Relato de um PM

By Eduardo Roberto e Gabriel Vituri; Ilustrações por Juliana Lucato

O belo ano de 2012 foi coroado por uma, vamos dizer assim, quizila entre a polícia e o PCC. Mais de uma centena de policiais assassinados, além de criminosos e trabalhadores levando bala a partir do segundo semestre. Após nossa série Exame do Toque de Recolher, os meninos Eduardo Roberto e Gabriel Vituri encontraram um policial superafim de dar um depoimento sobre o que anda acontecendo. Ele obviamente pediu anonimato. Prenda o fôlego e mergulhe nesse relato que faz o The Wire parecer um conto de fadas.

 

Sou soldado da Polícia Militar e, se eu me identificar, sou expulso. Trabalho na área central da cidade, no coração de São Paulo; lá é um dos redutos do PCC. Tenho oito anos de profissão: já trabalhei na zona sul, na favela de Heliópolis, e fiquei a maior parte do tempo na Força Tática.

Hoje a gente passa pela pior situação da polícia, pior até do que em 2006, quando aconteceram os atentados. Naquela época, nos atacavam em serviço, sabíamos quem era o inimigo e íamos atrás deles. Havia rádio, comunicação; a gente chamava apoio, apareciam o Águia, a Rota, todo mundo. Hoje, não. Você está no horário de folga, junto com a família, e a maior preocupação é protegê-los. O Estado fechou os olhos. A primeira comunicação extraoficial que a gente recebeu foi depois das eleições, quando mais de 40 policiais já tinham morrido.

Em setembro foi quando houve o estouro. Antes era um por semana ou a cada quinze dias, e aí começou a ser diário. Toda noite um policial morria. Antes, em agosto, a gente sentia que alguma coisa acontecia. O governador falou que não existia, o secretário de segurança também, e os oficiais negavam a existência dos atentados.

Aí, depois do segundo turno das eleições, um oficial veio e nos disse: "Isso está mesmo acontecendo, teve escuta telefônica provando os ataques". Descobrimos que, em agosto, a Polícia Civil e o Ministério Público tinham interceptado ligações. Em 5 de agosto, prenderam o Piauí, um dos chefes do PCC. A Polícia Civil sabia que havia sido dada a ordem pra executar policiais, mas não fomos informados. A Civil informou o Estado, e isso foi parar no alto comando; o secretário sabia, o governador sabia. Nós sabíamos que algo estava acontecendo, mas não exatamente o quê.

Foi diferente de 2006, foi pingado. Morreu gente da administração, da corregedoria, não era coisa de um batalhão específico. Foi ocasional. O salve era geral mesmo, pra atingir todas as esferas da polícia. O Alckmin vai trocar o secretário, o comando, mas não vai resolver. A tropa está com medo. Você não sabe quem é o inimigo. O cara vem e te mata sem menção de roubar nada, é só pra executar, sem mais nem menos, sem perguntas.

O policial está com medo, teve que mudar a rotina. Antes a gente ia trabalhar fardado, pra não pagar ônibus; não recebemos vale transporte, só podemos viajar de graça com farda. Logo, aumentou o gasto do policial. O que o Estado faz? Existia uma gratificação, mas foi cortada. A gente teve queda no salário de 20%. Então, 70 mil policiais, ou seja, quase 100% dos que estão na ativa, perderam de 10% a 20% do salário. Nessa fase mais difícil, diminui o salário e aumenta a jornada de trabalho. Aumentou o efetivo pra dar sensação de segurança? Não, aumentou o horário de trabalho, o efetivo é o mesmo. A tropa está descontente, passando necessidade. Não temos viaturas o suficiente, e as bases comunitárias ficam lotadas porque não tem como rodar. Os paulistanos se estressam porque ficam quatro horas por dia dentro do carro. Mas ele tem ar-condicionado, direção hidráulica, vidro elétrico, um rádio; já o policial passa 12 horas por dia dentro do carro e não tem nada. Tirando a Rota, a Força Tática, o resto tem carro popular pra trabalhar, um Corsa Classic, estreito.

Se eu sou tratado como lixo, vou tratar como lixo. O ensinamento que eu tive, vou repassar. No meu quartel, existem os banheiros dos oficiais e civis, e o dos "praças". Se eu sair da polícia, vou usar o mesmo banheiro que o oficial usa. Mas hoje uso um banheiro lá no subsolo. Ou seja, a polícia está abaixo do civil. Dentro da minha corporação, sou inferiorizado se comparado com quem está na rua. O oficial não sai na rua, ele supervisiona. Dos 96 que morreram em atentados, todos foram praças. Porque se morrer um oficial, vai dar repercussão. Morreu o praça? É só mais um, é número, e a gente sente isso. O oficial começa a carreira com um piso de R$ 5 mil. Eu, no fim de carreira, não ganho isso. Eu vou me aposentar com R$ 4.800.

Atendemos quinze, vinte ocorrências por noite. A maioria não é ocorrência de polícia. É perturbação da ordem, coisas que são da Prefeitura, da Lei do Psiu, do 156. O que é administrativo não é da polícia, e isso sobrecarrega a gente. Às vezes eu nem consigo jantar, e aí você entra em uma padaria e pede uma coxinha, vem alguém e te aponta o dedo. Em 12 horas a gente não consegue parar sequer uma hora pra jantar, isso não existe. Não existem direitos humanos pra policiais. É difícil um policial conseguir estudar, porque não tem escala compatível. Atividade física? Podem reparar, os policiais na rua estão todos gordos. Os oficiais, todos magrinhos, vão pra academia. Mesmo quem está na rua, se é tenente, tem uma hora de atividade física dentro do tempo de serviço.

Se você leva a farda na mochila, ela não pode chegar amassada. O ladrão, se você prende, recebe pena e responde em liberdade. Eu, por uma bota suja, posso ficar dois dias preso. A gente usa um cinturão que prejudica a nossa coluna. Na Polícia Federal ou na polícia de outros estados, é coldre na perna, de nylon, camiseta polo. Nos Estados Unidos, no Japão, lá é muito bonito, o pessoal respeita a polícia, é tolerância zero. Se o cara fez menção de atirar em você ou segurou uma faca, você pode atirar nele. Aqui eu ando de calça social e camisa, só me falta a gravata. A nossa farda não é operacional, não pra correr atrás de bandido. A farda da Rota, do Choque, é melhor — e eles atendem menos ocorrências que a gente. Aqui nós temos duas pistolas. O nosso armamento não é igual ao do bandido, é inferior. A gente está em desvantagem na roupa e no armamento. Tudo isso afeta a atividade na rua.

Por que a população gosta da Rota? Cada equipe fica oito horas na rua. São três horas de atividades físicas e depois as oito de patrulhamento, numa Hilux, com quatro pessoas dentro — cada um em uma função —, com um .30, que é um fuzil leve, um calibre 12, um escudo, capacete balístico, equipamento completo. Ou seja, é claro que eles vão te atender bem, vão enfrentar melhor o bandido. A Rota é mais precisa, é mais redonda.

Como a nossa tropa está estressada, exausta, não dá pra fazer uma ocorrência bonita. Tem policial mudando de casa, fugindo pra não ser alvo. Com o cansaço, ele vai descarregar a pistola e não vai acertar nenhum tiro.

Está tendo grupo de extermínio, claro. Não tenho nada que prove nem conheço policial que tenha feito, mas esse monte de gente que morre na periferia, em ponto de drogas, pode ter mesmo relação com policiais. A partir do momento em que você se revolta e o Estado vira as costas pra você, é a sua família que está ameaçada. Você vai cobrar. Uma pesquisa mostrou que 41% das pessoas apoiam que policiais matem, e os inocentaria se isso fosse a júri. Os homicídios contra policiais caíram, e não foi porque o Estado tomou alguma ação, e sim porque eles vestiram a camisa e estão indo pra cima. Isso é correto? Não. A polícia tem que prender, e não matar. Ou seja, a polícia perdeu a linha. O comando e o governo não têm controle sobre a polícia. Os policiais não se controlam mais. Hoje, rola uma aflição dentro da viatura, porque você não sabe o que seu companheiro vai fazer.

Eu tive um parceiro que foi executado nos últimos combates. Ele trabalhava no extremo sul. Invadiram a casa dele, mas ele conseguiu fugir e pediu transferência pra outro batalhão. Em seguida, saiu do trabalho e foi morto. Ou seja, não resolveu o problema. O nome dele é o mesmo, o RG, o advogado. É fácil descobrir onde ele está. Existem informações vendidas, e tem gente do PCC dentro da polícia. Não tem gente da polícia dentro do PCC, mas qualquer um, sem ficha criminal, pode fazer concurso, entrar e vender informação, e a polícia não consegue investigar isso, faz vistas grossas. Quem sofre são os bons policiais.

E quem é o “bom policial”, que não concorda com isso de sair matando, acaba discriminado. Esse cara aí talvez não segure a história dos outros, e sobra pra ele também. Se tomar atitude, morre. Se deixar de tomar, é considerado conivente e fica preso. O policial não tem mais pra onde correr. Quem deveria proteger sequer consegue se autoproteger. A população está cobrando, e não é videogame, não tenho várias vidas.

Um promotor deu uma entrevista dizendo que o PCC está dentro da Fundação Casa, e disse que há rebeliões comandadas de fora. Existe o PCC mirim, na base, o aviãozinho, o vapor. Mas ele não vai ficar preso. O PCC já alicia os menores, já faz escola. No Rio, é por território. Em São Paulo não, é espalhado. Eles estão em tudo. Um cara que foi preso por lavagem de dinheiro com o PCC e roubo a banco, foi eleito vereador pelo PSDB.

O PCC não quer viatura na biqueira, não quer o policial enchendo o saco dele. Se tiver homicídio, vai ter mais policial na área. Se hoje a coisa está mais organizada, é porque o PCC colocou ordem, e não o Estado. Não tem ocorrência dentro de favela, ninguém chama viatura. A sentença é ali na hora. O negócio cresceu e invadiu o espaço da polícia. Se o Estado quisesse prender bandido, você acha que a viatura iria ser branca, vermelha e preta, com uma árvore de natal em cima? É tudo pra espantar.

O policial que começou a ir lá prender começou a ser perseguido pela corporação. Vai ficar a pé, sem viatura, em horários ruins. Se não tem registro de roubo, não tem estatística. Se ninguém trabalhou o mês inteiro, aquele capitão foi perfeito. Se não tem B.O., não tem ocorrência. Se começa a trabalhar, enche o saco. A instituição é corrupta. Entre as subprefeituras de São Paulo, por exemplo, só uma não tinha comando militar, e aí o cara caiu, porque puxaram o tapete. É uma máfia.

Pense numa espinha: se você é pressionado dos dois lados, vai explodir e espirrar pus e sangue pra todo lado. É o que está acontecendo agora. A polícia cobrou de um lado, o PCC de outro, o policial explodiu. O Comando está cobrando: quem trabalha vai ser morto. No estatuto do PCC está escrito que se a polícia mata um bandido, morrem dois policiais. Pra virar gerente no crime, precisa matar um. Assim é a promoção, e o Estado é conivente.

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