Como surgiu o passinho de BH, o mais malado

Popularizada por vídeos repostados alucinadamente na internet, a dança carrega toda a malemolência do funk mineiro.

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14 janeiro 2019, 9:00am

Se você não esteve debaixo de uma pedra (ou de férias na praia e sem acesso à internet) nas últimas duas semanas, é bem possível que você tenha visto o vídeo de alguns jovens, um especificamente empolgado ao centro, de camiseta verde-limão e cabelo verde, dançando com diversas trilhas sonoras ao fundo — Frank Ocean, a trilha sonora de Crespúsculo, CSS e por aí vai.

O vídeo angariou alguns milhares de visualizações em diferentes postagens e versões internet afora, mas o post original foi feito pelo próprio garoto de cabelo verde, conhecido como MV Oliveira, em sua página do Twitter. MV é popular na rede social justamente por seus vídeos dançando, mas nenhum estourou tanto quanto o supracitado. Dá pra entender a fascinação assistindo o vídeo: ao som de "Nois Come e Passa Pro Amigo", do mineiro MC MR Bim, o grupo realiza movimentos tão rápidos quanto detalhados e surpreendem na facilidade de abaixar, levantar e girar sem que a dança perca no balanço envolvente e hipnotizante que faz você apertar o botão de replay algumas vezes.

Descobri em pouco tempo, porém, que o fascínio pelos movimentos magnéticos de MV e sua trupe (que apareceram até no clipe mais recente do MC Rick, "Nada Vai Mudar") passava longe de ser um caso isolado. O "passinho de BH", como foi denominada a dança em homenagem à sua terra natal, ganhou tração pela disseminação frenética de vídeos de diversos entusiastas mostrando seus talentos com os movimentos, como uma espécie de "desafio" viral. A página passinhodebh no Instagram, principal alastradora do passinho, ganhou pelo menos 10 mil seguidores na última semana e já ultrapassa dos 102 mil, mas há muitas outras páginas no Facebook e Twitter que fazem o mesmo.

Mike Severino, de 24 anos e conhecido como MC Zilu, conheceu o passinho frequentando bailes funk de Belo Horizonte nos últimos anos. "Os únicos passinhos que eu conhecia eram do Romano e do Maloka, aqui em BH não tinha nenhuma dança com nome de nossa. Mas sempre que eu ia no bailes eu via uns grupos de jovens lançando uns passinhos diferenciados e bem bacanas", fala. Quando a coisa começou a se alastrar pela cidade, Zilu criou uma página no Facebook e, desde então, tem ajudado a nova mania a se difundir cada vez mais. "A ideia é divulgar essa dança, que tá uma febre. Muitas pessoas me chamam no direct da página mandando vídeos dançando."

O passinho de BH é, na verdade, uma evolução do passinho que o Brasil importou de Miami e acompanhava os miami bass e electro que aconteciam de rolar por aqui. Nas mãos dos belorizontinos, porém, a dança ganhou particularidades que tornaram possível o surgimento de uma nova modalidade de passinho: um ritmo mais acelerado, pra combinar com as batidas frenéticas e metálicas do funk mineiro, as pausas sincopadas, o uso do plano baixo do corpo. "A galera foi se desafiando: vamos fazer girando, pulando, andando, esse passo que era quadrado a gente faz girando no ar, vamos trazer um movimento pélvico, e enfim. É uma dança sem gênero e muito local", fala Welleton Carlos, 21 anos, dançarino de funk profissional e estudante de dança na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Welleton é natural de São Paulo e cresceu entre a capital paulista e Belo Horizonte onde, ainda criança, teve seu primeiro contato técnico com a dança através do Espaço Criança Esperança, um centro cultural da cidade. A partir daí, ele passou a se dedicar a ritmos como jazz e balé clássico. “Meu sonho era ser um bailarino clássico, sair da favela e ir dançar numa companhia, mas com o tempo eu comecei a questionar esse lugar: dentro da favela também tem várias coisas interessantes ao meu redor. Hoje, o funk é o que coloca o alimento dentro da minha casa”, fala.

O dançarino se envolveu com o funk pela primeira vez quando se inscreveu num evento da Disputa Nervosa, batalha de passinhos criada pelo Centro Cultural Lá da Favelinha, no final de 2017, e venceu. Desde então, ele se dedica ao gênero profissionalmente. "Por estar na faculdade, eu comecei a observar a corporalidade que os meninos usavam. Isso que a galera de BH fez com o funk é uma ressignificação [da dança]. Não foram profissionais que criaram uma técnica, foi na materialidade, um sentindo o outro", diz.

O passinho é também, às vezes, chamado de "passinho malado" — a gíria em questão, em BH, significa "foda, legal, muito bom", fala Zilu. Já estão rolando alguns tutoriais na internet, mas o entusiasta garante que não tem segredo: "Tem que treinar, mas não tem erro, qualquer um pode aprender."

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