Tatuagem na cara já não deveria chocar as pessoas

Já está mais do que na hora de nos acostumarmos.

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ago 13 2018, 7:35pm

Fotos: Instagram/Reprodução.

Muitos jovens estão tatuando a cara. E para a surpresa de exatamente zero pessoas, muito disso se deve a uma nova geração de rappers, nascidos no SoundCloud, criadores do gênero que, veja só, é conhecido como SoundCloud Rap.

Um grupo bem específico de artistas, que chegou com uma sonoridade que alterna vocais melancólicos de screamo com batidas de 808, atingindo algo entre I Miss You do Blink-182 e New Slaves de Kanye West. Eles usam camisas de manga-longa quadriculadas e dreads cor de rosa, tatuam ainda frases e imagens efêmeras na cara que não ficariam deslogadas na agenda de um estudante do ensino médio.

Post Malone, a versão rapper daquele mano que compra cana pros de menor na frente do boteco, ainda usa um coquinho escroto e tem as palavras “Stay Away” tatuadas tipo manuscrito numa sobrancelha e “Always”, “Tired” sob cada um de seus olhos previsivelmente inchados. Já Lil Xan – um sadboy pique streetwear que certa vez falou que o som do Tupac era “chato” – tem o título de uma de suas faixas, Xanarchy, adornando suas sobrancelhas, enquanto um “ZZZ” nos lembra de que o rapaz também vive cansado. O finado Lil Peep tinha, tragicamente, tatuado “get cake, die young” na testa, já o coloridaço Tekashi 6x9 mandou um “69”mesmo. Até o queridinho Justin Bieber tem uma cruzinha sob o olho.

Ao passo em que fãs firmam seu compromisso com seus artistas favoritos, tatuagens faciais vão se tornan do mais comuns. No Instagram mesmo dá pra ver diversos adolescentes com rostinho de anjo cobrindo suas baby faces com tatuagens semelhantes às de Tekashi ou Lil Zan. É só buscar por #Facetattoo no Insta e se deparar com milhares de jovens de 13 anos posando com as caras sarapintadas de salgueiros e numerais romanos como seus rappers favoritos.

Deve-se comentar que tatuagens faciais existem desde antes do streaming de músicas, claro. A palavra em latim para tatuagem é “stigma”, no sentido de “uma marca distitiva cortada na carne de um escravo ou criminoso”. Na Grécia e China antigas, estas identificavam alguém que havia cometido um crime hediondo ou serviam como marcas para indicar propriedade, como se faz com gado. O imperador grego Teófilo se vingou de dois monges que haviam lhe criticado ao tatuar 11 versos de um obsceno soneto pentâmetro jâmbico em suas testas. Hoje em dia, aquela fonte gótica só daria a impressão de que a dupla estava prestes a lançar uma mixtape pauladaça.

Até poucos anos atrás, tatuagens faciais eram quase que exclusivamente associada ao ganguismo; as suásticas na testa de líderes da Irmandade Ariana como no caso de Curtis Allgier, as coroas de cinco pontas nos pescoços de membros da gangue prisional hispânica Latin Kings e as tatuagens “Norteño” que representam a Nuestra Familia, gangue californiana.

Em outras culturas, as tatuagens faciais tem significado religioso. As mulheres Maori neozelandesas muitas vezes recebem as “moko kauae”, tatuagens simétricas no queixo. A marca é considerada uma manifestação física de sua verdadeira identidade (toda mulher maori tem um moko do lado de dentro do coração, o tatuador apenas a traz à tona). Mulheres da tribo Kutia Kondh , de Orissa, na Índia, marcam o rosto com tatuagens geométricas de forma a garantir que sejam reconhecidas ao adentrar o mundo espiritual.

“Quando questionado sobre o que a cruz em seu rosto simbolizava, 21 Savage respondeu, irritadiço: ‘é uma faca’.”

Mas com a popularidade, tatuagens tribais acabam sendo distanciadas de suas conotações espirituais. “Infelizmente, tatuagens se tornaram vítimas da apropriação cultural”, afirma Guy Neutron, tatuador do Love Hate Social Club, “boa parte do significado se perdeu”. Um exemplo claro: quando questionaram Mike Tyson sobre sua tatuagem com padrões Maori,o bicho disse que queria uns coraçõezinhos e de última hora decidiu que queria algo “tribal”.

O pessoal do rolê de tatuagem também está um pouco chateado com como a onipresença de tinta na cara tem diminuído a significância destas tatuagens como um todo. “Aqui debaixo do meu olho tenho um ‘N01’ para lembrar de sempre me colocar em primeiro lugar”, afirmou Nikita, ex-tatuadora, falando sobre a importância da tatuagem; ela se frustra com pessoas que mal tem qualquer tinta pelo corpo já mandando uma tatuagem na cara. “Coisa de gente empolgada, arruina a cena como um todo. Rosto e pescoço tatuados eram um sonho meu, não dá pra pular direto pra isso”.

Não mais território de criminosos ou religiosos, lágrimas e ornamentos espiralados podem ser mais facilmente encontrados em adolescentes usando camisas muito largas ou em maquiadoras que postam tutoriais no Instagram de como fazer aquele delineado bafo. Então qual que é a da popularidade gigantesca destes rappers de SoundCloud?

Há um certo niilismo e desprendimento punkinho junto a estes rappers sempre doidões e muito coloridos. “Eu meio que só queria, sei lá, deixar minha mãe puta”, disse Post Malone quando questionado sobre suas tatuagens. Quando questionado sobre o que a cruz em seu rosto simbolizava, 21 Savage respondeu , irritadiço: “é uma faca”. A cultura em torno destas tatuagens faciais é casual: pegar no sono e esquecer que você deixou um amigo tatuar um coração quebrado ali na cara mesmo. No documentário da Vice Fake Xanex, vemos o rapper britânico Clayton chapadaço, apagando e acordando enquanto tatua a palavra LOST no rosto. Há uma estranha relação entre a permanência da tinta na pele e o modo descontraído em que acaba sendo inserida ali que deixa bem claro que o cara já nem liga mais pr’aquilo.

Muito da popularidade destas tatuagens tem a ver com motivação pessoal, funcionando como uma espécie de compromisso para alcançar sucesso o bastante de forma a não ter que cair num emprego comum mexendo em tabelas do Excel. Lil Peep disse ao i-D em 2017: “Tatuei o coração partido no rosto aos 17 anos justamente pra me forçar a fazer algo”. Arnoldisdead – rapper do coletivo Xanarchy de Lil Xan – disse algo parecido ao explicar porque tatuou um retrato de Anne Frank (ou “Xan Frank”, como ele a estupidamente rebatizou) em um lado do rosto. “Teve gente ao longo da história que não teve forças para assumir o controle e fazer o que queriam com suas vidas, ficar preso em uma casa e morrer... Cara, eu tô nessa pra fazer música”.

Outro motive que explica o tanto de tatuagem na cara é que ela simplesmente pode funcionar como uma espécie de branding. Antes de removê-lo, o sorvetão que cobria a bochecha de Gucci Mane era sua marca registrada, junto da corrente cheia de brilhantes pendurada no pescoço. O mesmo vale pro disco-voador de Lil Pump – tudo ali ajudava a ser mais notado.

Mas estas tatuagens podem chamar atenção para gente comum também. Conversei com Beka, musicista e segurança. Suas tatuagens faciais, nove ao todo, de delicadas estrelas à folhas de louro, dividem opiniões. “Por que eu ainda sigo essa mina?” questiona um homem, previsivelmente escondido atrás de um avatar de anime. Outro fã grita “AAAAAH ESSA PORRA DE TATOO LINDA DO HAKU!!!”. “As pessoas dizem que as tatuagens me deixam interessante”, explicou Beka. “Subi de 4.000 pra 11.000 seguidores em poucos meses, o que provavelmente é culpa das tatuagens. Tento tirar selfies com as do rosto aparecendo porque ajuda com as curtidas”.

As tatuagens faciais servem ainda pra evitar que gente chata sente do seu lado no ônibus e certamente ficarão ainda mais populares como forma de assustar gente, ao passo em que alargar as orelhas e pintar o cabelo de cores berrantes perdem seu valor subversivo. Não vai demorar muito para que estrelas pop genéricas como Liam Payne tatuem “get fucked” sob os olhos. Vai-se o estigma, fica o branding.

Esta matéria foi originalmente publicada no i-D UK.

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