Eleições 2018

Aumento de militares e policiais eleitos confirma onda ultraconservadora no Brasil

Número saltou de 18 para 73 representantes. Acadêmico afirma que partidos aproveitaram sensação de insegurança da população.

por Gislene Ramos
09 Outubro 2018, 10:00am

Foto: Wikimedia Commons

As eleições de 2018 trouxeram um compilado de fatos curiosos e excêntricos para o processo democrático do Brasil. O mais esperado deles talvez seja o alto número de delegados, sargentos e coronéis escolhidos para cargos legislativos. No fim da apuração de ontem, viu-se que o número de policiais e militares eleitos como deputados ou senadores saltou de 18 para 73, uma marca quatro vezes maior que a obtida no pleito de 2014. (O levantamento, feito pelo G1, considerou apenas a autodeclaração dos candidatos. Alguns, como Major Olímpio, eleito para o Senado por São Paulo, não declarou sua ocupação fora da política. O número, portanto, pode ser maior.)

O fato não pode ser considerado uma anomalia ou fora do contexto da atual conjuntura política. De acordo com o professor Alvaro Bianchi, diretor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas, em São Paulo, o sentimento captado pelo crescente número das candidaturas revela que a pauta da segurança pública tornou-se uma prioridade para grande parcela da população. “Os candidatos majoritários perceberam isso e incorporaram militares e policiais em suas listas", comenta. "Com a crise, a sensação de insegurança tende a crescer as demandas por policiamento ou por um sistema penal mais intolerante tende a aumentar.”

Coronel Alexandre Quintino (PSL) foi eleito deputado estadual no Espírito Santo. Foto: Divulgação

Segundo o professor, a eleição de diversos deputados militares confirma a onda conservadora em curso no Brasil. Para ele, o crescimento da direita é inegável e vai além da votação catapultada por Jair Bolsonaro (PSL). “De acordo com o Centro de Estudos de Opinião Pública, da Universidade Estadual de Campinas, o novo Congresso terá 301 deputados de direita. Em 2010 eram 190. O crescimento é expressivo”, diz.

Para Bianchi, as razões desse aumento de políticos militares e conservadores são várias. “Existe o lobby da indústria armamentista, que financia essas candidaturas. E existe também o lobby das corporações militares e policiais que desejam ver seus privilégios preservados", comenta. "Polícia e Exército são instituições pouco afeitas à democracia, com organizações internas fortemente hierarquizadas e com uma cultura da violência. A transposição desse espírito autoritário para os legislativos não fará bem à democracia.”

Candidatos como eleito para deputado estadual no Espírito Santo, Delegado Lorenzo Pazolini (PRP), que era titular da Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA), ou mesmo o Delegado Waldir (PSL), o deputado federal mais votado em Goiás, revelam um cenário intrigante, uma vez que as carreiras de muitos deles podem interferir diretamente no seu mandato e nas suas pastas. A dúvida comum a muitos analistas políticos é o que eles vão priorizar: o cargo político ou o posto em suas corporações?

Renan Barbosa Contar (PSL), capitão do Exército Brasileiro, foi o deputado estadual mais votado em Mato Grosso do Sul. Foto: Divulgação

Para Bianchi, é preciso estar atento às pautas desses deputados eleitos. “Há convergências importantes entre as chamadas bancadas do boi, da bala e da Bíblia. O único partido das esquerdas que aumentou sua bancada foi o PSOL, o qual obteve uma importante vitória, passando de seis para dez deputados.”

O resultado do primeiro turno marca uma profunda crise de representação dos partidos políticos tradicionais. Houve uma ascensão da direita radical no cenário político brasileiro e, junto a isso, ocorreu o declínio da centro-direita representada pelo PSDB e MDB e a lenta agonia da centro-esquerda representada pelo PT. "Essas tendências não serão alteradas por um segundo turno, qualquer que seja seu resultado”, analisa Bianchi. Ao que parece, o conservadorismo no Brasil não era apenas uma marolinha.

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