HISTÓRIAS DE VIDAS QUE INSPIRAM

Tasha e Tracie Okereke são a voz das meninas pretas pobres da favela

“Queremos fazer as pessoas terem a consciência de que elas podem fazer tudo”

por Taís Toti
17 Outubro 2016, 12:51pm

É impossível não se encantar por Tracie e Tasha Okereke. As irmãs gêmeas e geminianas são lindas, estilosas, e conhecidas como as it girls da favela por criarem looks incríveis com roupas customizadas e de brechó. Não bastasse serem uma inspiração fashion, as garotas de 21 anos querem construir um império com o empoderamento feminino. Com o movimento Expensive $hit, que ganha vida por meio de um blog e de festas às vezes no centro, mas principalmente nas quebradas de São Paulo, elas promovem "a auto-estima da mulher jovem, preta e favelada". "Queremos fazer as pessoas terem a consciência de que elas podem fazer tudo; que elas se sentissem poderosas, aí elas iam ver o quanto de poder elas têm", diz Tracie.

O Expensive $hit, elas contam, surgiu da necessidade. Sem grana para comprar roupas novas, elas customizavam as que ganhavam ou que compravam em brechó. Além disso, não encontravam nas revistas do mercado dicas para cuidar de cabelos crespos, nem histórias sobre negros que foram referência no mundo da música e da moda. "Todos os posts são dúvidas nossas também, a gente lia as coisas e não achava que as matérias eram para a gente", conta Tasha. A ideia é se comunicar com meninas que são como elas, então os editoriais de moda têm no máximo duas ou três peças que não são de brechó, mas a maioria custa no máximo 20 reais. No mês que vem, elas estreiam uma marca de roupas, com peças reformadas e algumas criações próprias.

"Fazemos os editoriais pra mostrar pra elas que você pode sim comprar uma roupa cara, mas isso não te define, você não vai ser menos foda se não tiver ela", diz Tasha. O lema principal é "foda-se as etiquetas", mas "a parte visual é importante, mas não é tudo". Por isso, muito espaço no blog é dedicado a contar a história de ícones negros, que foram deixados de lado pela sociedade racista. "Queremos uma próxima geração mais imponente e orgulhosa e inteligente, porque essa geração não sabe nada de si mesmo, da própria história", diz Tracie.

Todo esse processo de explorar a beleza e a história negra contribuem para que as leitoras possam ganhar auto-estima. "Pra ter auto-estima a gente tem que ter orgulho, pra ter orgulho a gente precisa saber de onde veio", explica Tasha. "Viemos para criar representatividade, mas não só a representatividade visual".

Sendo ícones de beleza e cultura para jovens negras de São Paulo e do país, elas transmitem muita auto-confiança. Mas não foi sempre assim. "Na verdade, sempre fomos extremamente sem auto-estima e muito tímidas. A gente tinha complexo que era muito magra, que tinha o pé muito grande, com o cabelo também", diz Tasha. Ela diz que nunca achou o cabelo crespo feio nem teve vergonha de usar, mas a falta de representatividade era tanta que quando ela via cabelos armados bonitos, achava que era outro tipo de cabelo, e não o dela. "É a mesma coisa que escuto todos os dias das meninas aqui da minha quebrada: 'nossa, o seu cabelo é tão lindo, o meu não fica assim'. Lógico que fica, é que você nunca viu". Mesmo tendo um tipo de cabelo bem comum entre as brasileiras, elas ainda têm que enfrentar olhares curiosos das pessoas, seja na quebrada ou no metrô.

As festas promovidas pelas gêmeas Okereke também trabalham, de maneira quase indireta, na representatividade. "A gente quer levar música com preço acessível e também a parada visual, porque vem muita menina empoderada, incrível, com cabelão, e isso muda muita coisa na quebrada, porque dá auto-estima pras meninas". Para elas, as jovens da periferia não se sentem confortáveis quando saem fora da própria quebrada, mas elas querem não só descentralizar os rolês como promover a circulação dessas garotas por toda a cidade.

O gosto delas pela música vem de berço. "Meu pai é DJ, ele gosta muito de hip-hop, de música old school, de disco... ele é muito musical e essa música é predominantemente preta", diz Tasha. Filhas de mãe branca brasileira e pai nigeriano, elas se consideram igbos. "Sempre gostei de música africana, de estampa africana, isso vai levando a gente um pouquinho mais perto da nossa ancestralidade".

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