O sonho afro-americano de Xênia França

Entrelaçando gêneros da música negra da vários lugares do continente americano, — jazz, samba-rock, yorubá, R&B — a cantora baiana lança seu primeiro disco solo, ‘Xenia’, nesta sexta-feira (29).

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29 Setembro 2017, 7:59pm

Quando entrou na adolescência em Camaçari, no interior da Bahia, Xênia França teve o que ela considera a sua primeira experiência artística: entrou para uma fanfarra. Era a comandante — ou a "mór", como é conhecida a pessoa que rege os músicos do conjunto — do seu grupo e, por causa disso, vestia uma jaqueta especial para se destacar dos outros integrantes. Foi a primeira vez que Xênia ocupou o lugar que ela sempre acreditou ser seu por direito: o lugar de comando. "Fiquei uns três anos nessa função, à frente da banda", conta a cantora baiana radicada em São Paulo. "Acho também que foi a minha primeira experiência empoderadora fora da minha casa."

Para tentar reviver esse até então inédito sentimento de poder, Xênia resolveu vestir um casaco que remete àquele seu uniforme da fanfarra usado na juventude na capa do seu disco de estreia, Xenia, lançado nesta sexta-feira (29) sob o selo da Natura Musical. "Fazia muito sentido que eu trouxesse isso para a capa, porque meu álbum fala sobre empoderamento. Ele fala sobre essa tomada de consciência sob o poder que a gente — principalmente mulher negra — tem", explica. "E esse momento da minha adolescência me ajudou a entender o meu poder, que foi se moldando até desembocar no momento de agora, na minha pessoa como artista hoje, com 30 anos de idade.

Quando era criança, Xênia nunca se identificou com os personagens negros retratados nos programas de televisão brasileiros. Só com a Glória Maria — o que a fez até pensar em seguir uma carreira de jornalismo, mas acabou desistindo. Na TV, o que ela gostava mesmo era de assistir aos filmes norte-americanos com protagonistas negros, principalmente os do Eddie Murphy. "Eu jurava que era americana. No Brasil, nós [negros] éramos e ainda somos colocados em papéis inferiores na televisão. Eu não me via naquilo. Me via no [filme] 'Um Príncipe em Nova York', isso sim", contou a cantora, que passava horas em casa lendo o dicionário de inglês e sempre sonhou em se mudar da cidade em que cresceu (Xênia nasceu em Candeias, também na Bahia). "Fiz até a minha mãe me matricular num curso de idioma, pra você ver como eu era."

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