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As famílias de Sandy Hook ainda estão lutando

Enquanto os norteamericanos se voltam contra a NRA, um tribunal vai decidir se as famílias em luto podem processar a empresa que fez a AR-15 usada no massacre em Newtown.
MS
Traduzido por Marina Schnoor
Esquerda: (AP Photo/Jessica Hill) Direita: (AP Photo/Jessica Hill).

Matéria originalmente publicada na VICE US.

Enquanto os sobreviventes do Colégio Marjory Stoneman Douglas exigem respostas dos políticos pró-armas da Flórida e dos EUA, as famílias para sempre ligadas ao infame atentado de Sandy Hook ainda esperam por uma chance de justiça. Um pouco mais de três anos atrás, vários parentes das vítimas do atentado na Escola Primária Sandy Hook em Newtown, Connecticut, prepararam um processo contra a fabricante de R-15 Bushmaster – empresa sob a Remington – buscando indenizações monetárias e punição por danos, além de pagamento para advogados e alívio injuntivo. Na época, parecia extremamente improvável o caso seguir adiante, porque uma lei federal protege revendedores e fabricantes de serem responsabilizados por mortes com armas. Mas numa ação marcante, uma juíza disse mais de um ano depois que o processo poderia continuar, e até marcou um julgamento para 3 de abril de 2018.

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Mas as famílias chegaram a um novo bloqueio quando a mesma juíza derrubou o processo no outono de 2016. Mas os querelantes voltaram com o caso numa apelação para a Suprema Cortes de Connecticut, onde um painel de juízes ainda espera para decidir se um argumento legal criativo pode levar o processo para o Protection of Lawful Commerce in Arms Act (PLCAA).

Basicamente, os advogados das famílias estão tentando provar duas exceções para aquela lei. Uma é que a venda da AR-15 para a mãe de Adam Lanza violava uma lei estadual; a segunda tem a ver com a propaganda da arma. Apesar de os juízes terem ainda que decidir se as exceções são válidas, a Remington recentemente anunciou que planeja declarar falência, acrescentando outro problema a essa estranha saga legal.

Depois do atentado com arma de fogo em Parkland voltar o diálogo novamente para esses incidentes e levantar a perspectiva do NRA realmente encarar problemas políticos com corporações e legisladores, falei com uma advogada das famílias de Newtown, Katherine Mesner-Hage. Discutimos os últimos desenvolvimentos no caso, e como os aparentes problemas financeiros da Remington podem afetá-lo. Ela me contou que apesar de ainda estar analisando os detalhes com advogados de falência, não parece que uma declaração de insolvência poderia tirar a Remington inteiramente da mira – se o caso puder seguir. (Quanto a isso, o principal advogado da Remington, Jonathan Whitcomb, disse antes que o caso tem o potencial de prejudicar “aqueles que simplesmente fabricam e vendem legalmente armas de fogo que depois são usadas para cometer crimes” com “responsabilidade ilimitada”.)

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VICE: Da última vez que conversamos, vocês estavam esperando ver se a Remington abriria seus livros contábeis para o processo. E vocês também estavam tentando demitir o chefe de marketing da empresa. Algumas dessas coisas aconteceu?
Katherine Mesner-Hage: Basicamente nunca chegamos a essa abertura dos livros. A juíza abriu as portas para isso mas acabou derrubando o caso e precisamos apelar. Então um número limitado de documentos foi entregue. Mas eram só os primeiros estágios disso. Não fizemos nenhuma descoberta abrangente. Não podemos fazer o que queremos se a Suprema Corte não reverter o caso e as famílias puderem continuar.

Você pode falar um pouco mais sobre como você acha que eles estavam fazendo marketing voltado especialmente para homens jovens?
A propaganda, em primeiro lugar, é explicitamente ligada ao exército. Eles mostram todos esses ramos das forças especiais, SEALS, Boinas Verdes, Rangers, todos já usaram AR-15. Eles dizem que os cilindros são os mesmos encontrados na M-16, e os slogans são “Performance provada pelo exército”, “Quando você precisa agir sob pressão” ou “A escolha certa quando você precisa de um fuzil tão adaptável quanto você”. E um desses slogans que chamou muita atenção era “Forças da oposição, se curvem. Vocês estão em menor número”.

Você mencionou que Call of Duty é parte do problema. Você pode explicar como seu argumento é um pouco diferente daquele que as pessoas usaram para apontar videogames como Doom depois de Columbine?
Tudo se liga com a colocação de produtos nesses jogos de tiro realistas em primeira pessoa como Call of Duty, que apresentam a AR-15, incluindo a AR-15 da Remington. E eles são explicitamente violentos – você é recompensado por tiros na cabeça. Então a ideia que você tem é que essa arma só serve para matar pessoas de maneira rápida e eficiente. E o processo mostra bem isso. A arma não é boa para caçar. Não é boa para autodefesa – é boa para matar. Então essa é a base do nosso caso.

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Mas além disso, a Remington não está pegando uma arma muito perigosa e sendo cuidadosa para vendê-la como, sabe, um fuzil esportivo. Eles não deixam claro que você pode usar isso num estande de tiro. Eles estão dizendo que essa arma é para matar muitas pessoas, para atentados. E claro, ela é usada sempre para esses atentados com arma de fogo.

OK, então o que vocês esperam encontrar para provar sua tese? Um memorando entre a Remington e a Activision, a empresa que faz o Call of Duty?
Estamos interessados em tudo que tenha a ver com as práticas de marketing da Remington. Então, se eles não estão apenas trabalhando com empresas de videogames, se estiverem, com que empresas de publicidade eles estão trabalhando? Quais os planos de publicidade deles? Qual é a demografia-alvo deles e por quê? Que pesquisas eles fazem em demografia? Eles visam homens jovens? E se sim, por quê? O que torna homens jovens uma demografia atraente para a Remington, e o que eles dizem entre si sobre esses atentados com armas de fogo e o relacionamento entre homens jovens e AR-15s. Você não pode estar em 2018 ou 2016 – ou mesmo 2013 – e não pensar nesse relacionamento. É parte das nossas vidas agora.

Então o diálogo interno, mesmo se eles tivessem suas próprias dúvidas, é importante?
Talvez alguém na Remington tenha dito “Acho que esse marketing não é ético depois de tudo que vimos”. E isso é algo que vamos querer saber. Então são essas coisas e muito mais. Mas a abertura dos livros é uma ferramenta de busca da verdade. E acho que essas famílias têm direito a isso no mínimo – a conduzir investigações para achar a verdade.

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O que acontece agora que a Remington planeja declarar falência? Isso tem a ver com o processo, ou é uma maneira de escapar dele?
Não temos como saber por que eles vão declarar falência. A queda na venda de armas é uma explicação. A Remington, como todas as empresas de armas, acho, estava esperando um aumento das proibições sob a administração Clinton, e talvez tenha investido num aumento da produção antecipando isso. E agora, quando Trump é eleito e declara sua aliança com o NRA, ninguém mais está preocupado com regulamentação. Não há pressa para estocar armas, e talvez por isso um aumento na produção encontrou um súbito desinteressa da procura.

Qual pode ser outro motivo para a empresa estar com problemas?
Acho que a Remington não etá conseguindo pagar suas dívidas, o que levou a uma reestruturação, então isso tem a ver com a busca grotesca deles por lucro às custas de qualquer coisa: segurança pública, segurança escolar, vidas de crianças. O trauma de todas essas comunidades onde esses atentados aconteceram, as pessoas feridas. Sempre pensamos na contagem de corpos, mas também há o trauma das várias pessoas que ficaram feridas nesses tiroteios. A Remington vende essas armas para exatamente o que eles dizem que elas fazem. Depois de Sandy Hook, San Bernardino, Orlando, Las Vegas, Sutherland Springs e agora Parkland.

Quero acreditar que há credores se sentindo em conflito moral em se envolver com a Remington. Mas não posso dizer que isso tem a ver com a falência. Eu queria que essas coisas fossem verdade. E não são agora. Mas eles deveriam assistir com atenção esses adolescentes falando sobre controle de armas agora, porque eles são algo que tem que ser reconhecido.

A entrevista foi ligeiramente editada e condensada para melhor entendimento.

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