Uru-Can, a obscura arte marcial criada dentro do Exército brasileiro
Fábio Teixeira
VICE Sports

Uru-Can, a obscura arte marcial criada dentro do Exército brasileiro

Criada na divisão de paraquedistas do Rio de Janeiro, mescla de Karatê, Taekwondo, Kung Fu, Judô e Jiu-Jitsu é praticada por cerca de 500 pessoas pelo país.
16 Maio 2017, 6:20pm

O mestre Leonardo Martins Correia está na borda do tatame encarando os alunos de frente. Apesar do calor, ele veste um tipo de quimono com estampa de camuflagem militar e uma calça preta grossa. No peito, na altura do coração, leva um patch da bandeira nacional. No braço direito, tem outro que mostra duas cobras se olhando em posição de ataque. Quase como um instrutor militar, Correia diz, com firmeza: "Prepara"!

Os alunos, cerca de 10 pessoas, respondem com um tipo de urro que eu não tenho capacidade de transformar em uma onomatopeia e colocam os punhos fechados na altura da cintura em frente ao próprio corpo. Os pés ficam em paralelo, mas afastados. Os joelhos estão semi-flexionados. Numa sequência rápida, de menos de cinco segundos, a saudação prossegue:

"Atenção!", diz Leonardo e ao mesmo tempo leva o punho direito ao encontro da mão esquerda, agora aberta, e junta as pernas como se faz na saudação de continência. Todos repetem o movimento.
Leonardo: "Saudação"! Alunos: "Brasil"! Leonardo: "Acima"! Alunos: "De tudo"!

O ardor nacionalista e as roupas militares vêm do berço. Trata-se de uma arte marcial 100% brasileira, criada pelo militar evangélico negro Paulo César da Silva Lopes dentro dos quartéis cariocas dos anos 70 — o Uru-Can Brasil.

Paulo servia dentro da Brigada de Infantaria Paraquedista, na Vila Militar, no Rio de Janeiro, e acreditava que as artes marciais ensinada na época não eram suficientes para os militares, que precisavam de técnicas para situações reais de combate. Em conjunto com outros três membros do Exército, Paulo fez um pot-pourri com técnicas de Karatê, Taekwondo, Kung Fu, Judô e Jiu-Jitsu, misturando e aperfeiçoando cada uma. Além disso, incorporou treinamentos de defesa pessoal, nuntchaco, facão e fuzil. Sem os constrangimentos da regras das competições, a nova arte tinha uma só missão: a letalidade.

Paulo, criador do Uru-Can. Foto: Arquivo pessoal

Sem uma visão comercial, contudo, o nome demorou quase 10 anos para se firmar. Primeiro foi batizado como Paulo Associação de Lutas Brasileiras e depois como Karatê Brasil. Só em 1983, surgiu o nome definitivo: Uru-Can Brasil — cuja origem é a junção de duas cobras nacionais, a Urutu e a Caninana. O projeto de ensinar a técnica em quartéis por todo Brasil não deu certo, e Paulo passou a levar sua criação para fora das fronteiras militares. Com sua morte em 2003, ela começou a ser transmitida por seus pupilos e hoje é ensinada sobretudo no Rio de Janeiro, em geral nas regiões mais distantes da área central da cidade.

A aula que acompanhamos foi realizada na região da Pedra da Guaratiba, bairro do extremo-oeste do Rio. O lugar é tão longe do núcleo turistóide zona sul, que dá até um tipo idiota de orgulho geográfico só por ter ido até lá. Enfim: a região é como uma cidade pequena e a distância imprime uma diferença no sotaque: erres e chiados são pouco presentes.

A demonstração ocorreu na Val Fitness, uma academia com jeito de clube. Enquanto o professor responsável, Geraldo dos Santos, 42, não fecha uma turma no local, ele convocou os praticantes de outras unidades situadas em Sepetiba, Campo Grande e Santa Cruz para comparecerem. Entre eles estava Leonardo Correia, 39 anos, que além de mestre de Geraldo, aprendeu o Uru-Can com o próprio Paulo: "Comecei a lutar aos oito, mas só conheci o mestre com 16 anos. Aos 18, fui dar aulas com ele nas forças armadas".

Leonardo Correia aplica golpe em aluno. Foto: Fábio Teixeira

Leonardo comandou a maior parte da aula e das demonstrações. Enquanto os alunos aqueciam treinando um chute giratório de 180°, o professor relembrava alguns princípios da arte em voz alta: "Na rua, jamais caia na imobilização. Imobilização é para torneio. Tem que finalizar o mais rápido possível". Ao mesmo tempo, Geraldo me explicava as especificidades do Uru-Can: "no solo não tem o rola. Não sou o obrigado a finalizar o meu oponente com regras. Eu jogo meu oponente no chão e finalizo ele da forma que for, não importa como: torcendo, quebrando o pescoço. Tem que apagar o cara de qualquer maneira". Em seguida, fez questão de enfatizar o caráter pacífico da arte. Por ser mortal, a reação deve ser o último recurso.

"Temos que estar preparados para lutar com mais de um", diz novamente Leonardo, em voz alta. Em seguida os alunos fazem uma sequência de jab, direto cruzado, seguido de um chute giratório de calcanhar. Alguns têm um chute tão forte que a pessoa que recebe, apesar do anteparo de proteção acolchoado, recua com a força da porrada. "Aqui estamos treinando com tatame, mas no Uru-Can é no chão mesmo. A primeira coisa que o aluno aprende é cair e rolar."

Arte agrega ensinamentos com faca e fuzil. Foto: Fábio Teixeira

Assim como o karatê possui os katás, que são padrões de movimentos para treinar as habilidades, o Uru-Can possui as fórmulas, consideradas suas sete bases fundamentais. Nenhuma foi demonstrada durante a aula, mas Leonardo me explicou o que era cada uma:

1- Vela: você fica paradinho reto, como uma vela.
2 - Cachorro: você fica como um cachorro sentado, abrindo um pouco as pernas.
3 - Base do cavaleiro montado: é como se a pessoa estivesse montada em um cavalo.
4 - Escorpião: uma perna flexionada e outra esticada, a perna de trás fica como se fosse a cauda do escorpião.
5 - Louva Deus: similar a que tem no Kung Fu
6 - Gato: é como se o felino fosse dar um bote, ele se espreita para poder atacar
7 - Cobra: fica de lado e vira o corpo de frente, como se fosse uma cobra enrolada para dar o bote.

Como o Uru-Can é feito para o mundo real, as aulas também contemplam, até onde é possível, situações de conflitos potenciais. Uma simulação realizada é de uma briga de bar. Sobre o tatame, colocaram duas cadeiras de plástico brancas (não foi possível encontrar uma mesa), uma de frente para outra — numa posição mais conhecida como Marina Abramović no MoMA.

Numa das cadeiras fica o aluno Wesley de Souza, 24 anos. Na outra, está Leonardo. Os dois se encaram, tentam ficar sérios, mas não seguram o riso. O aluno provoca: "Teu pai é canjica!". É um momento performático, felizmente com mais ação do que os da artista sérvia. Leo se levanta para atacar, afasta a mesa imaginária e dá um soco reto com a direita na altura do rosto do oponente. Wesley então se defende com a direita segurando o punho de Leonardo, puxando-o e ao mesmo tempo socando-o com esquerda. Em seguida, puxa o braço do professor para baixo e lhe dá uma cotovelada nas costas, pouco abaixo do pescoço. Tudo encenação, claro.

Geraldo, de casaco militar, participa da encenação de treta violenta. Foto: Fábio Teixeira

A essa altura Geraldo precisou sair, pois tinha que dar uma aula de luta com dança — um método chamado Uru-Can Fight Dance — que ele mesmo desenvolveu. "Eu mesclei, peguei a arte e coloquei numa forma aeróbica, lúdica. Por exemplo, trabalho os movimentos de flexão de quadril e extensão de joelho, que, na verdade, é um chute frontal".

Do tatame, Leonardo se preparava para terminar a aula. Antes, ele havia me dito que no momento a luta tinha em torno de 500 praticantes e que seu objetivo era poder divulgar o Uru-Can o máximo possível, cumprindo um desejo de seu mestre Paulo. "Só quero que quando estiverem falando de qualquer arte marcial como o Karatê ou o Krav-Magá, falem do Uru-Can também. Só. Mas infelizmente nossos governantes não dão muito valor para nós. Temos muito o que batalhar e eu batalho com a maior honra", disse.

Na sua fala final para os alunos, agradeceu a presença da reportagem, dos alunos e de Deus. E encerrou a aula como começou:
Leonardo: "Saudação"! Alunos: "Brasil"! Leonardo: "Acima"! Alunos: "De tudo"!