Facebook diz como combaterá propagandas enganosas nas eleições brasileiras

Transparência em anúncios e redução de alcance de conteúdos duvidosos fazem parte das estratégias da plataforma.

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25 Julho 2018, 1:57pm

Foto: Pexels

Katie Harbath, diretora global de engajamento com políticos e governos do Facebook, perdeu a confiança uma única vez durante a manhã de terça, dia 24, em evento da empresa no Brasil. Após um repórter perguntar se a plataforma podia garantir que um escândalo semelhante ao da Cambridge Analytica nas eleições americanas não se repetiria no território brasileiro em 2018, ela disse que “estavam fazendo o máximo para impedir que isso acontecesse de novo” .

Não é segredo que o Facebook tem o potencial de influenciar as eleições de várias maneiras. No ano em que marca a estreia de impulsionamento pago de conteúdos por campanhas políticas no Brasil e o auge da discussão em torno de fake news, Katie se encontrou com um grupo de jornalistas na sede do Facebook Brasil para explicar as estratégias da empresa para tornar o seu papel mais claro nesse processo.

A executiva falou de algumas iniciativas nesse sentido. A principal delas é uma ferramenta de identificação de anúncios políticos. Qualquer interessado em impulsionar um post com conteúdo relacionado às eleições, seja ele um candidato, partido ou instituição, precisará se identificar em um processo que inclui autenticação em dois fatores e o envio de um documento. O registro será aberto no dia 31 de julho.

A partir daí, todos os anúncios do tipo exibidos serão marcados como tal, inclusive com a exibição do CPF ou CNPJ de quem pagou por ele, o que atende às exigências do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Além disso, o Facebook vai disponibilizar uma biblioteca de anúncios políticos, onde serão armazenados por sete anos com possibilidades de pesquisa por tema, assim como acessar dados demográficos básicos (idade e sexo) do público algo de cada propaganda, e faixas de visualização e valores gastos.

“Fica a cargo dos partidos e candidatos cumprirem o determinado pela lei, nós estamos dando a ferramenta para que façam isso”, disse Katie, ao explicar que o Facebook não vai monitorar propagandas de teor político que não se declarem como tal. “É uma atribuição dos reguladores [o TSE] fazer com que a lei seja seguida.”

Segundo ela, a empresa tem se reunido e se comunidade com e-mail e pelo próprio Facebook com diversos partidos e candidatos ao redor do Brasil para explicar o funcionamento da ferramenta.

Fake news ou pós-verdade?

“Nosso desafio é encontrar um equilíbrio entre defender a liberdade de expressão e criar uma comunidade segura e acolhedora”, disse Katie, ao falar das iniciativas do Facebook para combater conteúdo duvidoso. Três pilares orientam esse trabalho: remoção de conteúdo e páginas, redução de alcance e oferta de mais informação para os usuários.

Em maio, a empresa anunciou uma parceria com agências de checagem de fatos (no Brasil: Aos Fatos, Lupa e AFP) para garantir a autenticidade do conteúdo na rede social. Quando alguma dessas agências marca uma postagem como falsa, os usuários que a compartilharam recebem notificações.

Da mesma forma, as páginas responsáveis por essas postagens têm seu alcance reduzido.

A redução de conteúdo ou páginas, por sua vez, é mais sensível. É preciso infringir uma das regras de comunidade do Facebook - que incluem o uso de perfis falsos, mas não a disseminação de notícias falsas. Discurso de ódio ou que pode levar a violência no mundo offline também são passíveis de exclusão. Mas o processo pelo qual isto é decidido e como estas decisões são tomadas não é claro.

“Se nós divulgássemos nossos limites [em inglês, ela usou o termo threshold], vão aprender como enfrentá-los”, afirmou a executiva.

Pablo Ortellado, professor de Gestão de Políticas Públicas na USP e coordenador do Monitor do Debate Político no Meio Digital, vê essa falta de transparência como um problema do Facebook. “Ele tem um papel proeminente demais para ter uma regra oculta. Deveriam ser abertas para o debate público”, diz.

Para ele, é saudável a decisão do Facebook em não tomar para si a tarefa de excluir conteúdos duvidosos. “Não queremos que uma empresa privada arbitre o que pode ou não ser discutidos. É fácil em casos extremos de fake news, mas quando você olha para a massa de notícias compartilhadas é diferente, há jogo político, informações de bastidores, fica difícil saber se é mentira”, explica Pablo.

Na visão do pesquisador, a principal deficiência do Facebook é a falta de consistências nas políticas da empresa. “São muito oscilantes. Eles mudam muito de ideia muito rápido. Estão constantemente revendo políticas, nada é muito previsível, caminham para um lado e de repente fazem uma mudanças drásticas.”

Privacidade é para quem tem

Antes de Katie Harbath apresentar as novidades, a gerente de políticas públicas do Facebook no Brasil, Rebeca Garcia, fez uma apresentação para reforçar alguns conceitos da plataforma, como a diferença entre perfis e páginas. Apenas páginas podem impulsionar conteúdos, algo que muitos atores do debate político ainda desconheciam, de acordo com Rebeca.

Para falar sobre perfis, ela usou o próprio como exemplo. Com as configurações de privacidade elevadas, alguém que não é amigo dela consegue ver apenas o nome, foto de capa, foto de perfil e amigos em comum. Como a missão autodeclarada do Facebook é conectar pessoas, será que a rede social funcionaria bem se todo mundo fizesse o mesmo?

“Eu acho que sim. Tenho uma rede grande de amigos, consigo receber solicitação de amizade e sou bem ativa em termos de seguir páginas, então acho que sim”, diz Rebeca. “A gente inclusive encoraja as pessoas a serem mais conscientes quanto a isso e facilitamos o acesso às configurações de privacidade.”

“Agora talvez dificulte um pouco o trabalho dos stalkers, né.”

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