco. "E eu digo sentimento de diversas formas: algumas pessoas podem ouvir só como love songs, mas as love songs desse disco têm contextos sociais que são bem brutais. Se você olhar, elas são bem mais sobre a fragilidade do homem negro do que sobre o amor de fato."

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Foto: Larissa Zaidan/VICE

Para dar vazão a esses sentimentos, Baco decidiu recrutar ajuda das vozes que ele acredita que melhor sabiam passar a dor: Tim Bernardes, as cantoras Bibi Caetano e 1LUM3 e o trio paranaense Tuyo foram os convidados. "Eles têm as vozes certas para rasgar como o blues rasga", explica o rapper.

Dois anos de "Sulicídio", um ano após deixar a Bahia e se mudar para São Paulo definitivamente, Baco acredita que a situação do rap no nordeste ainda não mudou tanto quanto poderia. Ele diz, porém, que sua presença é sentida de forma polarizada pelo ecossistema do rap na região. "Tem muita gente que acha que eu fiz muito pouco, tem gente que acha que eu fiz muito. Mas acho que com todo músico é assim, ainda mais quando você começa — não que eu tenha começado nada, mas alcancei uma coisa que historicamente não tinha sido alcançada antes naquele lugar", opina.

Mas apesar das expectativas externas sobre sua arte e pessoa — discutidas extensamente em Esú, principalmente em canções como "En Tu Mira"Bluesman lida muito mais com as expectativas pessoais do artista sobre si mesmo. O sentimento de incompreensão e cobrança é tema recorrente e aparece em faixas como "Minotauro de Borges" e "Me Desculpa Jay-Z". Durante a entrevista, Baco explicou um pouco mais sobre cada uma das inspirações e referências que o levaram a Bluesman. Ouça o disco e acompanhe abaixo.

Kanye West

"Kanye West da Bahia" é sobre querer ser além da música como o cara conseguiu. Kanye é uma mente criativa em tudo o que você conseguir imaginar: roupa, arte, música. É tudo o que eu almejo ser como músico: uma pessoa que não tem rótulo, que faz a maluquice que quiser e experimenta o que for e acabou. Se você gostar gostou, se não gostar é porque você não entendeu o bagulho. No fundo, eu queria ter a segurança e o ego do Kanye para fazer as coisas. Não ter medo da indústria, ditar a indústria. Acho que essa é a parada mais importante.

Basquiat

Para Basquiat, nunca uma tela é uma tela. Ele faz um desenho, e dentro daquele desenho há outras obras que ele foi desenhando também. No final, é tudo uma coisa só. Fui na exposição dele aqui e achei muito doido que muita gente ficava olhando um quadro horas, tentando encontrar um significado em cada tela separada, quando o conjunto da obra fazia muito mais significado. Eu escrevo assim. Escrevo uma parada aqui, outra parada ali e isso se torna uma coisa muito maior. E talvez isso tudo junto só faça sentido pra mim; as coisas separadas as pessoas podem entender, mas a conjuntura de tudo você não vai entender se eu não quiser que você entenda. Me identifico muito com ele.

Jay-Z

O refrão de "Me Desculpa Jay-Z" sou eu falando do quanto eu não gosto de mim. Acabou que virou outra parada, fiz um verso que continua falando sobre eu não gostar de mim, na minha perspectiva, mas no segundo eu começo falar sobre uma relação. E batizei de "Me Desculpa Jay-Z"porque eu queria ser o Jay-Z, eu amo muito a Beyoncé (risos). Eu queria ser a Beyoncé também, mas aí é muita prepotência.

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Foto: Larissa Zaidan/VICE

João Wainer

Eu conheci esse bagulho por vocês [VICE]. Conheci a foto e ela fez muito sentido pra mim. Fui atrás, liguei pro João até meio desacreditado – pensei, "vou tentar jogar essa pedra aí, vai que cola". Ele liberou o uso e aconteceu. A capa é uma síntese do disco inteiro: um cara negro tocando guitarra, mas quando você descobre que ele está no Carandiru é uma quebra de tudo possível. Todo tipo de preconceito existente se quebra com aquela foto. Ela é muito forte, e isso é muito Bluesman.

Minotauro de Borges

[A Casa de Asterion, de Jorge Luis Borges] é um conto que recria o conto do Minotauro pela perspectiva do Minotauro. O Minotauro quer morrer porque está num lugar onde ele se vê preso, e ele vê as pessoas que vão matar ele como pessoas que vão libertá-lo. Só que ele é muito forte, então acaba matando as pessoas sem querer – ele está tão ansioso pra morrer que ele não pode esperar a pessoa chegar até ele, então vai de encontro com elas e as mata. Chegou um momento que eu estava me sentindo meio assim, e esse conto fez muito sentido pra mim. No final, o cara que mata o minotauro chega em casa e a mulher dele pergunta "como você conseguiu algo que todo mundo tenta há tanto tempo?", e ele responde "por incrível que pareça, o minotauro nem tentou se defender.

Van Gogh

A "Girassóis de Van Gogh" tem uma ligação muito grande com a vida. Eu faço um comparativo da vida com um relacionamento. Quando eu falo "Te engravido toda noite só pra ver o sol nascer", é como dizer que eu preciso de alguma coisa pra me apegar pra conseguir viver. A vida é muito urgente, tem muita pressa pra acontecer. E quando eu falo de pressa eu penso automaticamente nos girassóis de Van Gogh, que tinham o lance dele pintar tão rápido que conseguia desenhar o girassol perfeitamente antes do girassol manchar. Tem também a questão dele tentar encontrar o amarelo perfeito, e nesse disco eu tenho uma brisa muito grande de tentar encontrar timbres de graves perfeitos, não usar o mesmo grave que todo mundo está usando. São buscas semelhantes. Além disso, tem o lance do girassol apontar pro sol, e Van Gogh ter pintado as flores sempre de frente pra ele mesmo. É um jeito de se provar como seu próprio criador.

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