Como cuidar da saúde mental durante o Carnaval
Imagem ilustrativa. Foto: Rodrigo Zaim/R.U.A. Coletivo/VICE originalmente feita para esta matéria.
Saúde

Como cuidar da saúde mental durante o Carnaval

Especialistas falam como lidar com a ansiedade, depressão, fobia social e a multidão durante a ferveção.

No período mais alucicrazy do ano, fica difícil driblar as bads com o clima festivo do Carnaval. "As pessoas não falam sobre saúde mental no Carnaval porque é uma época em que há a concessão para o prazer, e o sofrimento psíquico não casa com prazer e alegria" comenta a psicóloga clínica Juliana Picoli.

"É inegável que exista uma pressão do círculo de convivência e da mídia nesses período, e pessoas ansiosas ou deprimidas nesse caso podem novamente ser acometidas por sentimentos profundos de solidão exatamente por não conseguirem desfrutar de tudo isso", acrescenta Picoli. Para a psicóloga é importante falar do assunto, por mais difícil que seja. "As relações de confiança são tão importantes, assim como, em situações de crise, a oferta de serviços de apoio e acolhimento, como por exemplo o CVV - Centro de Valorização da Vida, que oferece atendimento gratuito, tanto telefônico quanto presencial".

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Pensando nisso, falamos com especialistas que explicaram como enfrentar a barra da depressão, ansiedade e fobias em geral num período de festa e curtição.

Carnaval sem brilho

Segundo a OMS, o Brasil é o país da América Latina em que há o maior número de pessoas que sofrem de depressão. E como fica o Carnaval para essas pessoas? O psicólogo e professor da FADISP, Luiz Francisco explica que “quando uma pessoa sofre de depressão, ela está com sua estrutura psicológica, subjetiva sensível, de acordo com o grau de depressão há um grau de sensibilidade”.

“Esse tipo de celebração, de comemoração, é como um estímulo aversivo, porque aquilo que já está sensível, com a sensibilidade machucada, acaba sendo provocado”, ressalta o psicólogo. “Quanto maior a estimulação da pessoa com algum transtorno, alguma dificuldade psíquica for exposta, mais dolorosa, mais angustiante e prejudicial vai ser”.

Luiz recomenda que nesses momentos, pessoas com o quadro clínico de depressão precisam de cuidado, reflexão e algo que as afastem da estimulação.

Dosando a ansiedade

A preparação do Carnaval é contagiante. Muita gente não vê a hora para que este momento chegue e, de repente, a ansiedade toma conta. A psicóloga e coach de saúde e bem-estar Sharon Feder aponta que há dois quadros comuns de ansiedade: os introvertidos com certa aversão à multidão e as pessoas com fobias que sofrem com ansiedade em nível mais grave.

No primeiro caso, o ideal é que “essas pessoas procurem festas menores, festa nos prédios, nos clubes, festas da empresa, happy hour. É importante que, se ela tem ainda um desejo ou interesse, curiosidade de alguma forma, que se insira nesse contexto de eventos menores”, ressalta Sharon. O lance é que nada seja obrigatório, sem forçação de barra, para evitar mais a aversão à extroversão.

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Nos quadros mais graves, a psicóloga indica que essas “não podem nem participar de pequenos eventos”. O conselho da profissional de psicologia é que ficar trancado dentro de casa não é tão benéfico porque pode aumentar ainda mais a ansiedade, a tensão. “Procurar fazer programas alternativos. Sair das grandes cidades, das metrópoles, tentar buscar esses lugares mais com a natureza, que realmente conecte ela, que traga mais tranquilidade e que reduza essa ansiedade”, aconselha Sharon.

Trabalhar no Carnaval nem sempre é festa

Sharon evidência que existem alguns estudos, não especificamente do Carnaval, que mostram que algumas profissões que lidam com muita multidão e muita tensão — por exemplo o de motoristas de ônibus — podem “trazer problema, e a tendência é que isso pode gerar agressão, violência, alguns problemas que podem ser consequências dessas tensões.”

Não é uma regra, explica a psicóloga, mas é possível que essas atividades “gerem um tipo ou aumento de tensão e a pessoa se sinta mais ansiosa, aversiva. Tem profissionais que não querem trabalhar durante essa época, por referências negativas no passado, [devido a] essa exposição.”

Relembrando o que aconteceu em São Paulo nas prévias carnavalescas deste ano, quando um frentista atirou em dois foliões que pediam para urinar num posto de gasolina, a coach salienta que “as tensões nessa época só aumentam. As pessoas estão na rua, procurando bagunça, quem tem que trabalhar nessa época tem que tentar levar de forma mais leve, levar na brincadeira, não entrar em briga, não engajar comunicação violenta, tentar evitar qualquer tipo de transtorno porque as pessoas estão com a adrenalina lá em cima, hormônios à flor da pele. Precisa evitar qualquer confusão, qualquer confronto possível”.

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Álcool, drogas & Carnaval

Carnaval é um caminho certeiro para o abuso no uso de álcool e drogas. Sharon explana que "existe uma tendência, não só no Carnaval, mas que há muitos cenários em populações de pessoas que são mais tímidas, introvertidas, de ir atrás desse tipo de recurso e acabam abusando das substâncias e não aproveitando. Ao invés de ser algo prazeroso, acaba ainda mais aumentando a pressão. É importante tudo ser moderado, a pessoa ir com a cabeça para se divertir, ser algo prazeroso e não que ela possa correr riscos".

E a saúde pública em relação à saúde mental nesse período, como fica?

Sharon expõe que "saúde mental é uma coisa muito séria, só que ao mesmo tempo tem muito preconceito sobre este assunto, então a gente não vê campanhas públicas e até privadas referentes a esse assunto". A psicóloga lembra que ainda existe muito preconceito em falar de ansiedade, depressão. "As pessoas não têm acesso, os órgãos públicos não divulgam esse tipo de informação de uma forma constante, de uma forma realmente que a pessoa se sinta confortável e saiba o que está acontecendo, acaba gerando esse preconceito".

Ademais, "no Carnaval, por exemplo, não há divulgação sobre um posto caso a pessoa se sinta angustiada, se ela se sentir sufocada na multidão, ela pode procurar alguém, não se fala disso, só de ambulâncias, mas ambulâncias é para algo clínico, físico, mas nunca parte mental. E se a pessoa tiver realmente um ataque de pânico, o que ela faz? A gente não sabe e corre o risco da pessoa não ter recurso e fazer o pior, somente utilizar dos piores recursos possíveis".

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Se você tem algum familiar ou passa por uma situação delicada, não fique em silêncio. Peça ajuda, fale com alguém, procure um profissional.

Centro de Valorização da Vida (CVV) A instituição é uma das mais sérias do país. Começou em 1962 na cidade de São Paulo e hoje tem 70 postos de atendimento em todo país. Os voluntários se colocam à disposição para ouvir sem julgar ou dar sermão.

Acesse o site: cvv.org.br ou disque 141.

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