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Gabriel, o Pensador captou a revolta imobilizante do brasileiro

O rapper carioca atualizou seu hit de 1992 e, depois de anos, consegue emplacar o sucesso "Matei o Presidente 2", retratando o sentimento de infelicidade acomodada do Brasil.

por Felipe Pessanha
27 Outubro 2017, 7:35pm

— Por que esse pessoal todo tá falando de matar o Temer na internet?
— Provavelmente por causa da música do Gabriel Pensador.
— Tá doido? Essa música já tem mais de 20 anos meu filho!
— Ele lançou uma segunda música, recentemente.

Mesmo a primeira parte da música "Tô feliz (Matei o presidente)" já tendo 25 anos desde seu lançamento, minha mãe sabia exatamente do que eu estava falando. A música fez um grande sucesso na época, e causou polêmica de acordo. Reproduzida pela primeira vez na extinta rádio RPC FM em setembro de 1992, a música se tornou uma das mais pedidas e cinco dias depois foi censurada pelo Ministério da Justiça. 20 dias após a música ir ao ar, Collor deixava o governo.

Não demorou muito após o lançamento de "Tô feliz (Matei o presidente) 2" para que os boatos sobre censura começassem, mas num contexto de cada vez mais rapidez e alcance da informação: a essa altura do campeonato, o clipe oficial já passa das 3 milhões de visualizações no YouTube. Tanto em 92 quanto hoje, não é difícil explicar o sucesso de Gabriel. Com seu storytelling vívido e compreensível, o Pensador nos leva a viver a fantasia de um panorama político que condiz melhor com a vontade do povo. No entanto, são épocas diferentes, panoramas políticos diferentes e um Gabriel, o Pensador diferente.

Bem mais velho, vemos a preocupação de Gabriel logo no começo da música. Ele admite que não imaginava que teria que matar o presidente novamente, ainda mais agora que é "palestrante e autor de livro infantil" e não um "menino", como ele mesmo descreve. Gabriel já não quer mais matar o presidente, ele odeia armas de fogo e violência, procura se entregar, mas encontra incentivo na polícia para continuar com o crime. É interessante pensar que o rapper não quer mais matar o presidente, mas sente que deve. É interessante pensar que até mesmo a polícia supostamente apoiaria o assassinato do presidente, mas não o faria.

Com 3% de aprovação, Michel Temer é considerado o presidente mais impopular do mundo, mas, ainda assim, não parecemos estar especialmente engajados a matá-lo. Gabriel, o Pensador é pontual ao esclarecer que esse assassinato não é literal, assim como não foi com Collor. É uma forma bruta de traduzir um sentimento geral do povo. Isso fica claro no clipe, que mostra brasileiros de diferentes locais e origens cantando o refrão de Pensador. Porém, uma semana após o lançamento da música, as últimas denúncias contra Temer são rejeitadas pela câmara e nenhuma grande revolta parece estar se formando.

O próprio músico aponta:

"Áudio e vídeo divulgados, crime escancarado
Mas nem é julgado
Já tinha comprado vários deputados"

É quase estranho que o combate à corrupção que ajudou Temer a chegar no poder não funcione contra ele. O discurso anticorrupção foi parte essencial do processo de derrubada da presidenta Dilma, e é um dos motivos da ascensão de políticos como o próprio Collor, ou Bolsonaro (chamado de mito por seus apoiadores), referenciado na linha "E é o povo desunido que se mata por partido\ Sem razão e sem noção\ Chamando políticos ridículos de mito".

Na minha opinião, a indignação do brasileiro não é seletiva, como apontaram algumas pessoas com quem conversei sobre o assunto. O brasileiro está indignado — o problema é que esta indignação é impotente. No topo de seus 3% de aprovação, Temer pouco se importa em parecer ou ser inocente, já que não é mais isso que mais importa. O importante para o presidente ilegítimo é se assegurar de estar de acordo com a burocracia, os meios legais. É simples, para que as denúncias contra ele fossem investigadas, os deputados da Câmara teriam que votar a favor disso. Para que não aconteça, é só seguir as instruções de Gabriel, comprar alguns deputados.

É assustador pensar que o próprio Gabriel, o Pensador não achava que ia ter que matar um presidente de novo. Em 92 já não era necessário, os meios legais funcionaram e o músico, ao lançar seu single, agora dentro do CD, adiciona uma nova intro, que diz "eu tô feliz, cê tá feliz? tamo em outra agora pô". Desde então Gabriel nunca deixou de lado o cunho de protesto de sua música, mas não havia retornado a matar o presidente, pois não havia precisado. É um tanto quanto assustador pensar que hoje Gabriel tem menos vontade de matar o presidente, mas a necessidade é maior. Collor saiu do poder ainda vivo em 92, mas em 2017, o presidente mais impopular do mundo, não parece que vai sair nem morto.

A música se conclui num tom diferente: a batida se acalma pra acomodar a reflexão final de Gabriel. É quando, junto com ele, diminuímos um pouco o ritmo e encaramos o assunto de um ponto de vista mais realista. Um músico não vai matar o presidente. Não foi a fim de propagar ódio que o Pensador se volta pra essa metáfora, ele quer dar voz ao grito sufocado da justiça. Aponta, com preocupante exatidão, que o povo desunido se mata por partido, mas ainda peca por excesso de paciência com os políticos. O rapper, abertamente contra a violência, se volta pro assassinato mais uma vez porque nós precisamos que alguém o faça. No país do "rouba, mas faz", como o próprio músico descreve, o povo morre infeliz, porém acomodado.

Felipe Pessanha é artista plástico, rapper e um dos fundadores do coletivo Tumor .

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