Cultura

O teu telefone é uma prisão

Um livro sobre comunicação digital garante que as redes sociais nos roubam a liberdade.
25 January 2018, 11:41am
Imagem de "O Repórter - A Lenda de Ron Burgundy", cortesia DreamWorks Pictures.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE UK.

Em Junho de 2017, o Facebook anunciou que tinha ultrapassado a marca de dois mil milhões de utilizadores. Agora, é de longe a maior rede social que existe, mesmo que o Twitter, com 300 milhões de utilizadores, e o Instagram, com 800 milhões, tenham ainda uma porção considerável da população mundial sob os seus domínios.

Podemos não gostar de dar os nossos detalhes pessoais às empresas que gerem as redes sociais, mas, ainda assim, fazemo-lo. Concordamos cegamente com termos e condições para podermos aceder ao que desejamos. Para Byung-Chul Han, filósofo nascido na Coreia do Sul, com carreira académica feita na Alemanha e autor de um livro recentemente traduzido para inglês sobre comunicação digital, Psychopolitics: Neoliberalism and New Technologies of Power, isso significa que estamos a renunciar voluntariamente à nossa liberdade. [Nota do editor: Esta obra de Han ainda não se encontra traduzida para português, ao contrário de vários outros dos seus livros]

Han considera a privacidade e o mundo privado vitais para a liberdade de cada um. Todavia, vê-nos “de vontade própria, a colocarmos toda a informação concebível sobre nós próprios na Internet, sem termos a menor ideia de quem sabe o quê, quando e em que circunstância... a própria ideia de proteger a nossa privacidade está a tornar-se obsoleta”.


Vê: "Como as selfies modificaram as nossas vidas"


Partilho fotos dos livros que compro. Anuncio algumas das minhas opiniões políticas e falo de trabalho no Twitter. Dou mais informações nas redes sociais do que alguma vez sequer sonharia fornecer a um censo do governo ou a sondagens corporativas. Liberdade é a habilidade de exercer livre arbítrio. Mas, se quero uma conta no Facebook, para manter contacto com amigos, eventos e família que moram noutro país, tenho de dar de mão beijada a minha privacidade para a captura de Big Data da rede social. Até que extensão estou a exercer o meu livre arbítrio? Han argumenta que essa é a genialidade do reino digital: tornar-nos dependentes dele e deixar-nos incapazes de escolher não o usar.

“A escolha”, diz o autor, “é eliminada, para dar lugar a uma selecção grátis dos itens em oferta”. Han imagina o mundo digital como uma prisão (um “panóptico digital”), onde és um recluso em isolamento, sentado, a olhar para o telefone, mas que pode ser monitorizado por carcereiros, como o Google, Facebook, Acxiom e outros. Ao contrário das solitárias de uma prisão normal, a prisão digital permite-te comunicar com outros detidos. A comunicação é encorajada. Na verdade, tens se comunicar, dar a tua opinião, gostar, partilhar, retuitar, fazeres log in. Voluntariamente, expomos perante os guardas os nossos pensamentos, os nossos dados particulares. “O Big Brother Digital terceiriza as operações para os detidos”, sublinha Han. Para o autor, a Internet é um deus que tudo vê, capaz de registar e relembrar os nossos pecados.

O Facebook é uma igreja moderna, um espaço de ajuntamento sob um olho vigilante. Smartphones são objectos “de devoção”: “O smartphone funciona como um rosário”, fazes scroll pelo ecrã com os dedos, como farias com as contas; confessas, partilhas e adoras através da interface do telefone. “Gostar”, saliernta Han depois, “é o Amém digital”. E sim, quando o Twitter mudou o seu emblema de “favorito” (uma estrela) para “gosto” (um coração), a sua função também mudou. O “favorito” era usado inicialmente como um marcador de posts (geralmente links de artigos ou vídeos). Agora, “gostar” é usado para mostrar que concordas, que aprovas um post, operando exactamente como um “amém”.

Quando um governo leva a cabo um censo, pede dados demográficos, o que significa que esses dados estão relacionados com o reino físico: onde moras, a tua idade, raça, género, emprego, etc. (a única excepção é se te pergunta a religião). A informação que a Big Data recolhe vai muito além disso. Entregamos os nossos desejos pessoais, hábitos de consumo, medos e relacionamentos voluntariamente.

Han diz que uma prisão normal “não tem acesso aos pensamentos e necessidades... não tem acesso ao reino físico” e, assim, “demografia não é a mesma coisa que psicografia [ou seja, os dados dos pensamentos]”. Isso significa que estatísticas old school e Big Data estão a quilómetros de distância. Pesquisa de opinião tradicional só pode levar-te até um certo ponto, a Big Data é ilimitada.

Han diz: “A Big Data fornece os meios para estabelecer não só um psicograma individual, mas colectivo”. Ou seja, um mapa para os nossos desejos e medos colectivos. Tens de ter muita fé na democracia, no capitalismo e na benevolência das corporações para não te preocupares com isto.

A sociedade de consumo ocidental opera quase que inteiramente por emoções. Marcas e publicidade exploram emoções para vender produtos. A televisão utiliza emoções para te fazer continuar em frente ao ecrã. A esfera das redes sociais não é diferente. Há uma libertação imediata de dopamina quando usas redes sociais. Publicas alguma coisa e a mensagem descola - os likes acumulam-se, os replies disparam. Às vezes, há algo de bom que surge disto, mas também pode ser uma coisa destrutiva

Han afirma que estamos a caminhar rumo a uma “ditadura das emoções”. Segundo Han, essa “comunicação acelerada promove a emocionalização. A racionalização é mais lenta que as emoções e não tem velocidade”. Acho que a “racionalização” não é a coisa mais necessária; preconceito e psicopatia podem esconder-se atrás do pensamento supostamente “racional”.

Numa entrevista ao Guardian, a funcionária da fábrica de memes “Social Chain”, Hannah Anderson, diz: “Emoções de baixa excitação, como contentamento e relaxamento, são inúteis na economia viral”. Ela diz que, para conseguir um envolvimento real, tens de fazer com que as pessoas se sintam frustradas, irritadas e aterrorizadas. O Facebook lidera uma guerra de emoções, onde só as respostas humanas mais intensas e instantâneas servem.

Não estou a pensar sair do Twitter. Aprendi coisas boas com as pessoas que por lá sigo e que poderia não ter absorvido na vida real - particularmente sobre identidade, género, literatura e música. No entanto, Han está aqui, sem nenhum perfil na Internet, a entender exactamente como vivemos a nossa vida digital e a obrigar-me a olhar um pouco mais além.

Há coisas que vão ajudar a promover a privacidade online, como o “direito de ser esquecido” da lei de Protecção de Dados e o movimento Me2B, que visa dar-nos o direito aos nossos próprios dados. Mas, estas coisas não são soluções imediatas. Ler Psychopolitics deixou-me mais consciente do que forneço às redes sociais e os problemas psicológicos que os meus hábitos online podem induzir. E talvez possa fazer o mesmo por ti.

"Psychopolitics: Neoliberalism and New Technologies of Power" foi publicado pela Verso.


@KitCaless

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