Relato

Alcoolismo e depressão nas longas jornadas de quem trampa em navios

"Aprendi a beber e a roubar a bordo".

por Maria Sá de Moraes
25 Agosto 2017, 2:00pm

Ilustração por Luiza Formagin

*O nome da personagem foi mudado para preservar sua identidade.

Foram três anos em alto-mar. Não me pergunte como era trabalhar em navio. Pergunte como era viver. Aquela era minha estranha casa flutuante. Fui recebida no primeiro navio com provocações dos colegas. "Lá vem mais uma brasileira que vai desistir em menos de um mês". Dois meses depois eles me viram ser batizada Filha de Netuno durante uma tormenta no meio do Atlântico.

Agências recrutam pessoas atraídas pelo anúncio no jornal. "Conheça o mundo ganhando em dólar". As experiências vêm em quantidade e intensidade. Não há tempo para adaptação. Eles amarram braços e pernas do novato, empurram o cabra pela prancha com uma espada apontada para seu pescoço e o jogam aos tubarões.

"Comecei a trabalhar no restaurante três horas após o embarque, sem qualquer treinamento."

Comecei a trabalhar no restaurante três horas após o embarque, sem qualquer treinamento. Tentava descobrir qual toalha servia para qual mesa, quando uma hondurenha percebeu o pânico estampado em meu rosto. "Veja o que estou fazendo e faça igual". Recebi o cardápio minutos antes do restaurante abrir. Entrei na cozinha procurando ajuda. O chef tailandês me explicou o que eram aqueles molhos. Eu tremia. O restaurante abriu. Nesse momento, quem foi conhecer o mundo ganhando em dólar volta pra casa.

O trabalho me comeu pelos pés. Começou com bolhas de sangue nas pontas dos dedos. Depois o corpo inteiro doía tanto que atrapalhava o sono. Eram cinco horas de sono por dia. Na verdade, cinco horas deitada. No restaurante, não bastava servir comida. Eu calçava as luvas brancas enquanto estudava a carta de vinhos em quatro idiomas diferentes. Fazia barquinho com guardanapos para distrair as crianças e truques com talheres de prata para distrair os adultos.

"As gorjetas são o salário do garçom — mas passageiro entediado não paga gorjeta."

Passageiro entediado não paga gorjeta. As gorjetas são o salário do garçom. A companhia garantia US$ 150 por mês [cerca de R$ 450]. Isso apenas se o garçom fizesse menos que os tais US$ 150 por mês em gorjetas. Corria. Cheguei a trabalhar 16 horas por dia em um dos navios. De domingo a domingo. Durante seis meses. Não havia dia de folga. Eram sete horas de folga semanais.
Isso tudo é sobre o trabalho. Mas o trabalho não me importa.

Aprendi a beber e a roubar em navios. Esqueçam suas referências construídas numa vida inteira em terra.

No café da manhã eu costumava comer pães roubados do buffet dos passageiros. Me escondida na cabine do vaso sanitário para comer. Eu e três amigos — um brasileiro, uma romena e uma chilena — fazíamos isso todos os dias. Não que fossemos aventureiros. Nesse navio, o menu do café da manhã para tripulantes era: maçã apodrecendo, pão velho e um suco vermelho que diziam ser de limão, mas tinha gosto de cajá. Nossos bolsos viviam cheios de farelos. Era uma questão de sobrevivência.

Apesar das dores no corpo, procurar o médico não era uma opção para mim. Uma barista colombiana, por exemplo, foi atingida por uma garrafa na testa, ao recusar um convite de um passageiro. O médico deu pontos na testa, injeção para dor e a considerou apta para trabalhar no dia seguinte. Por isso mesmo nunca procurei o tal médico.

"Bebia todos os dias. Alcoolismo e depressão são comuns em tripulantes."

O melhor conselho veio de um velho marujo macedônio: "Você só conseguirá dormir bem depois de beber". As dores sumiram e a insônia também. Bebia todos os dias. Alcoolismo e depressão são comuns em tripulantes. Solidão, isolamento e trabalho pesado. Era necessário estar atenta aos amigos. Dar um abraço e ouvir as histórias da sua infância na Guatemala.

Todos recebemos convites pouco atrativos de passageiros em algum momento. Aprendi a resolver essa situação em silêncio. Um dia estava servindo vinho para um passageiro quando senti sua mão agarrar minha coxa. Minha expressão ao olhar pra ele foi tão forte que sua mão gelou antes de me soltar. Ele nunca retornou ao restaurante.

Ainda assim, nem todos têm sangue frio. Meninas foram expulsas do navio por terem reações consideradas exageradas. As conversas nas cabines à noite eram terapêuticas. Planejávamos coisas terríveis para esses hóspedes. Só planos.

"Um dia estava servindo vinho para um passageiro quando senti sua mão agarrar minha coxa."

Tudo se justificava no próximo porto. Quis abandonar o navio na Grécia e na Finlândia. Voltei pelos amigos. Uma vez era a noite de Karaokê no corredor dos filipinos. Outra vez era noite do jantar indiano com meu amigo de Goa. Tudo se justificava após uma conversa em inglês falado com 35 sotaques diferentes.

O texto não é sobre trabalhar em navios, mas como sobreviver neles. Um dia, passávamos pelo Triângulo das Bermudas e o mar estava revolto. O furacão Thomaz destruía tudo em terras próximas. As ondas atingiam o 6º andar do navio. Eu e um amor que deixei na Hungria observávamos o poder daquele deus. O Comandante argentino passava instruções de segurança pelo sistema de som. Sorríamos para os riscos. Tínhamos sobrevivido.

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