É horrível ser difamado pelo Bolsonaro

Dois professores de Brasília tiveram suas vidas viradas de cabeça para baixo depois que o parlamentar mais amado da direita nacional editou vídeos dos dois e publicou no YouTube.

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05 Novembro 2013, 7:10pm

A professora Tatiana Lionço em cena do documentário "No Brasil de Cris e Tati – A Luta Pela Liberdade".

Escudado pela valorização da família tradicional, da moral e dos bons costumes, o deputado federal Jair Bolsonaro não se contenta somente com sua atuação na Câmara dos Deputados, lançando quase semanalmente pérolas em formato audiovisual em seu canal do YouTube. Isso, obviamente, acarretou novas dores de cabeça à vida do parlamentar. Durante a polêmica do assim chamado "kit-gay", os professores Cristiano Lucas Ferreira e Tatiana Lionço, ambos militantes da Companhia Revolucionária Triângulo Rosa, foram alvos de uma campanha difamatória encabeçada por Bolsonaro, que editou vídeos em que os educadores participavam de congressos e seminários – basicamente destruindo o sentido original de suas falas e ações – e os colocou na internet. Posteriormente, os vídeos foram tirados do ar – segundo o deputado, pelo próprio Youtube –, mas outras pessoas, inclusive perfis fakes, continuam replicando-os rede mundial de computadores afora. Com apoio do Sindicato dos Professores do Distrito Federal (SINPRO), os educadores entraram com uma representação judicial contra o político.

"É esse tipo de pessoa, com esse comportamento, que você quer nas escolas?" – assim Bolsonaro inicia um vídeo no qual mostra imagens do professor Cristiano com cartazes que dizem "Queremos maconha e ensino público de qualidade" e "Meu cu é revolucionário". O vídeo também traz um trecho de Cristiano no Congresso, dizendo "Sou viado, sim. Sou viado e com orgulho". Por telefone, o professor explicou: "No dia 10 de março, tinha um grupo muito intenso de apoiadores do Marco Feliciano aqui de Brasília. E eles já nos conhecem. Nós nos encontramos em todas as audiências públicas. Nesse dia, eles estavam mais raivosos do que de costume. Começaram a nos empurrar, nos agredir. Quem estava filmando era o próprio Bolsonaro. Foi ele que filmou com o celular. No meio da confusão, o filho de uma das ativistas que nos acompanhava foi empurrado. Eu fui para cima do cara, questionar por que ele estava empurrando um garoto de 14 anos e ele mandou eu ir praquele lugar e me chamou de viado. Foi aí que gritei 'Sou viado, sim. Sou viado e com orgulho'. Nisso, o Bolsonaro olha para mim e quebra a mãozinha. Sabe quando você quer pejorativamente chamar alguém de gay? Aí fui e mostrei o dedo para ele. E deu no que deu".

Por e-mail, perguntei ao deputado Bolsonaro qual era o objetivo desses vídeos. Sua resposta foi: "Demonstrar à sociedade brasileira e principalmente aos pais de crianças em idade escolar os absurdos que estão impondo a seus filhos nas escolas públicas de ensino fundamental".

O parlamentar também subiu um vídeo editado do 9º Seminário LGBT no Congresso Nacional (15/05/12). Durante o evento, a professora universitária Tatiana Lionço, pesquisadora na área de sexualidade humana e gênero, usava conceitos freudianos para abordar a sexualidade infantil enquanto uma atividade comum e humana. "Quando meninos e meninas brincam, inclusive sexualmente em seus corpos com outros meninos e meninas, eles não estão sendo gays ou lésbicas. Não é disso que se trata. Quando meninos e meninas usam vestimentas do sexo oposto, eles não estão sendo necessariamente travestis e transexuais." No vídeo postado por Bolsonaro, as falas da professora são totalmente editadas, dando a entender que seu discurso traz contornos que simpatizam com a pedofilia.

Mãe de duas crianças, Tatiana diz que assim que tomou conhecimento do vídeo, em junho desse ano, reagiu publicamente. A partir daí, novos conteúdos foram publicados a seu respeito. Inclusive coisas de seu Facebook, como uma foto em que posa com François Sagat, aquele ator pornô francês que estrelou um filme do Bruce LaBruce. "Usam essa imagem para dizer o risco das reflexões que faço sobre educação, o risco das crianças nas escolas; de pessoas como eu participarem do projeto de construção de políticas públicas, de discussão sobre educação". A associação de pedofilia ao nome da professora veio, principalmente, da frase dita no seminário "Peço que deixem as crianças brincarem sexualmente em paz". Fotos dela e de uma amiga dividindo uma espécie de doce em formato de pênis também apareceram em blogs reacionários, como o Mulheres Contra o Feminismo, que a acusam de propagar o "marxismo cultural" pelo Brasil, um "país sem valores morais". O blog também alerta seus leitores ao fato de Tatiana ser professora universitária e pesquisadora federal e, portanto, ser "paga com o nosso dinheiro".

O professor Cristiano Lucas Ferreira em cena do documentário "No Brasil de Cris e Tati – A Luta Pela Liberdade".

Em um dos vídeos sobre Cristiano, o deputado coloca na tela a matrícula funcional do professor. Depois dessa divulgação, um blog cristão chamado Defesa Hétero fez um post pedindo que as pessoas o denunciassem para o secretário de educação do Distrito Federal. O professor, que trabalha no Núcleo de Diversidade da própria Secretaria de Educação de Brasília, diz que mais de 300 e-mails foram enviados pedindo sua exoneração – que nunca aconteceu. "Não trabalho com crianças atualmente. Trabalho com professores e professoras. Minha militância acontece fora do meu local e horário de trabalho. Então, em nenhum momento isso poderia caracterizar uma necessidade de sindicância". O secretário de educação do Distrito Federal, Marcelo Aguiar, disse que as mensagens foram, de fato, recebidas, mas que em nenhum momento o assunto virou um embate dentro da secretaria. "É uma discussão que não tem sentido, pois todos os fatos ocorreram fora do ambiente de trabalho. Acho que nossa sociedade já passou do tempo da intolerância", falou. Para o Dr. Wadih Damous, presidente da Comissão Nacional de Direitos Humanos da OAB, os vídeos postados por Bolsonaro "são claramente difamatórios, caluniosos e injuriosos". Questionado sobre alguma possibilidade de ação jurídica sobre os conteúdos editados, ele disse que a comissão irá propor ao Conselho Federal da OAB que ingresse com um pedido de processamento de júri por quebra de decoro parlamentar. E o que pode acontecer com Bolsonaro? Segundo o Dr. Wadih, "se a Câmara dos Deputados entender que ele incorreu na prática de quebra de decoro, ele perde o mandato".

Perguntei ao deputado Bolsonaro se ele teme ter seu mandato cassado. "A OAB não tem competência para me processar, pois não tenho qualquer vínculo com essa instituição", retrucou. Sobre a exibição da matrícula funcional do professor Cristiano, o deputado diz que a retirou do próprio vídeo que tratava do seminário. "Tenho reiterado que qualquer parlamentar não deve temer em ter seu mandato cassado sob pena de perder sua autonomia na defesa de suas opiniões, que são suas marcas junto a seus eleitores e àqueles que nele confiam."

Se o jornal de hoje embrulha o peixe de amanhã, a internet possui a assustadora capacidade de armazenar coisas, registrar nomes e fatos. É o que acontece quando você joga o nome dos dois professores no Google. Tatiana diz que, por enquanto, não pode medir o estrago, mas que soube tirar forças mesmo depois de ter sua vida virada de cabeça para baixo. "Retardamento de planos para ter que focar nessa reação, enfraquecimento físico, perda de fé. Tive que reservar minha energia para esse tipo de reação. Não aceitei que ficaria nesse ponto, de que eu poderia, sim, vir a ser prejudicada em minha carreira; de que eu poderia, sim, perder respeito de muitas pessoas por ser representada como uma degradação, como uma imoral, uma pedófila. Junto com isso, com a depressão, veio uma maior disponibilidade da minha parte para o ativismo político. Eu me envolvi muito de perto com as mobilizações em relação ao Feliciano na Comissão de Direitos Humanos aqui em Brasília. Não dá para falar que eu fiquei só mal. Eu tive que juntar forças para fazer com muita assertividade um trabalho de ativismo. Esse foi o lado bom."

Para os dois professores, uma das maneiras de esclarecer a situação foi lançar o documentário "No Brasil de Cris e Tati – A Luta Pela Liberdade", produzido pela OCUP (Organização de Comunicação Universitária Popular). Mas, obviamente, o alcance desse vídeo é muito pequeno se comparado ao dos vídeos postados pelo deputado. Cristiano e Tatiana sequer cogitam largar a militância ou se abster de suas opiniões políticas. O quê, para o deputado Bolsonaro, parece ser absurdo. "O que assistimos hoje são muitos professores que dedicam muito espaço de tempo buscando impor suas preferências políticas, homossexuais e outras em detrimento das matérias que deveriam ensinar a seus alunos", declarou.


Assista ao nosso documentário O Mito de Bolsonaro