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Fachada do espaço Humanar. Foto: Larissa Zaidan/VICE

Por dentro da exposição "Em Nome do Pixo" do Cripta Djan

A exposição celebra os 20 anos de pixação do Cripta Djan apresentando obras inéditas e relembrando as várias tretas em que ele se envolveu.

Fachada do espaço Humanar. Foto: Larissa Zaidan/VICE

Cripta Djan, um dos principais pixadores paulistano dos anos 2000, vai celebrar sua trajetória de 20 anos de riscos na rua e apresentar obras originais na exposição Em Nome do Pixo, que tem estreia em São Paulo no dia 29 de outubro. Visitamos o espaço Humanar, na Barra Funda, um novo local que foi pensado e produzido junto com a galera da pixação. Toda fachada do prédio foi deixada em cimento cru propositalmente pra ser completamente pixada, formando um caça-palavras gigante. "Essa vai ser a grande brincadeira do rolê: "a exposição já começa do lado de fora", disse Djan.

Cripta na frente do espaço Humanar, na Barra Funda. Foto: Larissa Zaidan/VICE.

Ao entrar na galeria, logo de cara trombamos com uma pá de processos emoldurados. Pergunto quantas vezes Cripta foi processado por conta da pixação, e ele me responde: "não foram muitas, umas 15 só". Até agora não sei se ele foi irônico, ou se ele considera que ter rodado apenas 15 vezes nesses vinte anos realmente tenha sido pouco.

Parte da exposição que estreia no dia 29 de outubro. Foto: Larissa Zaidan/VICE.

Os documentos que caguetam a ficha suja do pixador estão colocados frontalmente ao lado de matérias em grandes jornais relatando seus feitos no Brasil e na gringa, o que dá uma ideia do teor da pixação em geral — o comportamento revoltado que tem energia suficiente pra atrair parte da juventude, gerar ódio na polícia e em boa parte da população e ainda ser assunto nos grandes meios de comunicação do país.

Me fala o que é um trabalho prático que fala de pixação? É levar a galera pra pixar sem consentimento.

Entre as matérias expostas, várias são sobre as tretas em que Djan se envolveu mundo afora, como entrar pixando tudo na Faculdade Belas Artes no dia da entrega dos trabalhos de conclusão de curso, pixando inclusive os projetos finais dos alunos. Outras das matérias reunidas dão conta das pixações na Bienal de São Paulo e Berlim (em solo alemão, Cripta rabiscou até mesmo o curador), e no museu de Arte Contemporânea Fundação Cartier em Paris.

Foto: Larissa Zaidan/VICE.

As obras são feitas em dípticos, os trabalhos foram aplicados sobre grandes painéis ou telas que trazem mensagens pixadas. É como se fossem folhas de cadernos, nas quais o texto continua de tela em tela. Na obra em que Cripta aborda a criminalização da pixação foram usados dois painéis, um feito de azulejos e outro feito com pastilhas, onde estão pintados alguns parágrafos do artigo penal 65, que enquadra pixação como crime. "Peguei os parágrafos que tratam de demonizar o pixo pra criar esse contraste, todas as obras que eu pintei têm essa discussão do trânsito do pixo entre o crime e a arte, até pra colocar em cheque a criminalização", explica ele. Essa dupla de painéis, inclusive, foi feita sem margem pra erros: "essa obra aqui é como o pixo na rua, ela não tem edição, não tem retoque, é fazer como faz no rolê, num pode errar", comenta.

Outros nove painéis bonitos pra caralho compõe a exposição, também usando a estética da pixação, mas dessa vez tendo como plataforma telas, formando trechos do texto "A Arte do Vandalismo" do próprio Djan. Os trabalhos são empolgantes porque dá sacar que existe uma grafia possível de se decifrar, e quanto mais você se prende naquilo, mais você consegue desvendar aquela mensagem.

Foto: Larissa Zaidan/VICE.

Foto: Larissa Zaidan/VICE.

Completa o rolê um acervo de fotos de vários momentos da história pessoal do Cripta na pixação, fotos clássicas como a dele jogando tinta no curador da Bienal de Berlim, cliques no topo de um edifício depois de uma escala de 30 andares e por aí vai. "O pixo não veio pra apaziguar nada, esse é o papel: rachar opiniões, não ficar num lugar confortável", define Cripta.

Foto: Larissa Zaidan/VICE.

Toda exposição foi financiada pelo próprio artista com a venda de suas obras, o que garante muito mais liberdade em todo o projeto. A ideia de criar um espaço próprio vem diretamente da necessidade, isso porque o circuito de arte nunca permitiu que a pixação fosse vista como algo artístico. Por isso, o novo espaço vem pra provar que o rolê do pixador é na rua, mas que ele também pode estar dentro de galerias e museus. "A nossa ideia aqui é trabalhar fora do circuito, já que o circuito tem uma rejeição com a pixação, a gente resolveu criar nosso espaço expositivo, e projetar nossos artistas sem depender de ninguém", pontua o pixador.

Antes da inauguração da exposição, enquanto visitávamos o espaço Humanar, conversamos com o Cripta, se liga:

VICE: Salve Cripta, primeiramente queria te parabenizar pela exposição. Qual é qual a importância de um espaço como este para quem tá na rua pixando?
Cripta Djan: O legal é que a gente ajudou a construir tudo isso, e é um espaço que vai ser direcionado justamente pra essa galera da rua que não tem essa oportunidade. A nossa ideia é trabalhar fora do circuito, já que o circuito tem uma rejeição com a pixação e com os pixadores, a gente resolveu criar nosso espaço expositivo, onde a gente vai projetar nossos artistas sem precisar de ninguém. Minha exposição é só primeira de muitas que virão, vamos trazer vários artistas do pixo.

Foto: Larissa Zaidan/VICE.

Esse espaço é pra dizer um foda-se pro circuito de arte e tentar oxigenar cena da pixação?
Sim, a ideia é essa, que seja uma referência. Não tem como ditar nada no pixo, porque é um movimento democrático, mas tem como apontar caminhos. E quero que meu trabalho seja uma alternativa até pra galera que vai chegar depois, é um caminho que eu gostaria que a gente seguisse, porém eu não tenho o poder de ditar nada no pixo, e nem quero.

A gente tem o domínio da técnica, porque o pixo é acusado de ser raso e o pixador também é acusado de ser um artista raso.

Eu percebi que existem telas bem trabalhadas, o que não condiz tanto com o rolê feito na rua.
Esses trabalhos são justamente pra mostrar que a gente tem o domínio da técnica, porque o pixo é acusado de ser raso, de ser uma coisa que não tem qualidade estética, e o pixador também é acusado de ser um artista raso. Então esses painéis são pra mostrar que a gente domina essa plataforma.

Foto: Larissa Zaidan/VICE.

Conta pra gente como foi esse rolê de invadir a Belas Artes.
Na verdade não foi bem uma invasão, e aquele ato era o projeto de um bolsista que cresceu pixando com a gente, o Rafael. A tese dele de artes visuais defendia a pixação, e ele tinha que apresentar um trabalho prático de pintura, e ele levou a galera pra pixar a universidade. A gente levou a discussão ao pé da letra pra ver até que ponto eles sustentavam o discurso.

Qual discurso?
De estar aberto pra uma discussão artística, me fala o que é um trabalho prático que fala de pixação? É levar a galera pra pixar sem consentimento.

Foto: Larissa Zaidan/VICE.

Logo após toda confusão na Belas Artes, vocês invadiram a Bienal de São Paulo. Por que vocês escolheram a Bienal?
A gente não invadiu nada, a gente se encaixou no projeto curatorial. O curador veio a público no Jornal Nacional dizendo que a Bienal daquele ano teria um andar vazio pra intervenções urbanas. Então a gente se sentiu convidado, aí entramos e ocupamos. Só que fomos reprimidos. Eles prenderam uma amiga nossa, a Carol do SUSTO''S. Tudo isso deu tanta polêmica que o Ministro da Cultura Juca Ferreira saiu em nossa defesa, falando que nossa intervenção foi legítima e acompanhava o projeto da curadoria.

Uma demonstração prática do pixo inclui pixar onde não pode.


Depois disso, vocês foram convidados formalmente para Bienal de Berlim. Deu tudo certo?
Nada deu certo, desde o idioma até a relação. A discussão toda se deu porque eles queriam delimitar onde nós poderíamos pixar, e a gente começou a pixar nas paredes de propósito, e eles falaram que não poderíamos fazer isso, e nós respondemos 'bom, vocês exigiram uma demonstração prática do pixo, que inclui pixar onde não pode, estão estamos fazendo nosso trabalho'.

E porque você pintou até o curador da Bienal de Berlim?
Bom, ele achou que poderia me pintar, primeiro ele me molhou e disse que estava me pixando, eu pintei ele de tinta amarela, e ele jogou tinta azul em mim. A gente voltou a pixar a Bienal e eles chamaram a polícia.

E como foi depois que os canas encostaram?
A gente ia ser preso, mas a Bienal ficou com vergonha da reação do público alemão, que ficou do nosso lado, e dispensaram a polícia alegando que foi um engano. Mas teve consequências depois: um embate diplomático porque a gente estava na Bienal graças ao Ministério da Cultura, e a Bienal de Berlim foi dentro de uma igreja, e o Departamento de Patrimônio Histórico de Berlim restaurou a igreja, e esse reparo custou 18 mil euros. E eles queriam passar essa conta pra gente, notificaram o MinC, e a gente se defendeu dizendo que o nosso trabalho se enquadrava na proposta da curadoria, e que cumprimos a proposta solicitada e que as consequências seriam com eles. Caso a gente perdesse o processo, teríamos que pagar o restauro, e devolver o edital de passagens do MinC. No fim, vencemos o processo e a conta voltou pra Alemanha e a Bienal de Berlim pagou.

E como foi pixar o no Museu de Arte Contemporânea Fundação Cartier em Paris?
Foi tranquilo, eles gostaram no final, mas não foi nada determinado por eles, eu cheguei lá e determinei o lugar onde faria a pichação. O museu já tinha bastante intervenções, tinha muito bomb de artista norte-americano, lá o espaço estava livre como a rua, fui lá e fiz o meu.

Foto: Larissa Zaidan/VICE.

Antes disso rolou o atropelo na galeria Choque Cultural. Você também participou? E o que você achou?
Não participei, mas achei legítima a intervenção na Choque. Na verdade, eles ganharam um presente, porque foi a primeira galeria a receber uma exposição vandal de pixo. Acho que eles não souberam aproveitar o momento, poderiam ter usado a favor deles. Eles entraram pra história da arte, aí alegarem prejuízo, fecharem a galeria. Eles foram ingênuos na realidade.

E por que a Choque Cultural foi a escolhida pra sofrer o atropelo?
Porque o seu curador se meteu na discussão da Belas Artes num programa de TV. Ele questionava o posicionamento da Belas Artes por ter expulsado e reprovado o Rafael, dizendo que eles não tinham preconceito com nenhum tipo de intervenção urbana, e que a galeria Choque Cultural representava a arte de rua. E o que os caras fizeram foi testar o discurso deles. Já que eles não têm nenhum tipo de preconceito e estão abertos, vamos passar pra ver o quão aberto eles estão. Em todos esses casos, o que a gente fez foi ver até onde as instituições levavam os seus discursos.

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