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A VICE Adora a Magnum

Thomas Dworzak Fotografa Soldados Norte-Americanos Tristes e Posers Talibãs

O primeiro livro de Thomas Dworzak, Taliban, foi um projeto de fotos encontradas que deixou muitos norte-americanos cabreiros, gente que não queria ver como os talibãs eram quando estavam se divertindo por aí.

por Bruno Bayley
09 Maio 2013, 3:30pm


IRAQUE. Próximo de Tikrit/Samara, Base Norte-americana de Operações Avançadas Speicher, evacuação aeromédica, 14 de abril de 2005. A companhia médica 1159 evacua soldados americanos feridos e forças iraquianas.

A Magnum é provavelmente a agência de fotógrafos mais famosa do mundo. Mesmo que você não tivesse ouvido falar dela até agora, é muito provável que já conheça suas imagens – seja a cobertura de Robert Capa da Guerra Civil Espanhola ou as paisagens de férias bem britânicas de Martin Parr. Diferente da maioria das agências, os membros da Magnum são selecionados pelos outros fotógrafos da agência e, como eles são a maior agência de fotógrafos do mundo, se tornar um membro é algo muito difícil. Como parte de uma parceria com a Magnum, vamos apresentar o perfil de alguns de seus fotógrafos nas próximas semanas.

Thomas Dworzak entrou para a Magnum em 2000. Seus livros geralmente lidam com guerra. O primeiro, Taliban, foi um projeto de fotos encontradas que deixou muitos norte-americanos cabreiros, gente que não queria ver como os talibãs eram quando estavam se divertindo por aí. Já M*A*S*H IRAQ examinou o cotidiano das equipes de evacuação aeromédica no Iraque, e seu último livro, Kavkuz, explorou o impacto de anos de guerra brutal na região do Cáucaso. Estranhamente, apesar de ter fotografado nas condições mais infernais imagináveis, ele acha que Paris é o lugar mais difícil de se trabalhar.

VICE: Você frequentemente é descrito como um “fotógrafo de guerra”. Como você se sente em relação a isso?
Thomaz Dworzak: É um rótulo. O que você vai fazer? Não vou dizer que não sou, porque vou, e costumava ir frequentemente, para áreas de conflito. Mas definitivamente há pessoas por aí que estão mais nessa linha do que eu. Há uma escala de envolvimento numa guerra em que uma pessoa pode estar. E eu não estou no topo disso.

Como trabalhar na Chechênia durante a guerra foi diferente do seu período no Iraque?
Acho que na Chechênia eu estava mais no chão. Eu pegava carona, caminhava sozinho. Você podia falar com os combatentes, podia passar algum tempo com eles e, se houvesse um ataque, você podia chegar ao local com eles. Isso era feito de um jeito pessoal muito desorganizado, cara a cara. Acho que a Chechênia foi muito extrema como guerra, comparada com qualquer outra coisa que já vi.


IRAQUE. Acampamento Sykes, entre Mosul e a fronteira com a Síria, cidade de Talofar, 16 de janeiro de 2005. Força Tarefa 1-14. Patrulha a pé em conjunto com a GNI (Guarda Nacional Iraquiana) e a polícia iraquiana. Encorajamento dos eleitores locais. A patrulha ficou presa num tiroteio de duas horas com os insurgentes.

Extrema de que maneira?
Só pela enorme quantidade de coisas que vi voando ao meu redor. Foi uma guerra atroz. A guerra na Bósnia foi brutal, claro, mas não houve tanta destruição física, isso foi mais matança e vingança num nível muito pessoal e humano, entre vizinhos ou sei lá o quê. A Chechênia foi brutal de todas as maneiras. A destruição de Grozny atingiu um nível que eu nunca tinha visto e nunca mais vi. Acho que você pode ver algo assim agora em Alepo, por exemplo. Não houve credenciamento quando eu estava trabalhando lá, não havia burocracia. Aprendi russo para poder falar com os soldados. Eles me receberam bem, então passei algum tempo com eles. No Iraque e no Afeganistão eu estava incorporado. Você tem sua papelada e os militares têm que cuidar de você.

De que maneira isso afetou seu trabalho? Qual a sua visão sobre o formato incorporado, você acha que isso funciona bem?
Acho que há um estranho tipo de liberdade na estrutura de um incorporado. Muita gente tem reclamado disso, falando que os incorporados são “o fim da liberdade de imprensa” e tal, mas não acho que isso seja verdade. Não sei nada sobre o Iraque; não tenho visto o Iraque fora do ponto de vista norte-americano há muito tempo agora. Mas se escolhi cobrir o ângulo norte-americano, então ser incorporado não é um jeito ruim de fazer isso. Como é algo muito institucionalizado, você realmente pode se mover por todo lado e fazer muito. Você não precisa implorar, você não precisa se preocupar com nada. É um pouco maçante nesse sentido. Você só precisa seguir os caras na sua frente. E não há muitas decisões a tomar. Acho trabalhos incorporados uma coisa bem relaxante nesse sentido.

O projeto M*A*S*H* IRAQ foi concluído de uma vez só como incorporado?
Foi quase tudo trabalho incorporado. Não quero enfatizar excessivamente o fato de que algumas fotos – apenas algumas – não foram feitas como incorporado, como deveria ser num livro sobre trabalho incorporado. Não sei, talvez foram um ou dois anos, algo assim. A parte principal do trabalho foi feita durante um ano e talvez uns cinco ou seis trabalhos incorporados com as unidades médicas durante esse tempo.


2005. M*A*S*H. Screenshot da séria de TV norte-americana que foi ao ar de 1969 a 1981 sobre um hospital do exército e a unidade aeromédica de evacuação próximos da linha de frente na Guerra da Coreia.

E como surgiu a ideia de incluir imagens da série M*A*S*H no livro?
Na verdade, quando comecei o projeto, eu não conhecia a série. Acho que devo ter visto metade de um episódio quando era criança, mas isso definitivamente não era parte do meu histórico cultural. Quando comecei o trabalho incorporado, um amigo me mandou o box de DVDs para que eu não ficasse entediado. Para esse trabalho, passei o tempo todo sentado ao lado de um campo de aviação esperando para voar e resgatar feridos, então era muito barulho, por isso eu assistia com as legendas ligadas. Não sei por que comecei a tirar fotos da tela, mas do nada eu tinha uma ou duas citações incríveis. Foi engraçado ver que 20 ou 30 anos depois, nos achávamos na mesma situação, com os mesmos pontos de discussão. Alguns dos médicos mostravam um humor negro similar, mas geralmente era tudo muito antisséptico. É um exército voluntário, você não é convocado, é tudo limpo e, claro, não há hippies.

Em contraste com seu trabalho na Chechênia e em M*A*S*H IRAQ, seu trabalho no livro Taliban foi mais um projeto “achado”, certo?
Um projeto “roubado”, provavelmente...

E você encontrou as fotos num tipo de estúdio próximo de onde você estava ficando em Kandahar, certo?
Eu as encontrei e depois as comprei. Fui parar nesse laboratório fotográfico e disse para os proprietários: “Posso comprar, tirar fotos ou ter uma impressão dessas fotos? Gostei muito disso”. Eu estava muito entusiasmado, eles ficaram surpresos com o meu interesse e me venderam as fotos por 20 ou 40 dólares. Eles não se importaram. Os fotógrafos estavam putos com o Talibã, então ficaram felizes de alguém ter pagado pelas fotos. Eles definitivamente não achavam que elas tinham qualquer valor. Foi estranho, os talibãs primeiro proibiram as fotografias, depois fecharam os estúdios, depois reabriram os estúdios, daí pediram para ser fotografados, mas não deixaram mais ninguém fazer isso.


AFEGANISTÃO. Kandahar, 2002. Retrato talibã. Mais aqui

Muito estranho mesmo. Acho que muitas das fotos devem representar gente que está morta agora, apesar de ser impossível saber com certeza. Você teve alguma resposta do projeto?
Não. Mandei o livro para os donos do estúdio, esperando saber alguma coisa deles, mas nunca tive resposta. Antes de imprimirmos o livro, tentei entrar em contato com eles para saber se queriam dizer alguma coisa. As pessoas falam muito sobre o projeto e minha associação a isso, mas sou apenas o mensageiro. Eu só queria expor essas fotos e garantir que elas não se perdessem. Não tem nada a ver comigo ou com a minha fotografia.

Fui muito criticado na Europa por ter desrespeitado a cultura, como se eu tivesse tirado essas fotos. As pessoas ficaram indignadas, do tipo: “Como você ousa vestir esses homens desse jeito?”. Como se eu tivesse violado a dignidade do Talibã ou algo assim, o que foi muito divertido. Foi difícil publicar isso em Nova York. O livro se tornou muito popular na comunidade gay, ele foi publicado na Alemanha por uma editora especializada em temática gay.

Aposto que o Talibã ia ficar superfeliz de ouvir isso. Que lugar você achou o mais difícil para trabalhar?
Hum, França? Paris, especificamente.

Sério? Mais do que a Chechênia e as outras zonas de guerra?
Sim. No sentido de como as pessoas suspeitam de você em Paris. Eles glorificam a fotografia e têm imagens do Cartier-Bresson por todo lado, mas, ao mesmo tempo, toda vez que você quer tirar uma foto, todo mundo fica realmente perturbado. Eles têm um discurso pronto, a coisa toda treinada sobre como os fotógrafos são horríveis e quão nojento é o que eles fazem.

Em 2001 ou 2002, fizemos um projeto em grupo no 18º Distrito de Paris. Era algo como “18 Fotógrafos da Magnum Fotografam o 18º”. A ideia era que todo mundo conseguisse uma história diferente. Eu era o mais jovem, então peguei a atribuição trote que era cobrir os usuários de crack de Chateau Rouge, uma estação de metrô fodida da cidade. Cobrimos tudo, dos assistentes sociais aos viciados, e todo mundo tinha muito a dizer sobre como fotógrafos são horríveis.

No que você está trabalhando atualmente?
Estou de volta ao Cáucaso. Estou me concentrando na Geórgia contemporânea e moderna. O que fiz antes foi mais uma visão romântica do Cáucaso, que transformei no livro Kavkaz. Esse era sobre a interação entre a literatura russa e a imagética típica do Cáucaso. Agora estou no outro extremo, esse trabalho novo será colorido e focado nos aspectos modernos da região. Excluí o que geralmente atrai as pessoas para esse lugar; o pitoresco, o nostálgico, as férias na montanha selvagem – não fiz nada disso. Fotografei inaugurações de posto de gasolina, que são muito mais interessantes.

Clique nas próximas páginas para ver mais fotografias de Thomas Dworzak.


CHECHÊNIA. Grozny, 2002. Hospital nº 9. Mais de uma dezena de civis se feriram quando um veículo blindado do exército russo bateu num ônibus.


IRAQUE. Base Falcon, Bagdá, janeiro de 2005. Base Falcon nas semanas antes e depois das primeiras eleições iraquianas em 30 de janeiro de 2005. Evacuação aeromédica de quatro caminhoneiros turcos gravemente feridos num ataque com lança-foguetes ao comboio de suprimentos para o exército norte-americano. O ataque continuou durante a evacuação.


IRAQUE. Base Falcon, Bagdá, janeiro de 2005. Base Falcon nas semanas antes e depois das primeiras eleições iraquianas em 30 de janeiro de 2005. Evacuação aeromédica de quatro caminhoneiros turcos gravemente feridos num ataque com lança-foguetes ao comboio de suprimentos para o exército norte-americano. O ataque continuou durante a evacuação.


IRAQUE. Falluja, 12 de junho de 2005. Província de al-Anbar. Soldados americanos e iraquianos recebendo informações para patrulha. Segunda Força Expedicionária do Exército, soldados norte-americanos do acampamento Lejune, norte.


AFEGANISTÃO, 2002.


CHECHÊNIA. Grozny, fevereiro de 2002.


CHECHÊNIA. Grozny, fevereiro de 2002. Corpo de um checheno que trabalhava para o Departamento de Trânsito da milícia chechena pró-Rússia e que foi baleado em seu carro.


AFEGANISTÃO. Kandahar, 2002. Retrato talibã.


AFEGANISTÃO. Kandahar, 2002. Retrato talibã.


IRAQUE. Próximo de Tikrit/Samara, Base de Operações Avançadas Speicher, evacuação aeromédica, abril de 2005. Soldados e médicos assistem a morte de um camarada. O soldado americano, ferido por um bomba que explodiu o comboio onde ele estava, morreu depois no hospital de apoio.

Anteriormente:

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