O que a ciência aprendeu com as experiências de LSD em golfinhos

A comunicação entre humanos e animais pode ser realmente possível?
05 December 2017, 4:52pm

Este artigo foi originalmente publicado na VICE USA.

Em 1961, alguns dos mais importantes cientistas do Mundo reuniram-se no Observatório Green Bank, na Virgínia Ocidental, EUA, lar de um dos mais potentes radiotelescópios do Planeta e o local de nascimento da busca moderna por inteligência extraterrestre. A reunião tinha como objectivo decidir se valeria a pena "varrer" o cosmos atrás de vida alienígenaa. O grupo batizou-se de Ordem do Golfinho, em homenagem a John C. Lilly, um neurocientista cujo pico de carreira envolveu tomar LSD e tentar falar com golfinhos.

Alguns anos antes, Lilly – que era um neurocientista formado – tinha expandido a sua investigação para o campo da consciência e do cérebro dos golfinhos e reparou que o cérebro destes era quase do mesmo tamanho que o dos humanos. Se fossem tão inteligentes como os humanos, imaginou Lilly, seria possível comunicarmo-nos com eles?

Para estudar melhor o tema, Lilly abriu o Communication Research Institute na ilha de St. Thomas, onde ele e um pequeno grupo de colegas seriam os pioneiros no estudo da comunicação dos golfinhos. As primeiras experiências de Lilly, publicadas em jornais importantes como o Science , sugeriam que os golfinhos eram capazes de imitar padrões de fala humanos e que a comunicação entre espécies era, de facto, possível.


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No entanto, os métodos pouco ortodoxos de Lilly podem ter tido uma influência significativa nos resultados. Como detalhado num artigo de 1967, ele administrava 100 microgramas de LSD aos golfinhos, já que era um dos poucos cientistas norte-americanos com autorização para estudar os potenciais efeitos terapêuticos da droga.

Lilly reparou que os golfinhos que tomavam LSD eram muito mais vocais que o normal. Isso foi medido através de um “ciclo de trabalho”, ou a percentagem de tempo que um golfinho passava a vocalizar por minuto. Sem ansiedade ou estímulo, esse ciclo de trabalho para um golfinho sóbrio costumava oscilar de zero a 70 por cento. Já com com os golfinhos sob a influência do LSD, o ciclo de trabalho “muitas vezes nem chegava ao zero”.

Allen Ginsberg, Timothy Leary e John Lilly, em 1991. Foto via Wikimedia Commons

O cientista via o efeito real do LSD quando um humano ou outro golfinho entrava no tanque com o golfinho sob o efeito da droga - o que fazia a vocalização aumentar para 70 por cento durante quase três horas (durante sessões de controlo nas quais os golfinhos não recebiam LSD, as interacções entre pessoas e golfinhos só subiam para cerca de 10 por cento). Por outras outras palavras, assim que um golfinho que tinha sido injectado com LSD entrava em contacto com outro mamífero inteligente, não ficava calado.

Enquanto Lilly continuava a escrever artigos sobre LSD e golfinhos, o seu trabalho fornecia um vislumbre importante sobre a droga e a psicoterapia, mesmo que não tenha conseguido provar que era possível estabelecer uma comunicação significativa com as cobaias. Em vez disso, o cientista e os golfinhos comunicavam através de uma “linguagem silenciosa”, feita de vocalização sem sentido e contacto físico.

“Eles dizem-nos quando não nos querem no tanque, eles dizem-nos quando querem que entremos”, salientou Lilly. E acrescentou: “Fazem isso através de gestos, de toques, de carícias e de todos os géneros de linguagem não-verbal. É um nível muito primitivo, mas é absolutamente necessário para progredir para outros níveis”.

E quanto ao LSD? Lilly recorda um resultado particularmente impressionante das suas experiências, envolvendo um golfinho resgatado depois de levar três tiros de arpão no rabo. Os donos anteriores do golfinho tinham uma relação próxima com o animal antes do incidente traumático, mas “depois da ocorrência, ela nem sequer se chegava perto de outros humanos”. Este golfinho exibia um comportamento muito assustado, ficando sempre do lado oposto da piscina quando alguém entrava nela.

Dois anos depois do incidente, Lilly usou esse golfinho como uma das suas cobaias de controlo e injectou no animal 100 microgramas de LSD. “Quando o efeito do LSD bateu, 40 minutos depois da injecção, o golfinho veio até mim”, escreveu Lilly. E acrescentou: “Ela nunca me tinha abordado anteriormente. Ficou parada no tanque, com um olho fora da água, encarando-me nos olhos durante 10 minutos sem se mover. Era um comportamento totalmente novo. Comecei a mover-me para ver se isso teria algum efeito e ela seguiu-me até à beira do tanque. Agora estava a 1,5 metro de mim, não a seis metros”.

Apesar das experiências de Lilly com a comunicação dos golfinhos terem sido, de várias formas, um fracasso ético e científico, o seu trabalho teve um impacto profundo e positivo na maneira como pensamos sobre drogas, psicologia e comunicação entre espécies. Graças em parte à abordagem humanizada de Lilly ao intelecto do golfinho, agora eles são reconhecidos como uma das criaturas mais inteligentes da Terra, o que desencadeou vários esforços de conservação em larga escala para os proteger. Mesmo os investigadores do SETI, o instituto de busca de vida extraterrestre da Califórnia, deram continuidade ao legado de Lilly, investigando a forma como a comunicação de golfinhos e outros animais pode ajudar a criar um filtro que determine se um sinal de rádio do espaço tem origem extraterrestre.

Hoje, o campo de comunicação entre humanos e golfinhos está vivo e bem vivo. Agora, há máquinas de interface capazes de “traduzir” a vocalização dos golfinhos e uma outra investigação descobriu que golfinhos exibem uma complexidade de vocalização que rivaliza com a linguagem humana (apesar da existência de uma língua golfinho, ou "golfinhês", ainda ser um tema controverso).

Mas, ao fim e ao cabo, muito do trabalho de Lilly com golfinhos e LSD ocorreu apenas no limite da linguagem, permitindo encontrar um significado mesmo quando as palavras falhavam.

“A coisa mais importante para nós com o LSD em golfinhos é que, o que vimos, não tem significado na esfera verbal”, escreveu Lilly. E salientou: “O significado reside completamente nessa troca não-verbal. É aí que o nosso progresso está a ser feito. Não estamos no que se poderia chamar de troca racional de ideias complexas, porque ainda não desenvolvemos comunicação dessa maneira. Esperamos chegar a isso, eventualmente, mas aceitamos comunicação em qualquer nível onde a conseguirmos encontrar”.


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