Rio de Amantes
Foto por António Pedro Lopes
Cultură

Rio de Amantes

Rio de Janeiro, a cidade onde Raquel André começou a coleccionar amantes. Primeiro um, depois - e até à data - uma colecção de 45, só na Cidade Maravilhosa.

2017. Inverno. O Rio de Janeiro continua lindo. Temer substituiu Dilma nos comandos do país, e veio Crivella, o pastor evangélico, fazer da cidade maravilhosa um grande reino de Deus. Estado falido, gente sem receber salários meses a fio, desmantelamento da cultura, violência, medo. Hell de Janeiro. Tiro de Janeiro. Mas sempre e também, Rio do profético "gentileza gera gentileza". Rio do vital "mais amor por favor". Rio pés na terra, "Rio, mas também posso chorar." Rio que se faz de encontro de afetos, "o Rio tá foda!", mas precisamos renovar a esperança

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2011. "Vejo o Rio de Janeiro", verso central de "Mal Secreto" de Jards Macalé. Raquel André e centenas de portugueses chegam à cidade à procura de uma outra vida possível, vindos de um Portugal entregue à crise e austeridade de Passos Coelho. Rio pode tudo, cidade nos olhos do Mundo. Dos anos de Lula, uma subida aos céus, um país em ascensão social, económica e política. Gentrificação, aumento do nível de vida, pacificação, segurança, zona sul e zona norte, muitos portugueses, muita potência numa cidade que se tornou um estaleiro de construção em progresso. Uma construção para receber o Mundo. Uma cidade de futuro?

A Raquel, sozinha no Rio, emigrante, gringa, artista, mulher. Chegada aqui para aprender, fazer parte e chamar a cidade de casa. 14 casas durante seis anos, tempo de deixar a vida toda cair na cabeça, tempo de tomar acção com o que tem e com o que quer ter. A viagem também é momento em que nos permitimos experimentar e ir além do que sabemos e guardamos do que sentimos. E ela aqui, na cidade onde a união faz a festa, e onde a solidão está na ponta da língua. Os encontros revestem-se de intensidade, mas os silêncios dificultam a continuidade, o aprofundamento. E não é assim, em todas as cidades?

Um dia, ela encontra uma Consuelo desamparada sem saber como atravessar a rua sozinha. E dá-lhe a mão. Acaba por juntar-se a ela numa ida ao teatro. E, depois disso, recebe um convite para ir a sua casa, abre-se a porta de uma estranha, ela vai e entra. A casa revela-se um lugar de memórias de consolo. As fotografias do marido, dos filhos, dos familiares. De todos os que passaram e viveram ali, mas já não estão. Ela agora vive sozinha. Ali dentro, elas encontram-se e conhecem-se sem agenda, nem promessa de futuro. Consuelo pede a Raquel para lhe tirar uma fotografia em sua casa. Tira a foto com a sua máquina e guarda-a para sempre. A Raquel nunca mais se esquece disso.

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Viveu várias vezes e em casas diferentes no bairro de Santa Teresa no Rio de Janeiro, Mas, foi junto ao Sélaron que encetou todo o projecto de "Colecção de Amantes". Foto por António Pedro Lopes

Escadarias do Sélaron. Foto por António Pedro Lopes

Estabelece-se no bairro de Santa Teresa, onde o morro faz vista sobre o centro da cidade e do outro lado o Pão de Açúcar. É a 14ª casa. Vive por cima das Escadarias do Sélaron, o sonho louco de um chileno que se tornou uma obsessão para a vida inteira e que encheu de mosaicos um rol de escadas na Lapa, marco e monumento turístico da cidade. É dali que sai para viver e descobrir a cidade. É dali que se cruza constantemente com um vizinho, com quem projecta uma intimidade dentro de casa. Fixa-se ali a ideia, a possibilidade de entrar na casa do outro como uma abertura e expansão de Mundo. Coleccionar amantes, então, Rio de Amantes.

A realidade mistura-se com a ficção quando a ideia se refina e se coloca em prática. Apresenta a ideia de colecionar amantes a uma rede de amigos, que lhe apresenta outros amigos. Primeiro vai a casa deles, sem saber onde vai, nos horários em que os amantes têm disponibilidade e tem as primeiras experiências. Depois, refina o encontro e passa a definir um apartamento que não conhece e cria um esquema de blind dates, nunca sabendo quem lhe aparece à frente.

Coloca-se ao serviço dos encontros e dá a responsabilidade aos amantes de pensar como querem apresentar a intimidade. Põe-se ao dispor. Deixa-se ir ao serviço da violência do amor e do afecto, de quem aparecer, com que intenções aparecer. Usa-se e é usada e na subversão faz dos seus amantes os performers da série da sua vida, os seus diamantes em série, one night stands.

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Amante #1, da Colecção de Amantes, Rio de Janeiro, Fevereiro 2014. Foto do arquivo de "Colecção de Amantes", de Raquel André.

Amante #1, da Colecção de Amantes, Rio de Janeiro, Fevereiro 2014. Foto do arquivo de "Colecção de Amantes", de Raquel André.

Rio de amantes é uma cidade de sensações e muito corpo. Arquivo para um corpo, um corpo-arquivo. E, no caso dela, não é exercício de Amélie Poulain, é uma escolha política para ler o Mundo a partir de outro centro e entender a Europa à beira mar plantada. Inspirou-se noutra forma de contar a história, que não cabe em nenhuma novela ou jornal da Globo e tornou tudo ainda mais ficcional quando a sua colecção virou tese de mestrado e serviu de mote para se encontrar com uma comunidade artística viva.

Encontra a colecção de experiências transformadoras de artistas guardada numa Sala de Maravilhas do coreógrafo Gustavo Ciríaco, ou a Pequena Colecção de todas as coisas, um inventário de objectos e gestos, da coreógrafa Dani Lima. No mestrado entra em contacto com as acções de terrorismo poético do artista visual Ronald Duarte, o sentido de intervenção e ruptura da obra do amigo artista Guga Ferraz, as palavras provocação e desafios práticos da professora e artista Lívia Flores, ou ainda as "linhas" da artista e investigadora Eleonora Fabião, que vai a casa de pessoas explicar-lhes o que é performance e, a partir daí, criar algo juntos. A inspiração dos outros e a experiência dela de encontrar os outros todos, fazer uma colecção e escrever tese.

Títulos da tese de mestrado: FOR LOVE. I FALL IN LOVE. I LOVE YOU. I HAVE LOVE FOR YOU. I WILL LOVE YOU FOREVER. Um estudo sobre o arquivo e memória nas artes do espetáculo que analisa a sua própria coleção e a de outros artistas. Foto do arquivo de "Colecção de Amantes", de Raquel And

Na sua tese, na Universidade Federal do Rio de Janeiro, entende-se como um corpo-arquivo de uma vida em performance, ténues os limites do desejo e da realidade. Sem o glamour da intensidade das experiências com amigos e namorados de Nan Goldin e sem a consciência premeditada dos exercícios de biografia ficcionada de Sophie Calle.

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No mundo de Raquel André, fica tudo em aberto, como algo que ainda não acabou. Uma aprendizagem e um livro dos prazeres. As fotos mais românticas que os encontros em si trazem à tona, pele com pele, flashes de uma intensidade iniciática, pequenos espelhos da intensidade que procurou no outro lado do Mundo. Fotos com segredos, desejo, banhos, abraços e conversas. Risos, choros e refeições partilhadas. Rio. Rio de Janeiro.

Talvez seja a forma de ela controlar a sua vida e contar a versão da história de que se quer lembrar dos anos da cidade do Cristo Redentor. Talvez seja o que a memória lhe deixou das cores, cheiros e sons dos sabores da vida daqueles momentos. Talvez seja a falta que se sente depois quando deixamos alguém ou mudamos de país. "É porque dói um pouco sentir esse amor. É confuso, é brutal, é fragmentado e explosivo". Agora não sabemos, ela também não, saberemos depois quando a colecção continuar por outras cidades e atravessar mais vidas.

Raquel recebe cartas, e-mails, recados, fotografias, declarações de vários amantes, até hoje. A alguns ela responde, continua o contacto. Esta carta escreveu para todos nos inícios do projecto. Foto do arquivo de "Colecção de Amantes", de Raquel André


Em Agosto, a VICE Portugal acompanhou o processo de colecção e apresentação das colecções em Niterói, Rio de Janeiro e Manaus na Amazónia, que contou com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian. Abaixo podes ver a agenda de apresentações de Raquel André para os próximos meses:

Colecção de Coleccionadores e Coleccão de Amantes de Raquel André, são apresentados durante o mês de Novembro na Sala Estúdio do Teatro Nacional Dona Maria II. Ambos os espectáculos são uma co-criação de Raquel André, António Pedro Lopes e Bernardo de Almeida. Além dos espectáculos, Colecção de Amantes, vol. I é lançado em formato livro com textos de Gregório Duvivier e Tiago Rodrigues.

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2 Novembro, às 21h30 estreia Colecção de Coleccionadores, na Sala Estúdio do Teatro Nacional D. Maria II, que fica em cena até dia 12. Quarta às 19h30, de Quinta a Sábado às 21h30 e Domingo às 16h30.

9 Novembro é lançado o livro Colecção de Amantes Vol.I, às 19h00 no Átrio do Teatro Nacional D. Maria II

15 Novembro, às 21h30, o regresso da Colecção de Amantes, na Sala Estúdio do Teatro Nacional D. Maria II, que fica em cena até dia 22. Quarta às 19h30, de Quinta a Sábado às 21h30 e Domingo às 16h30.

22 de Novembro, no âmbito do LEFEST sessão às 19h30 e 21h30.

25 Novembro, Colecção de Amantes - Teleteatro - Estreia na RTP2.

3 Março 2018, Colecção de Amantes, BIT Teatergarasjen, Bergen, Noruega.

8, 9 Março 2018, Colecção de Amantes, Findlay-Sandsmark, Noruega.

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