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Ficamos na mesma cela que um combatente do ISIS

A história de Robert Daw e Rae Lewis-Ayling, que viajaram para o Iraque para ajudar a construir a utopia de Rojava, mas acabaram na prisão por 40 dias.
26 Fevereiro 2018, 1:45pm
Robert Daw (esquerda) e Rae Lewis-Ayling.

Agachados no escuro, protegendo o cigarro com as mãos para evitar serem vistos por franco-atiradores, Robert Daw e Rae Lewis-Ayling esperavam o sinal para correr. Tudo estava indo conforme o planejado.

O arame farpado estava a menos de 100 metros – uma corrida fácil para dois caras saudáveis de 20 e poucos anos usando botas de trabalho. Na distância, eles conseguiam ver o brilho do posto da sentinela e as silhuetas de dois guardas fumando atrás de uma janela. “Para vocês tudo bem”, sussurrou num sotaque pesado um dos revolucionários curdos que concordaram em colocá-los ilegalmente na Síria na calada da noite. “Se os guardas vierem, eles vão prender vocês. Nós eles vão matar.”

Era 1º de agosto de 2017, e os jovens britânicos ali estavam mais perto que nunca de realizarem seu sonho. Eles finalmente estavam entrando em Rojava, a região curda do norte da Síria onde as Unidades de Proteção do Povo (YPG) estavam em guerra com o ISIS desde 2011. Eles esperaram nove dias no Iraque pela lua nova – dando a eles a passagem mais segura possível pela fronteira. E agora, finalmente eles estavam lá. Quase.

Sem aviso, um grito numa língua que eles não entendiam rasgou a escuridão. Cliques de armas rapidamente seguiram, e um grupo de 30 policiais Peshmerga se materializou, todos gritando para eles deitarem no chão. “Naquele momento percebi que o sonho tinha acabado”, diz Rae.

Ele não tinha ideia do inferno que estava prestes a começar.


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Rae, 25 anos, é um trabalhador ferroviário de North Wales. Rob, 21, é um segurança de Preston. Os dois são socialistas vermelhos, se conheceram numa reunião do Partido dos Trabalhadores na adolescência, e são melhores amigos. Me encontro com eles num pub de New Cross em Londres no começo de setembro de 2017. Nenhum deles é particularmente alto ou tem cara de durão. Na verdade, eles são até magricelos, com barbas falhas e unhas roídas: certamente não, pela aparência deles, o tipo que pega em armas na batalha mais violenta e sem lei da Terra atualmente. “Não somos – não foi por isso que fomos para lá”, diz Rob. “Fomos ajudar a revolução.”

O norte da Síria está no meio de uma transformação radical. Inspiradas pela ideologia de Abdullah Öcalan, o líder preso do proibido Partido dos Trabalhadores Curdos (PKK), e depois da “Primavera Árabe” em 2011, as pessoas estão se organizando e cooperando, declarando sua autonomia do estado e seu desejo de uma democracia real. Ideias anticapitalistas, marxistas e feministas estão florescendo, incluindo um sistema de copresidência onde um homem e uma mulher compartilham poderes no mesmo nível. No YPG, os oficiais são eleitos por suas tropas, e mulheres e homens lutam lado a lado.

O experimento se mostrou muito sedutor para esquerdistas do mundo todo. Inspirados pelas Brigadas Internacionais da Guerra Civil Espanhola, dezenas de ocidentais de esquerda foram para Rojava desde que a primeira onda formou o Batalhão Internacional da Liberdade (BIL) em junho de 2015, em resposta ao que eles chamam de um “banho de sangue” no Oriente Médio. “No final das contas, [curdos sírios] querem destruir a estrutura do patriarcado que eles dizem oprimir as mulheres, e reconstruir uma sociedade igualitária onde todo mundo pode dar sua palavra, independente de raça ou gênero”, diz Rob. “Tudo isso no coração do Oriente Médio! Assim que ouvi falar sobre Rojava, senti que tinha que participar.”

Mas curdos iraquianos e sírios não veem a coisa exatamente assim. “O Governo Regional Curdo (GRC), apoiado pelos EUA no norte do Iraque, é uma autoridade capitalista e é contra o que está acontecendo na Síria”, diz Rae. “E ai de quem for pego tentando chega lá.”


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“Vocês são ISIS”, os soldados gritavam. “Matamos ISIS.” Eles algemaram e vendaram os dois homens, colocaram armas na cabeça deles, ameaçando puxar o gatilho. “Minhas pernas estavam tremendo”, diz Rob. “Achei mesmo que ia morrer. Mas naquele momento, o que podíamos fazer? Só fechei os olhos e esperei.”

Eles não atiraram. Pensando agora, Rob e Rae dizem que eles nem deviam ser soldados, só guardas de fronteira de baixo escalão empolgados demais.

Nos dois dias seguintes os dois foram transferidos entre várias delegacias rurais e interrogados. Eles dizem que nunca ofereceram um advogado para eles, quanto mais uma ligação. “Contamos a verdade”, diz Rob. “Dissemos que éramos trabalhadores humanitários, que estávamos ali para ajudar a construir uma Síria curda, não para lutar.”

Aí, no dia 3 de agosto, eles chegaram a Arbil, a capital do Curdistão Iraquiano, onde foram jogados numa cela de espera no Diretório de Segurança Geral da cidade – uma instalação imponente construída pelos americanos onde os piores criminosos curdos iraquianos são mantidos. “Todo mundo parou o que estava fazendo para olhar para nós”, diz Rae. “A gente não sabia se devíamos só nos sentar num canto e esperar pelo melhor, ou atacar o maior cara da cela, como dizem que você precisa fazer na cadeia.”

Eles não fizeram nada disso. Porque, naquele momento, um espanhol, um brasileiro e um francês os abordaram, apertando as mãos deles e dizendo que, se eles ficassem juntos, todo mundo sobreviveria. E foi aí que o brasileiro sussurrou “Bem-vindos ao inferno”.

Eles dizem que a cela tinha 5 x 13 metros e estava ocupada por 100 homens. À noite, o único jeito de dormir era de lado, espremidos uns contra os outros como sardinhas. “Eles nunca apagavam a luz”, diz Rae. “Não vimos escuridão por mais de um mês. Era isso que mais fodia com a cabeça das pessoas.”

Os detentos variavam de estupradores e traficantes a revolucionários curdos e um punhado de ocidentais que lutaram com o YPG de Rojava até serem presos tentando voltar para casa. A ordem dentro da cela não era mantida pelos guardas, mas por um detento chamado Zrian, um ex-soldado Peshmerga e um baita X9. “Tudo que acontecia, ele contava para os guardas”, diz Rae. “Ele era amigo do estuprador e homem mais poderoso da cela. Tipo, às 13h, todo dia, ele obrigava todo mundo a tirar uma soneca de duas horas. Era uma coisa de poder.”

Robert no Curdistão.

Dias viraram semanas, e Rae eRob começaram a imaginar se um dia voltariam para casa. “Não tínhamos ideia se nossas famílias sabiam que estávamos vivos, quanto mais onde estávamos”, diz Rae. “E aquele não era um lugar em que queríamos ficar.”

Os guardas, segundo eles, eram violentos e sádicos, distribuindo espancamentos por transgressões como rir na presença deles. Mas não com Roe ou Rob. “Mais tarde descobri que tinham dito para eles nos deixarem em paz porque fomos classificados como prisioneiros políticos, não combatentes”, diz Rae. “Os outros não tiveram tanta sorte.”

A luz constante, o medo dos espancamentos e o tédio fizeram alguns homens perderem a cabeça. “Tinha tão pouco para fazer lá que eles brigavam para ver quem ia passar pano no chão”, diz Rob. “O que não quer dizer que a cela estava sempre impecável.”

Duas semanas depois, dois espanhóis – mais combatentes do YPG capturados – foram arrastados para a cela, sangrando e muito machucados. Um deles estava tão mal que parecia basicamente em coma, provavelmente depois de um derrame. “Ele estava tão desidratado que beliscando a pele dele, ela não voltava pro lugar como a nossa faz”, diz Rae.

Eles imploraram aos guardas para levá-lo para o hospital, mas eles disseram que não era problema deles. “A única razão para o espanhol ter sobrevivido foi porque um detento curdo chamado Omut – o cara tinha perdido completamente a cabeça – o atacou do nada com uma chaleira, abrindo o crânio dele”, diz Rob. “Isso era problema para os guardas, porque o ferimento aconteceu bem na frente deles.” Aí eles levaram o cara para tratamento médico.

Em outra ocasião, eles dizem que acordaram com o som horrendo de um garoto de 14 anos sendo estuprado por vários homens. “Mais tarde descobri que ele tinha sido preso por posse de maconha”, diz Rae. “Mas o que podíamos fazer? Os estupradores eram amigos de Zrian. Se tivéssemos nos metido, eles se voltariam para nós.”

Os detentos tinham permissão para andar uma hora por dia num pequeno pátio com um telhado, e usar banheiros que tinham papel higiênico (a latrina que ficava num dos cantos da cela não tinha tal luxo). Durante aquele período, três homens tentaram se matar, rasgando tiras de um cobertor para se enforcarem. “Tive que salvar um deles subindo numa privada depois que ele já tinha se pendurado, aí ele começou a gritar”, diz Rob. “Acho que ele decidiu que não queria morrer no final das contas.”

A comida, para surpresa deles, era boa: principalmente pão, iogurte, carne de cabra ou frango, além de arroz ou batatas cozinhas. Havia momentos mais leves também. Como o ex-mujahidin que virou combatente do Talibã, depois da Al-Qaeda, que fumava sem parar, vivia dando cigarros e ensinou Rae a jogar xadrez.

Tinha também os revolucionários curdos que se sentavam em círculos e cantavam antigas canções curdas. “No final, nos juntamos a eles e ensinamos antigas canções socialistas britânicas, como 'A Internacional” e Billy Bragg, e eles adoraram”, ri Rob. “'O Poder da União' fazia muito sucesso.”

Rob até comemorou seu aniversário de 21 anos na cela, e alguns dos detentos europeus até conseguiram contrabandear um bolo. “Não faço ideia de como eles conseguiram, mas foi um dos momentos mais tocantes da minha vida”, diz Rob.

No meio de agosto, começaram a circular rumores de que um novo detento da Alemanha se juntaria a eles. “Ficamos empolgados em encontrar um novo ocidental”, diz Rae. “Alguém que, esperávamos, falasse inglês.”

Mas o homem que entrou na cela não era o que eles esperavam. Com músculos tão eriçados quanto a barba engolfando seu rosto, esse homem – era bem óbvio – só poderia ter vindo de um lugar: o Estado Islâmico do Iraque e al-Sham. Ainda assim, Rae, que fala um pouco de alemão, se apresentou. O homem respondeu de um jeito que ninguém poderia imaginar.

“Sup, nigga?”, ele sorriu com um inglês quase perfeito, antes de apertar a mão deles como um gângster de LA. “Ele parecia claramente nervoso”, diz Rae, “mas também pareceu gostar de nós imediatamente porque éramos britânicos. Quer dizer, ele falava muito estranho, mas pelo menos estava usando uma língua que conseguíamos entender.”

O nome do homem era Deniz, um turco-alemão de Frankfurt. O homem de 25 anos tinha sido capturado, ele mais tarde revelou, tentando fugir da jihadi com sua esposa favorita. “Ele era um dos poucos homens que falavam inglês fluente além de árabe, e traduzia para nós com os guardas”, diz Rob. “Dava para ver que por trás da máscara ele era um ser humano horrível: ele teve escravos, mais de uma esposa e se gabava de ter torturado civis curdos por diversão. Mas claro, em certos momentos a gente esquecia tudo isso, e ele era gostável. Lembro uma noite quando Deniz acordou Rae e eu cantando 'Where Is the Love' do Black-Eyed Peas a plenos pulmões.”

Deniz (cujo sobrenome foi omitido, já que ele está em julgamento atualmente no norte do Iraque) não era o que eles imaginavam que seria um radical do ISIS. Ele tinha o símbolo do signo de capricórnio tatuado no pescoço, e falava empolgado sobre seu amor por chocolate Mars e seus filmes preferidos, A Origem e +Velozes +Furiosos.

“Era como se ele fosse duas pessoas”, diz Rob. “Quase no mesmo fôlego eles contava como era maravilhoso que o único instrumento permitido no califado islâmico era um tambor em certos versos do Corão, depois quanto ele gostava de gangsta rap americano. Ele era obcecado por DMX e 30 Cent. Deniz era um cara muito confuso.”

Dias depois, Deniz começou a contar sua história de vida. Ele dizia ter passado a faixa dos vinte anos comandando academias de musculação em Frankfurt, onde se viciou em anabolizantes, até que se envolveu com uma gangue de rua mexicana na cidade e descobriu a cocaína. “Um dia ele decidiu se converter ao Islã, casar com uma mulher muçulmana e viajar para o Iraque para se juntar ao Estado Islâmico”, diz Rob.

Ainda assim, de todos os papos que tiveram com Deniz, um que se destacava. “Não sei muito sobre o Islã, e queria saber mais sobre a versão dele disso”, diz Rob.

A conversa foi mais ou menos assim:

Rob: Deniz, você lê o Corão literalmente então?

Deniz: Não, aceitamos as palavras de estudiosos no YouTube.

Rob: Onde esses estudiosos estão?

Deniz: No Reino Unido. Todos os vídeos no YouTube que assistimos no EI são de estudiosos islâmicos vivendo no Reino Unido. Todos eles.

“E eu pensei 'Caralho'”, diz Rob. “Fiquei chocado. Achei que ele era um cara muito perdido e solitário procurando uma identidade – algo para dizer 'Esse sou eu'. E ele achou isso brevemente no Estado Islâmico. Aí ficou com medo.”

No começo, Deniz dizia que tinha fugido depois de se desiludir com os crimes de guerra que tinha testemunhado. Mas conforme as semanas foram passando, ele começou a admitir que também tinha cometido esses crimes. “No final, ele disse que tinha fugido porque não queria morrer”, diz Rae. “Ele tinha medo dos drones. Morrer, como ele dizia, não era a praia dele.”

A VICE entrou em contato com o pai de Deniz para verificar as afirmações de Rob e Rae. Pelo telefone, ele disse que não comentaria as alegações de que o filho tinha se juntado ao EI, citando seu julgamento, mas confirmou que Deniz e a esposa foram cercados por forças Peshmerga no norte do Iraque. Ele também negou que Deniz usava anabolizantes ou cocaína, que ele tinha se envolvido com gangues, que gostava de rap, e que tinha uma tatuagem de capricórnio.


ASSISTA:


Logo depois da chegada de Deniz, Rae e Rob finalmente receberam autorização para fazer uma ligação. Então eles ligaram para o único número que sabiam de cor: o da mãe de Rae. “Ela era nossa linha de vida”, diz Rae. “Ela ligou para a embaixada britânica, que mandou um cônsul de Arbil para nos ver. Ele disse para esperarmos mais algumas semanas enquanto ele trabalhava para nos soltar.”

Depois de 30 dias, eles puderam usar o telefone de novo. “A mãe de Rae disse que tínhamos sido perdoados, mas que teríamos que esperar mais dez dias, até o final do Eid.”

Esses dias passaram como todos os outros, e no dia 10 de setembro, o cônsul voltou. “Ele disse que o Partido Democrático do Curdistão não renovaria nossos vistos, então tecnicamente estávamos no país ilegalmente. Ele disse que a gente precisava pagar $340 em multas, receber alguns carimbos e dar o fora.”

Vinte e quatro horas depois, eles estavam no avião para Heathrow.

Um porta-voz do Gabinete de Relações Internacionais do Reino Unido não quis comentar sobre os detalhes do caso de Rob e Rae, mas disse: “Fornecemos assistência consular para dois britânicos detidos no Iraque de agosto a setembro. Os indivíduos já retornaram ao Reino Unido”.


A dupla nunca descobriu o que aconteceu com seus guias depois que foram presos em 1º de agosto. “Acho que eles provavelmente morreram”, diz Rob. “Mas nunca vamos saber.”

Agora em casa, Rae e Rob encontraram novos trabalhos – Rob em ferrovias e Rae na construção civil. Agora eles dividem um apartamento em Londres e Rae está noivo.

Eles ainda pensam no mujahidin jogador de xadrez e nos combatentes ocidentais do YPG. De vez em quando, até Deniz surge na mente deles.

Eles ficaram traumatizados com a história? “Ainda acordo no meio da noite às vezes e acho que ainda estou na cela”, diz Rob. “Tenho um arrepio sempre que ouço alguém balançando chaves”, acrescenta Rae. Nas no geral, a dupla parece estranhamente contente considerando a experiência.

Quando pergunto se eles se arrependem do que fizeram, os olhos de Rob brilham com desafio. “Nem por um segundo, porra. Se eu pudesse fazer de novo, eu faria. Só me arrependo de nunca ter conseguido chegar a Rojava. Sei que poderíamos ter feito coisas boas lá. Mesmo se eu só ajudasse a construir uma casa, se alguém precisasse eu faria de graça. Isso seria o suficiente para mim.”

Rae concorda: “Se essa história me ensinou alguma coisa é como as forças reacionárias naquela região têm medo da revolução de Rojava. Eles estão dispostos a prender dois socialistas como nós onde poderíamos muito bem ter morrido”.

E se tivessem morrido mesmo? Rob ri. “Muitas pessoas morreram em nome do socialismo. Não quero morrer, claro, mas se você vai me matar então a bandeira continua vermelha. Você conhece 'A Bandeira Vermelha”, o hino do Partido dos Trabalhadores?”

“Talvez não a letra toda”, eu digo.

Ele toma um gole de sua pint, olha para Rae e sorri. Então, juntos, eles começam a cantar: “Embora covardes se abalem e traidores zombem, vamos manter a bandeira vermelha hasteada aqui”.

@mattblakeUK

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