literatura

"Um Copo de Cólera": a melhor treta da literatura nacional completa 40 anos

Na prosa de Raduan Nassar, a briga de um casal se tornou estranhamente sublime.

por Guilherme Henrique
19 Setembro 2018, 10:00am

Foto: Cristiano Navarro

Raduan Nassar costuma dizer que sua obra é composta por um livro e meio. Para quem conhece o escritor paulista de Pindorama, há de se imaginar que a parte inteira a que se refere seja Lavoura Arcaica, de 1975, que tem como protagonista o jovem André e o retorno ao lar patriarcal esfacelado pela relação incestuosa com a irmã Ana.

A parte denominada por Nassar como “meio” abarca contos como Menina a Caminho e Mãos de Seda, e uma novela com menos de cem páginas, um “paralelepípedo lírico”, como ele denominou já não se sabe quando, para dar a dimensão do que é Um Copo de Cólera, livro que está completando 40 anos em 2018.

Traduzido no início de 2016 para o inglês, o livro tem se destacado na imprensa internacional, com resenhas elogiosas em jornais como The Guardian e The Independent. No mesmo ano, a cólera do escritor ficou ainda mais conhecida ao chegar a semifinal do reconhecido do Man Booker International Prize, o prêmio literário mais prestigioso do Reino Unido.

A história é conhecida. Uma treta monumental entre um homem de meia idade e uma jovem mulher depois de uma noite de sexo e alguns cigarros fumados no terraço de uma fazenda. Enquanto os olhares se cruzam e o café é apreciado calmamente, o protagonista vislumbra sua cerca viva destruída por formigas. “Saúvas filhas da puta. Filhas da puta!”, esbraveja o chacareiro.

Os cigarros, o café, as saúvas, o veneno e o bate-boca. A disputa dos dois corpos que se inicia com um comentário da mulher (“vá com calma, mocinho que usa a razão”) se dá em um contexto que não pode ser apenas erótico. “Em todos os textos do Raduan, esses confrontos estéticos, políticos e sociais estão presentes, mas o campo de batalha é o corpo humano. Por isso os conflitos sempre tem uma aparência sexual”, afirma o escritor e mestre em literatura pela FFLCH USP Estevão Azevedo à VICE.

É a partir desse estado de suspeição erotizado que inicia o livro (“e foi sempre na mira dos olhos dela que comecei a comer o tomate” ou “tomando os pés descalços nas mãos e sentindo-os úmidos como se tivessem sido arrancados à terra naquele instante”) que o autor vai explorar as fragilidades desse encontro.

“O que está em jogo ali é o macho, o narrador homem, cuja potência e virilidade está em perigo, e essa virilidade em perigo que potencializa o conflito. Ele se vê ameaçado pelo feminino”, comenta Estevão.

Se a sexualidade dá o tom do embate, as palavras servem como arma principal do livro, tornando-se um terceiro personagem no espetáculo proporcionado pelos protagonistas. Ambos obedecem ao insulto bem qualificado, articulado “no miolo propulsor das ideias”. Duelo aceito no campo movediço da palavra, (“Fui pr’uma área em que ela se gabava de femeazinha livre, é ali que eu a pegaria, é ali que eu haveria de exasperar sua arrogante racionalidade”), chacareiro e jornalista realizam um embate sem parâmetros na literatura nacional.

Ele, ausente dos exercícios sociais (“rechaçado quando quis participar, o mundo hoje que se estrepe!”), usa o verbo tão criticado para atacar sua oponente. “Cedo ou tarde tudo acaba se reduzindo a um ponto de vista, e você, que paparica as ciências humanas, nem suspeita que paparica uma piada”, diz. Ela rebate: “se largo as rédeas, ele dispara no bestialógico”.

“O discurso pode servir a qualquer padrão. Quando ele inverte o sentido das palavras, quando o chacareiro usa o discurso da mulher pra atacá-la. É sempre o confronto de um discurso contra o outro, mas ele deixa claro que eles são sempre maleáveis. Fica um vazio, uma impossibilidade de diálogo. A obra do Raduan tende a um silêncio. Como defender alguma coisa, se eu posso usar a palavra do outro a meu favor ou contra ele?”, analisa Estevão.

As acusações – velho fascista e esquerda hipócrita – serão exacerbadas no ato final do livro, quando a agressão física e o xingamento homofóbico cessam o diálogo. As cenas derradeiras, quando o homem se deita no chão e chora ao lembrar a figura materna, “de mãos vazias, nem tendo ao alcance a muleta de uma frase feita”, ajuda a mostrar uma outra faceta da obra de Raduan Nassar: a imagem feminina como ponto central na caracterização de seus personagens masculinos.

“No último capítulo, quando a mulher narra a volta à fazenda, ela fala de encontrá-lo na cama, como um feto. Qual o significado disso? Ele deseja regredir à infância, porque lá essa virilidade não está em perigo e essa potência não é questionada. Em algum momento do texto ele afirma: na minha infância, eu não tinha dúvida, que se localizava o mundo das ideias, acabadas, perfeitas, incontestáveis”, comenta Estevão Azevedo.

Raduan Nassar deixou a literatura há muitos anos. Quando conversamos, em entrevista publicada no Le Monde Diplomatique Brasil no ano passado, ele disse que se tivesse pensado melhor, talvez nem tivesse começado a efêmera carreira de escritor. Dedicou-se ao jornalismo e a agricultura, ofícios também passageiros. Com o passar do tempo, aprendemos que, melhor do que questioná-lo sobre o repentino abandono das palavras, bom mesmo é ouvir seus personagens: “me recuso pois a pensar naquilo que não mais acredito, seja o amor, a amizade, a família, a igreja, a humanidade; me lixo com tudo isso! Me apavora ainda a existência, mas não tenho medo de ficar sozinho, foi conscientemente que escolhi o exílio, me bastando hoje o cinismo dos grandes indiferentes”.

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