Entretenimento

O gótico nunca morreu porque ele sempre esteve morto

E os adeptos da subcultura estão de saco cheio do estereótipo "ser triste, vestir preto e ir no cemitério beber vinho químico".

por Marie Declercq
13 Julho 2018, 3:03pm

Foto: Larissa Zaidan/VICE

Já tem algum tempo que se discute a morte definitiva do rock como um gênero influente na cultura mundial. No entanto, a subcultura gótica nunca precisou se preocupar em estar viva ou atrair mais jovens para a cena. Ela simplesmente existe porque bastam duas almas interessadas em arquitetura gótica ou nas poesias de Augusto dos Anjos, mesmo que trancafiadas em uma cidade provinciana ou bastante calorenta, para garantir a continuidade dessa identidade.

Já que decretamos o rock como morto, por que não celebrar o Dia Mundial do Rock homenageando os góticos? Essa subcultura sofreu e sofre do mesmo mal do punk. Seu visual foi destrinchado, pasteurizado e vendido de todas maneiras possíveis. Eles já ouviram que Evanescence era a próxima promessa do gênero e são vistos como caricaturas: tristes, melancólicos, (talvez) satanistas e consumidores de vinho químico em cemitérios.

Óbvio que essa caricatura da pessoa gótica está longe de ser real. Os góticos são ávidos consumidores de literatura do século 19, são os que mais se importam com a preservação da história sem ligarem para a “morbidez” disso e também são muito mais comprometidos em apoiar sua cena local, seja indo para festas do gênero ou disseminando mais informações sobre a cultura gótica.

Achamos uma algema nesse galpão em Paranapiacaba. Foto: Larissa Zaidan/VICE

Para representar com classe o universo gótico paulistano, convidamos um grupo de amigos da subcultura para um rolê que soaria inusitado para as pessoas “normais”. Juntamos a galera numa van e partimos para a enevoada Paranapiacaba, distrito de Santo André, no ABC paulista. Fundado em meados do século 19 como um posto de controle e também de residência para os funcionários da São Paulo Railway, companhia que fazia a ligação do interior cafeeiro do estado através das primeiras linhas de trem, o distrito ainda mantém muito da arquitetura original da época e é um conhecido ponto turístico da região metropolitana de São Paulo. Muitas vezes coberta pela neblina da serra, Paranapiacaba tem muito de uma Londres vitoriana imaginária, o que atrai uma pequena horda de góticos para um encontro anual realizado ali desde 2016 – isso sem falar da beleza do antiquíssimo cemitério do distrito. Não teria lugar melhor para apresentarmos nossos homenageados.

Foto: Larissa Zaidan/VICE
Foto: Larissa Zaidan/VICE

A primeira coisa que o professor de Geografia Freon Sad estendeu quando estávamos a caminho de Paranapiacaba junto com mais outros cinco góticos foram três volumes do seu zine Última Quimera, dedicado a registrar a cena gótica de São Paulo e também discutir assuntos como representação feminina, a importância da preservação da memória de cemitérios da cidade e, óbvio, resenhar os últimos lançamentos de bandas góticas. “Acima de tudo, o Última Quimera nasce do desejo de construir um canal de participação coletiva, com conteúdo aberto e plural e acima de quaisquer rivalidades e vaidades”, escreveu o próprio Freon (também conhecido como Sad na cena gótica) na introdução da publicação.

O grupo de amigos nãos estava completo no dia, porém são sangue, carne e vísceras de uma subcultura que sempre preferiu fugir dos holofotes para existir como um refúgio para os rejeitados, os incompreendidos ou simplesmente pra aqueles que curtem muito um Sisters Of Mercy.

A pedido dos entrevistados, nós usamos apenas os apelidos para identificá-los.

Freon Sad. Foto: Larissa Zaidan/VICE

Freon Sad, 33 anos

“Acredito que quando o gótico saiu da grande mídia foi quando a subcultura e sua identidade começou a se desenvolver melhor. O gótico realmente nunca morreu, sempre existiu ao longo desse tempo. Tem bastante gente se identificando até hoje. Mas nós percebemos que mudou a forma da relação das pessoas com a subcultura. Se antes você tinha uma identificação musical e de atitude, hoje a gente percebe que a identificação geralmente acontece mais pela parte visual, então a estética do gótico foi vendida, pasteurizada e muitos acabam se aproximando pela estética. O problema talvez nem seja se aproximar por ele, mas parar por aí.”

Um livro: Eu e outras poesias - Augusto dos Anjos
Um filme: Esta noite encarnarei no teu cadáver - José Mojica Marins (Zé do Caixão)
Uma banda: Cabine C
Um cemitério: Cemitério da Quarta Parada

Kei Hrist. Foto: Larissa Zaidan/VICE

Kei Hrist, 23 anos

"A subcultura gótica é praticamente como um estado de alma. Tudo aquilo que é abordado é uma forma de sentir, de expressar, de pensar e não somente por meio da música, mas até em sua estética, concepções e autonomia. Que não faz distinção entre gêneros, etnias ou orientação sexual, então é uma identidade completa. Em todos os sentidos.”

Um livro: C onfissões do Crematório - Lições Para Toda a Vida de Caitlin Doughty
Um filme: Fome de Viver do Tony Scott
Uma banda: Mephisto Walz
Um cemitério: Cemitério do Araçá

Lays Bittersweet. Foto: Larissa Zaidan/VICE

Lays Bittersweet, 28 anos

“A maquiagem e a moda gótica costumam ser sempre o primeiro assunto que atrai as pessoas. Para falar da questão visual, da roupa, da maquiagem, precisaria ter uma pauta muito maior para conseguir esmiuçar a real importância disso na subcultura gótica, porque esse visual vem de várias vertentes de arte, de cinema e até mesmo de moda dos anos 1980, que tem um contexto social todo. Tudo tem um simbolismo. Tudo tem um significado. O próprio moicano, a própria maquiagem, o tipo de sombra que você usa.

Existe essa preocupação de como as coisas da cena gótica são representadas. Então temos essa preocupação em não parecer pejorativo, porque isso sempre vai pela construção errada de como as pessoas vão ver. Aí, quando uma entrevista abrange aquele lado do gótico que vai pro cemitério pra beber e ficar dançando em cima do túmulo, reforça cada vez mais que a única coisa que a gente sabe fazer é isso. Sendo que não é. Aqui quase todo mundo compartilha uma visão muito específica a respeito do cemitério, tanto que não é um lugar que a gente frequenta muito. Eu sou contra foto no cemitério, e contra ir lá fazer vídeo. Porque é um lugar de visitação e de memórias. Ele faz parte de algo importante da sociedade. As pessoas perderam ente queridos e estão ali e você tem que ter uma postura respeitosa sabe? Túmulo não é banco, nem pista de dança, nem motel.”

Um filme: Edward Mãos de Tesoura - Tim Burton
Um livro: Morro dos Ventos Uivantes - Emily Brontë
Uma banda: Kommunity FK
Um cemitério: Cemitério da Santa Casa em Porto Alegre (RS)

Liesel Raum. Foto: Larissa Zaidan/VICE

Liesel Raum, 23 anos

“Tem muito essa questão de identidade dentro da cena porque rola essa questão de góticos serem muito pálidos e brancos, na maioria. E quando você vem pro Brasil, que tem uma mistura muito grande, e fica “Ah, mas a pessoa não pode ser gótica e negra?”. Nós existimos. Eu sou a famosa white person, porque meu cabelo é crespo mas a pele é meio clara, então vejo que meus amigos negros sofrem mesmo, eu não sofri tanto. Mas em casa eu ouvi muito mais coisa até pela questão de “Não tem nada a ver, por que você tá se metendo com essa gente? Com essa seita?”.

Um filme: Amantes Eternos - Jim Jarmusch
Um livro: A Hora do Vampiro - Stephen King
Uma banda: Merciful Nuns
Um cemitério: Necrópole de São Paulo

Crow Corvo. Foto: Larissa Zaidan/VICE

Crow Corvo, 29 anos

"Acredito que o maior medo do ser humano é o desconhecido. Isso é unanimidade entre os estudiosos de sociologia, psicologia, não tem discussão. Considerando isso, como o cemitério acaba sendo um local onde as pessoas vão pouco no Brasil, acaba gerando, uma certa dúvida. Uma das principais perguntas que me fazem é o que que eu vou fazer no cemitério? Ou seja, as pessoas não sabem o que rola e o porquê estou lá. Esse desconhecimento acaba dando um grande medo em relação ao local, um medo da gente."

Um filme: Drácula de Bram Stoker - Francis Ford Coppola
Um livro: Frankenstein - Mary Shelley
Uma banda: Kirlian Camera
Um cemitério: Cemitério Municipal de General Salgado, interior de SP

Nathalia Snow. Foto: Larissa Zaidan/VICE

Nathalia Snow, 22 anos

“Já cheguei a me questionar. Tipo 'Ah cara, tantas minas brancas e você querendo ser gótica e sendo mestiça, negra?'. Não faz sentido para muita gente de fora, porque você não vê referências. São sempre as referências europeias e todas no mesmo padrãozinho, mas depois disso eu comecei a pensar que eu posso ser a minha própria referência ou ser referência pras outras pessoas.”

Um filme: Sweeney Todd: O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet - Tim Burton
Um livro: Contos Extraordinários - Edgar Allan Poe
Uma banda: Lebanon Hanover
Um cemitério: Cemitério da Quarta Parada

Colaboraram os repórteres Bruno Costa e Julia Reis

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