Crédito: Ilustrações de Kevin VQ Dam

​Como Comandar um País Prestes a Ser Engolido Pelo Mar

Os esforços do presidente de Kiribati para salvar sua população do aumento dos níveis dos oceanos.

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07 Dezembro 2015, 1:31pm

Crédito: Ilustrações de Kevin VQ Dam

Essa matéria foi publicada na edição de dezembro da revista VICE.


A distante nação de Kiribati (pronuncia-se Ki-ri-bas) é composta por 33 atóis localizados na parte central do Oceano Pacífico. As ilhas são pequenas e distantes uma das outras; se levarmos em conta suas águas costeiras, o país tem o tamanho da Índia. O problema é que essas porções de terra firme estão prestes a desaparecer: Kiribati corre o risco de ser um dos primeiros países a ser engolido pelo mar.

O país já passou por algo parecido numa escala muito menor. Há mais de meio século, quando Kiribati – na época conhecida como Ilhas Gilbert – estava sob domínio britânico, secas e desastres ambientais em algumas das ilhas menores obrigaram os colonizadores a transferir centenas de habitantes kiribatianos para a Ilha de Gizo, um dos atóis das Ilhas Salomão, onde eles se incorporaram lentamente à população local.

Isso aconteceu em 1954. Em outubro de 2015, o presidente do Kiribati, Anote Tong, visitou a Ilha de Gizo. Sua equipe anunciou que aquela era a primeira vez em que um presidente kiribatiano comparecia à esquecida comunidade de refugiados. A ocasião parecia muito alegre — Tong passeou pela maior feira de Gizo, cumprimentou seus conterrâneos; algumas pessoas o reconheceram da TV; outros não faziam a mínima ideia de quem ele era, e vários mal falavam a mesma língua — mas estava marcada por um tom muito sombrio.

Caso o aquecimento global siga no mesmo ritmo, muitas das ilhas de Kirabati correm o risco de desaparecer até o fim do século. Como resultado, veremos outros cenários muito parecidos com a visita de Tong à Gizo — um presidente que visita conterrâneos obrigados a abandonar sua terra natal.

Tong foi eleito em 2003, e sua saída está prevista para o ano que vem. Ele é um homem bronzeado, e seu cabelo e bigode têm o mesmo tom manchado de branco. Para alguém que está na vanguarda do apocalipse ambiental, ele é tranquilo e risonho. Embora represente um dos menores e mais pobres países do mundo (sua população é de 100.000 habitantes e seu PIB está em 193º lugar na lista mundial), Tong se tornou, por motivos óbvios, um dos maiores defensores de uma política de emissão de carbono mais rígida: se ele não fizer nada, o país que ele comandou por 12 anos deixará de existir.

"Os cientistas são bem categóricos", me disse Tong. Ele diz lutar para conscientizar o resto do mundo desde que as Nações Unidas divulgaram seu quarto relatório geral de mudanças climáticas. "Esse relatório, lançado em 2007, indica que estamos enfrentando um problema muito sério. Especialmente nós, os países insulares de pouca altitude", acrescentou. "Segundo as previsões, estaremos embaixo d'água até o final do século."

"É tarde demais para nós"

A urgência e a eloquência de seus apelos deram a Tong um lugar de destaque na política internacional. Ele se tornou uma figura conhecida nas Nações Unidas, uma referência no movimento de conservação marinha e um poderoso porta-voz da questão ambiental. Ano passado, durante uma entrevista na CNN, quando Fareed Zakaria questionou sua esperança quanto ao futuro de seu povo, ele respondeu com sinceridade: "É tarde demais para nós."

O destino de Kiribati nos permite vislumbrar nosso próprio futuro. A pequena ilha é nosso bode expiatório, e ela irá sofrer as consequências das mudanças climáticas antes de todos nós.

"Não podemos continuar a viver assim", disse Tong. "Podemos estar em risco hoje, mas outros países, outras sociedades e outras comunidades estarão em nosso lugar amanhã."

Em outubro, o TED, fundação que organiza ciclos de palestras sobre diversos temas, convidou Tong para uma conferência à bordo do National Geographic Orion, onde, junto de dezenas de cientistas, investidores e figuras públicas, ele falaria sobre a crise que seu país está enfrentando. Sentado no saguão do navio, ele discutiu as previsões de aumento do nível do mar, que o assustaram o suficiente para que ele decidisse espalhar sua mensagem para o resto do mundo.

"É claro que essas previsões já mudaram", ele me disse. "Não para melhor; na verdade, isso pode acontecer muito antes do que esperávamos." Não é mais uma questão de séculos, disse, até que Kiribati desapareça do mapa. "São décadas". E é provável que ele esteja certo.

Prever a exata elevação do nível do mar nos próximos anos é uma missão complexa, mas a comunidade científica concorda que os níveis estão aumentando numa taxa assustadora. Existem dois motivos para isso: o primeiro é que os oceanos estão absorvendo o calor excedente do aquecimento global (talvez em até 90%). Quanto mais os oceanos se esquentam, mais suas águas se expandem. E quanto mais elas se expandem, maior o nível do mar. Além disso, o degelo das grandes calotas polares— principalmente no Ártico, onde a Groelândia derrete num ritmo assombroso, e na Antártica, cujos mantos de gelo correm o risco de desaparecer — estão aumentando ainda mais o volume dos oceanos. O degelo das grandes geleiras e as mudanças nos níveis dos lençóis freáticos também são fatores importantes, mas a expansão termal e o derretimento polar são os fatores principais.

Graças a esse fenômenos correlatos, espera-se que nível do mar aumente nas próximas décadas. Estimativas mais otimistas sugerem aumento de apenas 30 centímetros; já no pior dos cenários, estima-se aumento de dois metros ou mais (a cidade de Nova Iorque já se prepara para um aumento de dois metros no nível do mar nos próximos 75 anos). O aumento do nível do mar pode ser maior ou menor, dependendo do quanto dióxido de carbono — substância que controla a temperatura dos oceanos e o desgelo das calota polares — a humanidade decidir lançar na atmosfera.

Até as estimativas mais otimistas representam uma ameaça para a terra natal de Tong. A altitude média de Kiribati é de dois metros acima do nível do mar. Muitas das partes não-habitadas das ilhas têm uma altitude ainda menor. Durante a maré alta, grande parte da população das ilhas não terá para onde ir. Dizer que as mudanças climáticas estão batendo na porta do país é um eufemismo; elas já estão na sala de estar, arruinando o carpete.

Tempestades violentas e o aumento progressivo do nível do mar já afetam o país. Embora seja impossível afirmar que uma tempestade esteja relacionada com o aquecimento global, Kiribati teve seu primeiro tufão esse ano, fenômeno que, segundo os cientistas, pode estar ligado ao aumento de temperatura. Tong enumerou os recentes desastres naturais que atingiram seu país. "Erosão costal", citou. "Estamos enfrentando inundações que nunca vimos antes. No começo desse ano tivemos um ciclone, ou o início de um ciclone, o que nunca havia acontecido antes. Muitas casas foram destruídas. Esses apenas alguns dos desastres que nunca haviam acontecido antes."

A crise trouxe vários marcos para a história de Kiribati. Ele é o primeiro país a comprar terras de um país estrangeiro para garantir a segurança de seu povo— o governo de Tong comprou um terreno de 6.000 hectares em Fiji, país que já afirmou estar de braços abertos para os refugiados. Um cidadão kiribatiano foi o primeiro a pedir asilo em outro país usando o aquecimento global como justificativa — e o primeiro a ter seu pedido negado.

Tong é obrigado a fazer o que muitos líderes nunca farão — elaborar planos absurdos para salvar o país, ou considerar as implicações de desaparecer no mar.

Planta das ilhas flutuantes artificiais da Shimizu. Crédito: Shimizu

"Nosso governo já escolheu uma estratégia", disse Tong. Essa estratégia envolve fazer o que for necessário para salvar Kiribati. "No momento, estamos considerando todas as possibilidades, que incluem até mesmo ilhas artificiais — por que não?"

Tong tem apoiado a ideia há anos, embora sem muito sucesso. Em 2011, ele anunciou um projeto de dois bilhões de dólares criado em parceria com a Shimizu, uma empresa de engenharia japonesa conhecida pelos seus projetos ambiciosos e futuristas.

O projeto da Shimizu consiste em ecossistemas flutuantes gigantescos; algo como o mundo de Waterworld mais futurista. "A última vez que vi as plantas, pensei: 'Uau, isso é coisa de ficção científica, algo vindo do espaço'", disse Tong em um discurso no Fórum das Ilhas do Pacífico deste ano. "Moderno demais para meu povo, eu diria. Mas o que mais eu posso fazer pelos meus netos? Se você e sua família corressem o risco de desaparecer, você também não consideraria morar em uma plataforma petrolífica como essa? Creio que a resposta seria 'sim'. Temos que considerar todas nossas opções."

Tong já pediu ajuda a engenheiros americanos, holandeses e dos Emirados Árabes. O problema, diz ele, é a falta de recursos. Kiribati é um país pobre. A nação luta contra um problema causada pelas nações ricas, responsáveis por grande parte das emissões de gases poluentes. E embora alguns filantropos já tenham pensado em formas de ajudar o país, poucos recursos foram enviados para auxiliar num plano de contingência.

"Não temos, em teoria, esse direito? Como não há nenhum acordo vinculativo, essas coisas estão acontecendo sem nenhuma discussão, sem nenhuma ajuda para aqueles que já sofrem os efeitos dessas mudanças climáticas, sem nenhuma punição ou regulamentação", lamentou-se Tong.

Ele lamenta a falta de um acordo vinculativo internacional que proíba ou limita as emissões de carbono que ameaçam a existência de Kiribati. Países como os Estados Unidos, a China e a Austrália têm evitado participar dessas negociações, por medo de que a regulamentação do uso do petróleo e do carvão mineral prejudique suas economias.

Crédito: Kevin VQ Dam

Ano passado, Tong anunciou a construção de uma reserva marinha do tamanho do estado da Califórnia, proibindo a pesca em grande parte de suas águas costeiras. Ele descreveu a iniciativa como uma tentativa de guiar o resto do mundo: a reserva fará o país perder milhões, mas além de ser uma medida necessária, ela demonstra que é possível agir contra nossos próprios interesses econômicos em prol do bem maior.

O único momento em que Tong, um homem acostumado a falar sobre a morte, pareceu nervoso foi quando citei o Congresso americano. O partido político que mais nega as mudanças climáticas é o Partido Republicano dos EUA. Graças a seus esforços, o Congresso americano nunca aprovou uma lei de redução de emissões, apesar do problema estar em voga desde os anos 90.

"O rumo que isso está tomando me deixa muito triste. Falamos sobre uma sociedade civilizada, sobre direitos humanos… Mas não fazemos nada na prática", disse. "Os Estados Unidos defendem os direitos humanos. Sempre nos perguntam, 'qual é seu histórico de direitos humanos?'" (o histórico de direitos humanos do país já foi criticado por grupos internacionais e pelo governo americano, principalmente por causa da discriminação contra mulheres e crianças). "Anote o que digo: esse é o maior ataque aos direitos humanos da história. Estão nos privando de um futuro. Ameaçando nossa própria existência."

Tong e seu país estão impotentes diante da quase certa calamidade, do genocídio cultural que muito provavelmente os espera. Ele teme por sua família (tem oito filhos) e por todas as famílias de seu país. "Isso já está acontecendo. Eu tenho visitado várias ilhas, e acredito que muitas pessoas terão que deixar suas vilas em pouco tempo. Nos próximos cinco anos, na verdade. As inundações estão acontecendo com uma frequência cada vez maior".

Numa ilha prestes a afundar, não há para onde fugir. Eventualmente, o povo de Kiribati terá que migrar. Esse é só outro exemplo de como Kiribati se tornou o bode expiatório dos pecados ambientais do mundo."Se nós não diminuirmos nossas emissões", disse, "teremos o processo de migração mais massivo da história. E nós não seremos os únicos buscando asilo".

É provável que ele esteja certo. Os estudos mais recentes indicam que, até o final do século, grande parte do Oriente Médio ficará tão quente que será impossível sair de casa durante algumas épocas do ano. Secas já atingem lugares como o Iémen, o Brasil e o Sudoeste americano. O aumento do nível do mar está atingindo países populosos como Bangladesh. Algumas dessas condições ficarão tão extremas que as migrações em massa se tornarão rotineiras; a questão é apenas onde, quando e quantas pessoas. Estamos prestes a ver mais discórdia, conflitos e sofrimento. (Vejamos o exemplo de Gizo, onde os descendentes dos refugiados kiribatianos vivem tranquilamente e sem os mesmos direitos dos cidadãos das Ilhas Salomão, como um outro exemplo do que nos espera).

A forma como lidamos com o problema de Kiribati pode revelar como ajudaremos outras nações em perigo, outras culturas ameaçadas, no futuro que vem aí. "Sempre descrevi as mudanças climáticas como um dos maiores desafios morais já enfrentados pela humanidade", fala Tong. "Estamos fadados a ser um dano colateral, um desastre que precede a resposta decisiva? Essa é a questão... Nós nos consideramos uma sociedade muito civilizada. Agora veremos quem é de fato civilizado."

Tradução: Ananda Pieratti