Sexo

O fanzine de erotismo masculino Snaps chega à sua última edição

Conversamos com o fotógrafo peruano radicado no Brasil Gianfranco Briceño sobre a quinta e última publicação do incrível zine de nu masculino.

por Gianfranco Briceño; Texto por Marie Declercq
30 Março 2016, 10:00am

Todas as fotos são do Gianfranco Briceño.

Após cinco edições focadas exclusivamente no nu masculino, o incrível Snaps Fanzine chega gloriosamente ao seu fim, depois de dois anos de existência. O fotógrafo de moda Gianfranco Briceño, que é peruano e radicado no Brasil, criou o projeto com a intenção de mostrar o "lado B" do seu trabalho e também porque há tempos sentia que o Brasil é carente de publicações que lidem com o erotismo masculino de uma maneira mais sensibilizada.

Basta dizer que foi sucesso certeiro desde a primeira publicação em 2013. "A ideia era fazer uma publicação em que pudesse mostrar essas imagens de uma forma simples, direta e ao mesmo tempo delicada, já que a nudez masculina sempre foi tratada como um tabu", conta o fotógrafo.

Os cliques de Briceño são simples e sem maiores pretensões. Neles, homens bonitos pousam descontraídos em ambientes sóbrios onde o foco é puramente o corpo. O trunfo do fotógrafo foi tratar a erotização do corpo masculino sem cair nos clichês de "machomens" saídos de revistinhas pornô. O que antes parecia ser um espaço reservado só ao corpo feminino e suas curvas, agora se tornou natural com as fotos do fanzine.

Depois da primeira edição, com fotos descontraídas de seus amigos, o sucesso foi tanto que Gianfranco viu que teria que continuar com o projeto. "Quando a primeira edição ficou pronta o retorno foi gigantesco. Pensei: 'Ainda tem muita coisa para fazer com este projeto' E aí ele virou semestral".

Com toda a repercussão, dá para ousar em dizer que o Snaps Fanzine talvez tenha conseguido preencher uma lacuna no mercado editorial no que diz respeito ao erotismo masculino. Por esse mesmo motivo, inclusive, que Gianfranco resolveu encerrar o projeto nesse ano.

"Senti que nessa última edição o projeto tinha chegado ao seu ápice, e resolvi que encerrá-lo nesse momento seria a melhor opção. Desmistificar a nudez masculina, discuti-la, mostrá-la para o mundo era o objetivo, e tudo isso foi feito", explica.

Nos dois anos mergulhado de cabeça na labuta do Snaps, Gianfranco foi trazendo novas propostas em cada edição e colocando modelos diferentes para ilustrar as páginas. Ele também foi evoluindo no trabalho com as sugestões de leitores. "algumas edições são cheias de meninos de todos os tipos, em outras tem meninos mais novos, outras edições tem meninos mais fortes e por aí vai. Muita gente pediu representatividade de negros, e 'enegrecer' a revista foi uma das melhores coisas que fiz, inclusive a capa da quinta edição é de um menino negro, e uma das minhas fotos favoritas", conta.

Apesar de parecer que o trabalho é relativamente fácil quando a gente olha pros boys (todos lindos, óbvio), o fotógrafo relembra que cada edição tem muito trabalho braçal — desde as as sessões de fotos, diagramação e mandar tudo pelo Correio — e demoram meses para ir às ruas. "São basicamente uns quatro-cinco meses de trabalho intenso: dois meses fico fotografando, mais um mês para editar/diagramar e mais uns dois meses de campanha arrecadando (pedindo!) o dinheiro; fora as idas para a gráfica, envelopamento, idas aos Correios, cuidar das entregas, entre outras coisas." Nessa última publicação, o trabalho também foi igualmente intenso e o foco foi em garotos mais novos, muitos deles que tinham acabado de completar 18 anos.

"O ponto de partida era esse, além de um físico mais delicado, sem muita barba ou corpão de homem, meu foco foi além disso. São meninos cheios de atitude, de uma geração que está chegando com tudo, são mais abertos, livres, esclarecidos. Diferente de as edições anteriores todos foram fotografados no mesmo lugar, uma quarto branco e vazio no meu apê no centro de São Paulo. Tive que criar uma dinâmica diferente. Primeiro ficávamos conversando um bom tempo sobre o projeto, o que eles faziam, depois entravamos no quarto e eu colocava uma música que significasse algo para eles, ou que simplesmente os fizesse ficar a vontade, daí eu mandava dançar, pular, rolar no chão, etc. Foi divertido e me ofereceu fotos que eu amo", explica.

Com o anúncio de encerramento dos trabalhos, não é besteira dizer que o Snaps fará muita falta nas feiras de publicações independentes do país. Ainda assim, a porta aberta por Briceño promete gerar muitos frutos e trabalhos legais sobre o corpo masculino que sentimos falta. O fotógrafo lembra que ainda há muita coisa para explorar por aí. "Foi apenas o comecinho", diz.

"Acho que fazer uma publicação cheia de imagens de homens nus é uma questão política, principalmente no Brasil, que é um país super conservador, onde o corpo feminino é usado e abusado para vender qualquer coisa que você possa imaginar, mas o masculino é sempre oculto, mascarado, pouco explorado por ser, sei lá, obsceno aos olhos da família tradicional brasileira. Ainda há muito a se discutir sobre a nudez masculina como um todo."

A quinta e última edição do Snaps Fanzine já está na pré-venda no Catarse. E abaixo, mais fotos exclusivas.