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Noisey

A história por trás de "Sing It Back" do Moloko

Segundo a mulher por trás de tudo isso, Rósín Murphy.

por Michael Cragg; Traduzido por Mariana Miyamoto
20 Julho 2018, 10:00am

O verão de 1999 foi dominado por dois sons; o clássico suingue latino "Mambo No. 5" na voz do alemão Lou Bega e a suave e mega discotecável, "Sing it Back" do Moloko. Enquanto as duas monopolizavam a programação das radios e o mercado de coleâneas (a última foi inserida em mais de 100 desses discos), nenhum dos dois sons era 100% trabalho dos artistas envolvidos; Lou Bega usou o sample original de 1950 de Dámaso Pérez Prado, enquanto a versão de " Sing it Back" que atingiu a 4ª posição naquele verão foi um remix do DJ Boris Dlugosch. Para Moloko — o casal da vida real Róisín Murphy e Mark Brydon — o sucesso do som catapultou o casal à uma diferente aliança, permitindo que eles viajassem o mundo e tocassem em festivais que antes eram apenas um sonho. (Para Lou Bega, isso levou a uma batalha jurídica de sete anos pelos direitos autorais e literalmente um total de zero outros hits).

Enquanto o album de "Sing it Back", I Am Not A Doctor (incluindo a versão original mais esotérica e numa pegada mais jazz), engatinhou no top 75 no Reino Unido, o álbum seguinte lançado em 2000, Things To Make And Do, atingiu o top 3, com seu principal single — o excelente "The Time Is Now" — conquistando a segunda posição na lista dos melhores sons. Em 2001 eles foram indicados pra cinco prêmios britânicos, incluindo o de Melhor Grupo (eles perderam pro Coldplay, naturalmente).

Essas foram grandes conquistas pra uma banda que começou como um hobby para o casal. “Moloko era um caso de amor”, Murphy me diz por telefone. “Eu me lembro quando Mark disse ‘você quer assinar esse contrato de gravação?’ Eu fiquei tipo ‘por que você quer fazer isso comigo?’ Ele já era um músico e produtor respeitado. Eu acho que ele me queria perto dele porque estávamos apaixonados.” Mesmo depois do contrato ter sido assinado, nenhum deles queria fazer parte de uma banda tradicional. “Primeiro de tudo vamos usar três bonecas como banda,” ela ri. “Nós levamos as bonecas para Londres pra eventualmente tirar fotos delas, mas não fomos muito longe com isso. Não dava pra sentir aquela humanidade nas bonecas.”

Intencionalmente idiossincrático, gloriosamente artístico e ferozmente protetor do que o Moloko representava, "Sing It Back" representa um estranha anomalia na carreira da dupla; seu momento decisivo para muitos, mas não exatamente o seu bebê. Sua gestação inclui birras, discussões, rolês com a Spicy Girl Mel C e reaproveitamento de mobília.

Róisín Murphy nos conta sobre a incrível jornada do som ao improvável sucesso do verão.

A inspiração

Quando o Moloko gravou seu primeiro álbum [Do You Like My Tight Sweater? (1995)], levando em conta que eu vinha frequentando clubs há alguns anos em Manchester e em Sheffield, nós quase pensamos que o 4/4 tinha chegado ao fim. A gente tava tipo "Jesus, quantos desses mesmos sons você consegue ouvir?". Nós fomos uma reação contrária àquilo e achamos que seria a saída. Eu já tinha me apaixonado por isso antes na minha vida e havia frequentado clubs com músicas mais ecléticas em Sheffield. Em Manchester você podia apresentar todas as diferentes culturas musicais, mas era meio que separado. As raças eram bem separadas, os estilos musicais totalmente separados, e em Sheffield era diferente e tudo misturado. Os melhores DJs misturavam reggae com hip-hop com house com techno e todas essas coisas e você conseguia enxergar as conexões entre elas. Era muito educativo, musicalmente. O Moloko foi uma reação a isso.

Enfim, eu fui para Nova York e tive a ideia do trecho "Sing It Back" enquanto dançava na Body and Soul. Eu ia lá frequentemente, sozinha. Isso foi em 1996 ou 97, eu estava com uma garota que trabalhava no Tommy Boy na época. Senti que de certa forma eu tinha chegado na fonte. A Body and Soul tinha uma vibe meio igreja e isso aconteceu num domingo. Foi totalmente devocional. François K tocava várias tracks com vocais e todas as pessoas pareciam saber as letras então ele baixava o volume da música e todo mundo cantava de volta para ele. Foi aí que eu comecei a pensar em um som pra tocar nos clubs com “sing it back” no coro.

Quando voltei para Sheffield, eu estava revigorada para a house music. Voltei pilhada e o primeiro som que escrevemos para o I Am Not a Doctor foi "Sing It Back", mas era numa pegada mais house. Continuamos fazendo o álbum e entramos na vibe da jungle music e todos esses estilos diferentes. É um som submisso, saca? É sobre fazer o papel de submisso e submissão no geral. No fim, Mark achou que ela não se encaixava no disco pois não havíamos seguido em frente nessa pegada house, fizemos um monte de música maluca na real. Então mudamos. Isso sempre foi uma decepção pra ser sincera, porque nunca acabou sendo o som que eu pensei que seria. Uma vez que eu mordo a isca, é muito difícil pra mim deixar de lado. Eu sou tipo um cachorro com um osso e gosto de mastigar até o fim. Lançamos o album [ I Am Not A Doctor] e foi comercialmente uma decepção, e enquanto Do You Like My Tight Sweater? teve todo esse lance em volta. Por várias razões esse próximo foi difícil pra gente.

O remix

No fim da campanha do álbum fui à gravadora e disse "por favor façam algum remix de " Sing It Back" e lancem como single porque eu acho que pode dar certo". Eles decidiram entre eles: "vamos pedir para o Todd Terry fazer", o que eu não era contra porque ele é muito bom, mas seu remix não era tudo aquilo. Ele mesmo te diria isso. Mas Boris Dlugosch entrou em contato com a parte germânica do selo após ficar sabendo que remixes estavam sendo feitos e que tinha uma visão a acrescentar. Eu não tinha ideia de que ele faria isso. A próxima coisa que eu soube veio por correio. Coloquei pra tocar e de imediato soube que aquilo era um hit. Tinha hit escrito por toda a música. Imediatamente eu me vi cantando no Top of the Pops, juro pra você.

Então eu liguei para o selo. Era tudo plano meu, aliás. Apenas esse pássaro jovem de Sheffield que as pessoas não davam bola pro que dizia. Enfim, eu estava tipo "a gente tem o remix, vai ser um sucesso". A gravadora em contraponto estava tipo "não, a gente tem que fazer a versão do Todd Terry porque pagamos uma fortuna à ele". E eu "não é porque foi de graça que significa que vocês devem ignorar". Eles simplesmente não me ouviam e eu argumentava com eles de um jeito que eu estava literalmente jogada no chão pedindo "por favor". Estava quase puxando o tapete. Eles não botaram fé e eu perdi essa batalha. Eles lançaram a versão com o remix de Todd Terry e o som ficou em posições bem baixas no top 40. Então isso foi uma decepção, porque naquela época a primeira semana era quando você tinha a melhor chance de estar no topo das paradas. Na sexta seguinte eu estava ouvindo Pete Tong [DJ da BBC Radio 1] e muitas pessoas estavam pedindo o remix do Boris Dlugosch do festival Miami Music dizendo que aquele era o som do festival e blá blá blá. Então liguei para o cabeça do nosso selo pra mandar aquele "eu avisei". Falei pra ele deletar o remix do Todd Terry e colocar esse no lugar e foi exatamente o que fizeram.

O sucesso

A sensação ainda é de vitória, honestamente. Na verdade parece mais uma lição que uma vitória, de que você deve confiar nos seus instintos. A melhor coisa sobre "Sing It Back" e "Time Is Now" é que essas músicas nos levaram a festivais do mundo todo, pra tocar na frente de milhares e milhares de pessoas. Essa foi a melhor coisa consequência do sucesso. Eu inclusive me apresentei no Top of the Pops como tinha imaginado meses atrás. Quem mais estava no show? Sporty Spice estava lá com o… Bryan Adams! Ou foi com o The Time Is Now? Eu esqueço. Eu só sei que muitos desses jovens artistas estavam me assistindo e pensando "hm, é possível ser legal e popular ao mesmo tempo".

O clipe

Eu e minha melhor amiga Dawn Shadforth, que estava morando em Sheffield naquela época, fizemos o vídeo. Tinha uma cópia antiga de um VHS com o clipe de "Rock With You" no flat e eu disse à Dawn — a gente não tinha muito dinheiro pro clipe — "vamos fazer tipo assim, isso seria brilhante". E ela fez isso lindamente. O vestido espelhado veio do fato de que eu estava tentando parar de fumar na época então estava cobrindo um velho móvel com espelho quebrado. Era um longo processo então eu passei mais ou menos um mês só encarando aquele pequeno mosaico de vidro, mas foi daí que a ideia do vestido veio. Era comum as pessoas virem me contar que costumavam pôr o video para suas crianças de três anos e as deixavam lá por horas e horas assistindo. O clipe fazia elas ficarem quietas. É um video mágico. Eu nunca vou fazer um video cafona, nunca.

Eu só digo que "Sing It Back" e "Time is Now" são clipes fantásticos, brilhantes, mas um pouco unidimensionais. Então você fica preso a um tipo quando se trata da imagem — de um lado você tem aquela boneca de discoteca em "Sing It Back" e do outro você tem aquela propaganda de shampoo em "Time Is Now", e foi isso que me fixou na cabeça das pessoas como uma garota loira, legal e fofa, e eu não poderia continuar daquele jeito porque aquilo não representava quem eu era. Eu não acho que deveria, mas olhando pra trás acho que talvez — não que eu deveria ter feito, porque eu não mudaria nada — era o que eles queriam. Quando você olha para alguém como a Björk, ela é quase um alien — nem uma mulher, nem um homem. Assim como a Grace Jones. Alguns amigos da família deixavam aquele álbum dela na sala da lareira, aquele em que ela aparece usando apenas uma perna como suporte na capa, e todo mundo nessa pequena cidade irlandesa vinha tipo "Hã? Que porra é essa?". Você pode ir a qualquer lugar quando sua imagem é tão estranha, mas eu, balançando meu cabelo loiro em slow motion, eles simplesmente não compraram o que eu queria fazer depois disso.

A consequência

Obviamente, por ser um remix, a gente não podia dizer que era do Moloko — não era o som do Moloko, era uma espada de dois gumes. Aonde você vai depois disso? Nós achamos que iríamos mais alto, mas ninguém mais queria a gente. Pelo menos ninguém quis. Nós colocamos nosso coração e nossa alma no nosso último album, [Statues (2003)], e lançamos e foi tipo "ah, não é um 'Sing It Back', é?". Sabe, honestamente é difícil falar sobre o que realmente significou. Inclusive, o Mark estava tipo "eu não quero fazer isso", como um típico safado de Sheffield. Era nosso lance, juntos, e talvez se eu tivesse começado a ser tipo "Eu vou ser uma pop star" isso teria nos separado e nos tornado muito diferentes um do outro. Isso teria dado motivos pra gente fazer isso diferente também. E eu não queria estar em mundo diferente do dele.

Róisín Murphy está de volta no jogo da música. Confira seu novo clipe de "Plaything", você vai amar.

Artigo originalmente publicado na I-D UK

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