Personagem do filme Aeroporto Central, Tempelhof
Imagem do filme Aeroporto Central. Foto: Juan Sarmiento/divulgação
Entretenimento

"O documentário é uma arma política", diz Karim Aïnouz

Em entrevista exclusiva à VICE Brasil, o diretor fala sobre seu novo longa, 'Aeroporto Central'.
30 Abril 2020, 7:40pm

"O que o Ai Weiwei tava fazendo ali?", diz ao telefone, entre risadas, o cineasta cearense Karim Aïnouz sobre os dias de pré-produção do seu novo filme, Aeroporto Central, lançado nas plataformas de streaming na última sexta (24). Ele menciona o dia em que viu o artista chinês no Tempelhof, um enorme aeroporto desativado em Berlim, capital da Alemanha, que hoje funciona como um parque. Seu novo longa conta histórias de refugiados abrigados em hangares do aeroporto. Mas ele não gosta do termo "refugiados". Prefere "solicitantes de asilo".

A humanização com a qual o diretor retrata os imigrantes automaticamente catapulta Aeroporto Central ao patamar de filme político. Com beleza e densidade. Com silêncios que incomodam.

Karim traz no currículo obras cheias de classe que foram premiadas e elogiadas pela crítica, como as ficções Madame Satã (2002), O Céu de Suely (2006), Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo (2010), Praia do Futuro (2014) e A Vida Invisível (2019) – inspirado no livro A Vida Invisível de Eurídice Gusmão, da escritora Martha Batalha –, que levou o principal prêmio da mostra Um Certo Olhar, em Cannes.

Filho de uma brasileira com um argelino, o diretor vive na Alemanha há mais de 10 anos. Mais especificamente, próximo ao Tempelholf, aeroporto construído durante o regime nazista que também serviu de abrigo durante a Segunda Guerra Mundial. Desativado, em 2010 ele virou o Tempelhof Feld, maior parque público da cidade, transformando suas pistas de pouso e decolagem em ciclovias. Mas foi em 2015 que o espaço tomou outra forma: com a chegada em massa de imigrantes refugiados para a Alemanha, o governo fez dos vários hangares um grande abrigo.

"O papel do documentarista tem que ser uma troca. Não pode ir lá e pescar um peixe. Isso já é um comportamento predatório, mesmo quando você vai pescar."

O cineasta ficava puto ao ver como a grande imprensa retratava aquilo tudo. "A história que estava sendo contada era assim: milhões de pessoas invadem a Europa, elas vão tomar conta do continente. E, aí, o documentário vem pra mim com a possibilidade de eu poder ter os instrumentos de produção pra contar uma história com a qual eu não concordo e poder fazer a minha versão", explica.

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O diretor Karim Aïnouz. Foto: Bob Wolfenson/divulgação

O protagonista de Aeroporto Central é o sírio Ibrahim Al Hussein, que, aos 17 anos, deixou os pais e sete irmãos em seu país natal para fugir da guerra e tentar uma vida melhor na Alemanha. O filme mostra sua convivência com outros refugiados e a vida dentro do aeroporto. São situações simples e cotidianas, como a busca burocrática pelo visto, as aulas de alemão, as alimentações no refeitório – tudo com uma certa carga de melancolia. Mas a aproximação do diretor com os personagens não foi simples.

Foram seis meses frequentando o Tempelhof, conversando com os refugiados, sabendo que aquilo tudo renderia uma boa história, mas sem a certeza de que terminaria virando filme. "Fiquei nessa dúvida: abro câmera ou não abro? Se eu abrir, com quem, de que maneira, como que eu filmo isso?", conta. "Num determinado momento, pensei em fazer algo escrito, que talvez fosse a maneira mais respeitosa de traduzir aquilo. Mas, depois, também achei muito importante que aquilo fosse registrado enquanto documento."

O cineasta brasileiro menciona o dia que viu Ai Weiwei no aeroporto e cita, com certa estranheza, a qualidade do documentário Human flow – Não existe lar se não há para onde ir (2017), no qual o chinês retrata o drama de refugiados. "O papel do documentarista tem que ser uma troca. Não pode ir lá e pescar um peixe. Isso já é um comportamento predatório, mesmo quando você vai pescar. Acho que tem que ser uma troca. A própria história do documentário vem do movimento colonial, do cara ir lá explorar com a própria câmera."

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Imagem do filme Aeroporto Central. Foto: Juan Sarmiento/divulgação

Tanto foi o incômodo causado pela brutalidade do noticiário no cineasta que isso acabou se tornando uma engrenagem para a criação de Aeroporto Central. Para Karim, existe um poder grandioso na possibilidade de fazer esse tipo de registro, principalmente quando envolve pessoas vulneráveis, que saíram de seu país de origem com a roupa do corpo e sem a menor perspectiva de como será o futuro. "Não venha me contar coisas com as quais eu não concordo que eu também vou contar o meu lado. E o documentário, pra mim, é isso, é uma arma política”, pontua.

"Cara, que loucura, dois homens [Moro e Bolsonaro] discutindo poder quando tem sei lá quantas centenas de milhares de pessoas morrendo. Que importância tem esse negócio do Moro? Ah, vai se foder, sai da frente."

A ideia original era lançar o filme nos cinemas, mas, com a chegada da pandemia do coronavírus, o plano teve de ser alterado. "Tinha horas em que eu ligava pras meninas da produção, dizendo: 'Será que ainda tem sentido lançar esse filme no Brasil? Será que não é uma questão que já caducou?' Igual esse fim de semana. Cara, que loucura, dois homens [Moro e Bolsonaro] discutindo poder quando tem sei lá quantas centenas de milhares de pessoas morrendo. Que importância tem esse negócio do Moro? Ah, vai se foder, sai da frente", fala, em referência à demissão do ex-Ministro da Justiça Sérgio Moro e da lavação de roupa suja entre ele e Jair Bolsonaro.

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Imagem do filme Aeroporto Central. Foto: Juan Sarmiento/divulgação

"Streaming é nada sexy", rebateu o diretor quando a ideia foi lançar o documentário nas plataformas disponíveis. "Aí a ficha foi caindo e eu disse assim: 'Sabe que pode ser super interessante? As condições de apreensão do filme nesse momento são condições de confinamento. Você vai ver o filme dentro de casa, de um confinamento. E tem, de alguma maneira, um espelhamento com o que aquelas pessoas estão vivendo", explica.

"Streaming é nada sexy"

"Aí tem um negócio que é muito humano, que é a humildade das pessoas nesse filme. Acho que é isso que me comoveu muito na história do Ibrahim. Cara, se eu fosse o Ibrahim, eu tava quebrando tudo. Eu já tinha quebrado aquele lugar inteiro. Ele tem uma calma, uma paciência", pontua Karim.

Para ele, a resiliência dos personagens sobre um futuro totalmente incerto pode inspirar a todos nós, vivendo uma quarentena forçada, sem saber quando isso acaba – tempos de dúvida e angústia. "E eu acho que, talvez, o que seja relevante de ter lançado esse filme agora é exatamente de ver que essas pessoas, que estão fugindo de uma guerra, têm a paciência de pensar que, sim, o futuro só pode ser melhor. Então, nesse sentido, acho que a gente pode aprender com essas pessoas que estão ali no filme, sentadas, esperando, igual estamos fazendo agora", finaliza.

@deboralopes

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