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Batemos um papo com os médicos que realizaram o 1º transplante de pênis dos EUA

Os cirurgiões nos explicaram como foi escolhido o doador, como o paciente se sente com tudo isso e como, em detalhes, se transplanta esse sensível órgão masculino.

por Jason Koebler
18 Maio 2016, 7:33pm

Os cirurgiões nos explicaram como foi escolhido o doador, como o paciente se sente com tudo isso e como, em detalhes, se transplanta esse sensível órgão masculino. Crédito: Shutterstock

No Dia das Mães, uma equipe de cientistas do Massachusetts General Hospital realizou de forma bem-sucedida o primeiro transplante de pênis nos Estados Unidos.

Os cirurgiões plásticos Curtis Cetrulo e Dicken Ko operaram Thomas Manning, um homem de 64 anos que perdeu a maior parte de seu pênis na luta contra o câncer, por 15 horas. Além deste caso, outros dois transplantes de pênis foram feitos – um na China em 2016, que deu errado, e um bem-sucedido na África do Sul em 2014.

Por mais que cirurgias de transplante de pênis sejam raras até o momento, traumas urológicos são bem comuns. Cartel e Ko afirmam que muitos jovens – muitos deles veteranos do exército – sofrem calados sem seus pênis por causa de ferimentos ocorridos no Iraque ou Afeganistão.

Diante dessa "vergonha pública" sobre o tema, Cetrulo, Ko e Manning optaram por tratar de forma bastante midiática o processo cirúrgico. Como é de se esperar, há muitas complexidades envolvidas no transplante peniano. Trata-se de uma cirurgia tecnicamente complicada que, de acordo com Cetrulo, é "um salto quântico" diante das atuais opções oferecidas que "envolvem a retirada do tecido macio do braço ou perna e cujo resultado final se assemelha a uma genitália".

Cetrulo e Ko afirmam que, antes de qualquer coisa, querem que o pênis de Manning pareça de fato um membro comum. Outra preocupação é que ele possa urinar de pé – no momento, "ele só consegue aspergir", comentou Ko. Por fim, os médicos também desejam que Manning possa retomar suas funções sexuais normais. Ao longo dos próximos meses, ele terá o acompanhamento de um terapeuta especializado em medicina sexual para tal fim.

"Ligar a uretra não é tão complicado. Sabemos como fazê-lo por meio da reconstrução uretral, visto que ferimentos na região não são incomuns"

Bati um papo com os médicos para entender como foi escolhido o pênis do doador, como Manning se sente com tudo isso e como exatamente se transplanta um pênis.

MOTHERBOARD: Como funciona um transplante peniano? O que os motivou a querer fazer a cirurgia?

Cetrulo: Vemos como continuação de outros transplantes, tais como os de mão e rosto.

Todos eles são conhecidos como "aloenxerto composto vascularizado", referindo-se a órgãos compostos por pele e mais de um tipo de tecido. No caso de um rim, é só um rim mesmo, mas com mãos temos os tendões, nervos, vasos sanguíneos, tudo vascularizado. Quando falamos em aloenxerto, é só pra diferenciar de que, na verdade, aquele tecido vem de outra pessoa.

Faz sentido que os detalhes do sistema urinário genital acabem tornando esta cirurgia semelhante a outros transplantes compostos vascularizados. Do ponto de vista técnico, o processo é mais complicado que um transplante de mão porque, em termos vasculares, é mais desafiador.

O que a torna mais difícil do que um transplante de mão?
Ko
: A uretra é a maior estrutura a ser reconstruída. É o que precisa ser assegurado primeiro. Ela acaba criando uma armação para o resto da cirurgia. Todo o resto são ligações. Você está criando uma rede que faz com que o aloenxerto peniano funcione.

O pênis tem diversas veias e artérias. Crédito: baus.org.uk

Ligar a uretra não é tão complicado. Sabemos como fazê-lo por meio da reconstrução uretral, visto que ferimentos não região não são incomuns. Não é uma tecnologia necessariamente nova, a uretra é reconstruída e forma uma espécie de âncora. É inserido um cateter na bexiga, daí por diante é um processo muito mais delicado para ligar todo o tecido vascular e nervos do órgão.

Ele disse: "Qualquer coisa que apenas me ajudasse seria uma oportunidade maravilhosa. O importante é ficar inteiro novamente para que consiga me olhar no espelho"

Parece que a cirurgia foi bem-sucedida – ao menos até o momento. Com o tempo, seu pênis terá todas as funções restituídas, certo?

Ko: Há três objetivos definidos nesta ordem: primeiro, a aparência. Queremos que ele tenha uma genitália completa que pareça o mais normal e natural o possível. Em segundo, a função urinária, para que ele possa urinar de pé. E em terceiro, é se é possível que esses pacientes desenvolvam funções sexuais integrais, algo que levará bastante tempo até que saibamos.

Como é o processo de reabilitação?

Cetrulo: Ele será acompanhado por uma equipe urológica para garantir a função urinária assim que o cateter for retirado. Aí entra em cena nossa especialista em medicina sexual. Ela será vital no seu tratamento e tentativa de restabelecer sua função sexual. Passaremos muito tempo neste passo, pois se trata de um dos maiores objetivos de nosso transplante. Ele precisará de apoio psicológico.

Suas parceiras ou parceiros sexuais terão como saber que ele passou por um transplante?
Cetrulo:
Estamos esperançosos de que o resultado será bastante imperceptível. Ele terá cicatrizes na área, mas ela parecerá o que é, de fato: uma genitália completa.

"O índice de suicídio nesta população fica entre 15% e 50%"

Como funciona o processo de doação? Onde se encontra um doador de pênis?

Cetrulo: Os doadores são selecionados por uma organização de captação de órgãos chamada New England Organ Bank. Eles têm um procedimento diferenciado para abordar famílias em busca de um possível doador [de pênis]. Entram em contato com o hospital quando o encontram.

É igual a outras equipes de transplantes de outros órgãos. Trabalhamos com eles para conseguirmos os tecidos necessários para que não atrapalhemos em nada a obtenção de órgãos que poderão salvar a vida de alguém.

Vocês tiveram que achar um pênis do mesmo tamanho que o paciente possuía?

Cetrulo: Sim, há medidas a serem tomadas com a anatomia de forma a adequar o tecido para combinar com o destinatário. Há uma certa folga, mas precisamos de uma doação com o mínimo de discrepância possível.

É preciso se preocupar com coisas como tipo sanguíneo? Como saber se ele rejeitará o transplante ou não?

Ko: Trata-se de um transplante com tipo sanguíneo idêntico entre doador e destinatário. Assim sendo, testamos nosso destinatário em busca de anticorpos para o doador e não havia nenhum presente, logo, ele pôde aceitar boa parte das doações sem risco de rejeição aguda.

"Ao levantar para urinar, ele apenas asperge a urina"

Vocês comentaram no artigo do New York Times que estão sendo bem abertos com o procedimento pois querem que ele se torne algo mais comum. Seria justo chamá-lo de prova de conceito?

Cetrulo: Esperamos que se torne algo mais rotineiro. Leva um tempo para ser aprovado pelo conselho de ética e afins. Não estamos com o pé no freio – acreditamos que possamos fazer tudo, mas há muitos obstáculos a serem superados e por isso começamos com nossos próprios pacientes agora. Esperamos que tudo corra bem para que comecemos o processo de recuperação destes veteranos de guerra.

É mais que uma prova de conceito. Chamamos de caso de referência no sentido de que é o nosso primeiro, mas estamos bastante preparados e conscientes. Esperamos que corra tudo bem. Esperamos que a primeira cirurgia dê tão certo quanto as outras 100.

Após ler o artigo, fica a impressão de que o paciente é uma pessoa incrível. O que vocês podem comentar sobre a atitude dele diante de todo o processo?

Ko: Ele é um homem incrível. Há quatro anos, quando perdeu grande parte de seu pênis, foi difícil para ele. Antes do câncer, ele funcionava perfeitamente, e então perdeu sua capacidade de urinar normalmente.

Além disso, a função sexual também se foi, e ele se tornou uma pessoa muito mais fechada. Quando surgiu a oportunidade da cirurgia, ele disse: "Qualquer coisa que apenas me ajudasse seria uma oportunidade maravilhosa. O importante é ficar inteiro novamente para que consiga me olhar no espelho". Estamos tratando tanto da aparência quanto da funcionalidade. E isso inclui sua saúde mental. É um tributo ao homem por trás da doença.

Cetrulo: A inspiração para tanto foi a experiência de um colega no [Centro Médico do Exército] Walter Reed.

Havia jovens na ala de trauma urológico voltando do Iraque e Afeganistão com ferimentos devastadores, um após o outro. Ele é um cirurgião experiente que já viu traumas urológicos terríveis, mas não estava preparado para isso. Foi ele quem disse que deveríamos fazer isso pelos pacientes. Desde o início foi um projeto voltado para pacientes e continua assim. É inspirador conversar com essas pessoas que sofriam cem silêncio, tão desconfortáveis que não conseguiam falar nem com seus amigos e parceiros. O índice de suicídio nesta população fica entre 15% e 50%. Como é de se imaginar, um jovem de 18 a 20 anos, voltando da guerra e sem conseguir urinar, está propenso a não ter qualquer esperança.

Antes do transplante, houve outras opções? Próteses ou algo do tipo?

Cetrulo: A opção pela reconstrução que usávamos era por meio da retirada de tecido macio do braço ou perna, que era então enrolado em um tubo, e então inseríamos um cateter ao centro, de forma a deixar semelhante a uma genitália.

Este procedimento consegue, de forma rudimentar, atingir os dois objetivos que mencionamos. Por vezes, você consegue urinar de pé e, em outros momentos, não. Mas não funciona como um tecido anatômico sofisticado. O que estamos fazendo agora é um salto quântico.

Tradução: Thiago "Índio" Silva