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Conversei com Duas Romenas Presas por Matarem seus Parceiros Abusivos

Histórias comumente tristes.

por Sorina Vazelina
20 Abril 2015, 8:05pm

"Quando sair, talvez eu encontre um bom velho para mim", me diz Magdalena, depois que somos interrompidos pelo guarda da prisão. O oficial se desculpou desconfortavelmente: "Coloquei vocês no lugar errado. Aqui, você estão bloqueando a sala de visita conjugal".

Ele gesticula na direção de uma porta com a pintura descascada, onde uma outra detenta estava prestes a entrar para fazer amor com seu marido visitante.

Magdalena tem 55 anos e ainda espera que, algum dia, alguém possa amá-la sem bater nela. Ela já viveu com dois homens, os dois extremamente violentos. Ela deixou o primeiro e se separou do segundo depois que a lâmina de sua faca colocou os dois em caminhos diferentes: ela para a cadeia e ele para o caixão.

Ele se chamava Marcel, e Magdalena o conheceu no verão de 1987 em Mătăsari, uma pequena cidade no vale do Rio Jiu que, na época, era um próspero El Dorado, mas que, hoje, é uma cidade-fantasma cheia de prédios vazios. Naquele tempo, era legal ser mineiro. Você ganhava bem, era respeitado e o regime comunista fazia canções sobre você. Então, Magdalena, uma mulher magra com músculos de ferro, decidiu sair de seu vilarejo no Condado de Iași e ir a Mătăsari minerar carvão.

Os mineiros devem ter ficado pasmos quando viram essa garota pequena trabalhando ombro a ombro com eles. Eles a fizeram trabalhar na superfície: ela colocava carvão numa cinta transportadora como um tipo de mineiro a céu aberto. Marcel, seu futuro marido, trabalhava algumas centenas de metros abaixo, nas entranhas escuras da terra. Ele piscava para ela quando seu turno acabava, e ela sorria. Sujo como estava quando saía da mina, Magdalena o achava incrivelmente bonito. Assim, ela levou o mineiro subterrâneo para seu mundo acima do solo.

"A primeira coisa que ele me disse foi que gostava de mim", me conta Magdalena, baixando a cabeça e ficando vermelha como uma menina, como se o encontro tivesse sido ontem.

Ainda

restam seis meses dos sete anos da sentença de Magdalena por cumprir. Fotos por

Alex Nedea.

Nem o primeiro tapa que ela recebeu dele diminuiu seu amor. Um dia, Magdalena caiu na mina e acabou com a perna engessada. Ela não podia sair; então, mandou Marcel buscar comida.

"Ele pegou o dinheiro e gastou tudo", ela explica. "Ele voltou para casa muito depois, bêbado como o diabo."

Foi quando eles tiveram sua primeira briga. Foi também a primeira vez que ele mudou o formato do rosto dela com as costas das mãos. Ela ficou ferida e com fome.

"Eu disse a mim mesma: 'Ah, isso vai passar, ele deve estar chateado'", ela relembra.

Mas, logo depois, ela recebeu o segundo tapa.

"Você se acostumou a bater em mim. O que eu sou, um saco de pancadas?", ela se lembra de perguntar a ele. Foi o que Magdalena continuou perguntando nos 20 anos seguintes. Depois de 23 anos, ela continuava fingindo surpresa quando ele batia nela.

Ela podia ter parado esse pesadelo antes se tivesse ouvido todos em volta, que diziam que ela devia se separar dele. Até seu sogro afirmou: "Fuja do meu filho para o seu próprio bem. Você não pode construir um lar com ele. Ele tem um problema com a bebida". O sogro chegou a dar dinheiro para que ela comprasse uma passagem de trem e partisse.

Magdalena pegou o dinheiro e entrou no trem, mas lá estava Marcel, que a tinha seguido. Ele a tomou nos braços, como nos filmes, falou bobagens doces e a beijou. Ele não podia viver sem ela! Então, os dois foram ao Condado de Iași. Lá, ela recebeu terras da prefeitura comunal. Ela construiu uma casa, e os anos começaram a passar. Mas eles não voaram simplesmente: a vida com o marido era cada vez mais difícil para Magdalena. Ela apanhava com mais frequência, e ele batia com cada vez mais força. E não eram mais tapas, como quando ela era jovem, mas socos e chutes – ele usava até forcados e machados.

Quando percebeu que sua vida estava em perigo, ela procurou a polícia. Eles não eram legalmente casados e a casa estava no nome dela, mas os policiais se recusavam a expulsá-lo.

"A polícia estava cansada das minhas reclamações", ela conta. "Eles diziam que, se eu queria justiça, eu devia processá-lo. Foi tudo o que eles disseram: 'Magdalena, faça uma queixa no tribunal, não para nós'."

Mas ela não podia pagar um advogado. Seus únicos bens eram algumas galinhas. Ela teria de vendê-las apenas para pagar a viagem até o tribunal na cidade. Ela trabalhava. Marcel não trabalhava: ele conseguiu uma pensão por invalidez mesmo sendo saudável como um touro. Ela se sentia uma prisioneira na própria casa. Especialmente quando via os policiais locais no bar, bebendo com seu companheiro.

Toda vez que Marcel voltava do bar, ele batia nela.

"Ele só me batia na cabeça – nem sei como essa cabeça continuou funcionando para que eu consiga falar com você", ela frisa. "Ultimamente, ele me batia até eu desmaiar. Uma vez tive sorte, porque meu cunhado me salvou – ou não estaria viva. Ele estava em cima de mim, me esmurrando. Deitei no chão para me proteger, senti algo morno nos olhos e bochechas e percebi que era sangue. Aí senti uma pontada na costela que me deixou sem ar e desmaiei."

Logo, Magdalena mudou de estratégia. Em vez de procurar a polícia, ela se esconderia. Alguns meses antes do assassinato, ela passou a véspera de Natal no galinheiro. Seu companheiro estava procurando por ela; então, ela se escondeu entre as aves. Ela se sentou lá como uma galinha num tapete de excrementos congelados, com os ouvidos atentos para qualquer barulho na porta – ou o som de uma bota.

Através da porta entreaberta do galinheiro, ela observava Marcel sair para encontrá-la ou encontrar bebida. Quando ele voltou para dentro de casa e tudo ficou em silêncio de novo, ela conseguiu ouvir as pessoas na cidade cantando hinos de Natal. Sentada lá entre as galinhas, ela pensou que talvez não fosse má ideia vendê-las para ir ao tribunal na cidade de Iași.

Mas o Natal passou e veio a Páscoa – o dia em que tudo aconteceu. Marcel ficou caído na casa, com uma pequena facada entre as costelas. Até hoje, Magdalena alega que é inocente, mas o promotor tinha provas inegáveis e o juiz a condenou por assassinato. As evidências e testemunhas do vilarejo que falaram sobre o tormento de Magdalena chegaram ao juiz, que deu uma sentença leve. A mesma sentença que ela receberia se enchesse seu galinheiro com as aves dos vizinhos: sete anos de prisão.

Micșunica, outra mulher condenada por matar o marido, chega à nossa entrevista chorando. Ela chora ainda mais enquanto conta ao guarda que nos supervisiona o porquê das lágrimas. Outra detenta, uma garota de 24 anos que tinha acabado de chegar, se proclamou a chefe da cela. Ela decidiu derrubar os horários de todas – ela falou que decidiria quem tomaria banho e quando.

Micșunica a enfrentou. Usando as mesmas botas de borracha que usa em seu serviço na cozinha, a mulher baixinha de 43 anos me diz que poderia ser a mãe daquela garota. Como ela pode receber ordens de uma garota da idade de sua filha?

Ela tentou conversar e resolver as coisas com a detenta, mas a garota a cortou: "Você devia calar a boca, eu não matei uma pessoa como você fez".

Micșunica começou a chorar no corredor, chorou o dia todo na cozinha – e agora estava chorando na minha frente.

"Qualquer um faria o que eu fiz no meu lugar", ela destaca.

Micșunica foi sentenciada a oito anos por assassinato. Fotos por Alex Nedea.

Micșunica enfiou uma faca no marido durante um feriado – no Dia de São Jorge, mais precisamente. Cerca de 17 anos antes, no mesmo dia, eles estavam se casando. Eles deram seu primeiro beijo na noite de núpcias. Foi nessa mesma noite que Micșunica recebeu seu primeiro soco. Isso aconteceu depois da meia-noite, quando seu marido, Ion, ficou com ciúmes após parentes terem sequestrado a noiva – como é tradição em algumas partes da Romênia – e a esconderem por meia hora.

"Foi muito tempo", o noivo deve ter pensado, enquanto a bebida subia à cabeça. Então, depois do tradicional roubo da noiva, veio o menos tradicional soco na noiva. Micșunica tinha aprendido que a vida era dura quando criança; assim, se calou e aguentou – foi isso que seus pais a ensinaram. Ela passou a infância com uma enxada na mão.

"Meus pais eram doentes; então, eu tinha de fazer a parte deles na estação de trabalho coletivo para que pudéssemos comprar algum cereal", ela relata. "Eu acordava às 4 da manhã e voltava para casa 7 da noite."

Aos 18 anos, ela achou que a vida finalmente melhoraria. Seu irmão mais velho contou que tinha encontrado um marido para ela em outra parte do país, no Condado de Brăila. O irmão tinha conhecido o futuro esposo, que dirigia um trator, em sua estação de trabalho coletivo. Ela saiu do vilarejo dos pais, no Condado de Vaslui, para se casar. Depois do casamento, seu irmão mudou de emprego, deixando Micșunica sozinha numa família de quase estranhos.

As surras foram piorando e piorando, e ela não tinha para quem se voltar. "Quando minha sogra via o filho me chutando, ela dizia: 'É isso mesmo, filho. Acerte-a!'". Ninguém no vilarejo a apoiava. O marido era visto como um cara legal – conhecido no lugar desde criança, um cidadão respeitado. Quem acreditaria numa estranha vinda de Deus sabe onde?

A polícia também ficou do lado de Ion. Toda vez que Micșunica ia até a delegacia dar queixa, eles diziam que era inútil passar por toda a papelada, porque a polícia não podia intervir em brigas de família.

Então, Micșunica continuou aguentando enquanto tentava criar os três filhos que teve com o marido violento. Foi difícil passar por tudo sozinha – especialmente porque, além das crianças, ela tinha de cuidar da irmã, deficiente mental, e de Ion, que tinha sido demitido por causa do alcoolismo. Com raiva, ele começou a beber ainda mais.

"Eu era o homem e a mulher da casa", ela relembra. "Eu trabalhava no campo, cozinhava, trabalhava no vilarejo para juntar dinheiro. Nossa filha mais velha estava indo para um colégio na cidade grande e ia custar caro mantê-la lá."

Duas semanas antes do assassinato, Micșunica levou a pior surra. Achou que não ia sobreviver. Ela conseguiu fugir de camisola pelas ruas do vilarejo, chegar a um telefone público e ligar para a polícia. Ela disse que o marido quase a tinha matado, e o chefe de polícia respondeu: "Micșunica, são 10 da noite, meu turno já acabou. Se você quiser que eu vá até sua casa, vai custar 225 euros".

Assim, Micșunica teve de aguentar de novo. Ela esperou o sol nascer e voltou a casa – para os filhos.

Um dia, Micșunica chegou em casa e Ion – que tinha acabado de acordar – reclamou que estava com fome. "Coloquei um pouco de feijão no prato dele, mas ele começou a gritar: como eu podia servir comida sem carne? Ele já tinha comido toda a carne ao meio-dia. Pedi que ele esperasse, enquanto eu fritava um peixe. 'Mulher, vou te matar e cortar em pedaços', ele ameaçou."

Na época, um julgamento famoso de assassinato estava na mídia romena: um marido tinha matado a esposa e se livrado do corpo. Talvez tenha sido isso que inspirou Ion a dizer aquelas palavras, a achar que podia matar a esposa e esconder o crime facilmente; depois, poderia aparecer na televisão alegando que não tinha feito nada.

"Perguntei a ele: 'Por que você quer me matar e cortar em pedaços, Ion? Porque trabalhei o dia inteiro, enquanto você dormia?'. Ele respondeu: 'Cale a boca, ou vou te cortar em pedaços!'. No final, foi Ion que se calou. Micșunica nunca fritou aquele peixe. Ela viu as facas de cozinha, perfeitamente alinhadas no mesmo lugar de sempre. Ela pegou a primeira que alcançou e atirou no marido. A lâmina ficou cravada em seu fígado. Dez minutos depois, as luzes da polícia iluminaram a rua escura de vermelho e azul. Era o chefe de polícia. Ele finalmente tinha vindo até Micșunica, mesmo depois que seu turno tinha terminado.

Nota do Editor: De acordo com um estudo de 2004 do Instituto Nacional de Criminologia romeno, metade das 350 mulheres presas por assassinato era vítima de violência física e sexual.

Tradução: Marina Schnoor