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Cultura

"Us", de Jordan Peele, não esconde os defeitos do próprio filme... e da sociedade

O novo filme do realizador de "Foge", chegou aos cinemas portugueses com o título "Nós" e, apesar de disparar para todo o lado, só acerta numa coisa ou outra.

Por Thiago Blumenthal
27 Março 2019, 5:44pm

Foto: Divulgação.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE Brasil e parcialmente adaptado ao português europeu.

Atenção: Contém spoilers.

O novo filme de terror de Jordan Peele, Nós, pode ser um bocadinho decepcionante. Não por ser um filme difícil, um tédio ou uma má história. Nada disso. Mas, é preciso entrar no ambiente. Se estás à espera de uma apoteótica crítica social, da maquinaria racial norte-americana, ou da consolidação de um realizador que tinha (e tem na verdade) tudo para ser o grande mestre do género dos dias de hoje, bem, ainda não será desta. Calma, vou dar um passo atrás: o filme é óptimo, enche a cara de pipocas, um litro de Cola e não tires os olhos do ecrã. Só não esperes uma obra-prima, como aconteceu com Foge!

Todos temos uma relação com uma história que nos é contada, que atinge níveis conscientes e subconscientes. Depois, entram em jogo as nossas referências anteriores, o nosso gosto pessoal, moldado socialmente em tanta coisa, a nossa capacidade de empatia com a mentira, por mais que ela se sustente em poucos elementos, como é o caso de Nós. Como diria aquele personagem italiano ao fazer desaparecer uma enorme girafa numa questão de segundos: é só um truque.


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O que acontece em Nós é que esse truque - ferramenta que determina se o artista é bom naquilo que faz ou não - desvia tanto o olhar do espectador, que nos perdemos no banho de sangue que jorra pelo ecrã. O mágico, figura importante do ilusionismo e da suspensão da realidade, dirige o nosso olhar ao seu rosto, aos seus olhos e nunca às suas mãos, estas que estão a manipular todo o nosso pequeno mundo real e a pô-lo do avesso sem nos darmos conta.

É preciso surpreender a audiência, qualquer mágico sabe disso e essa regra capital aplica-se a todas as formas de arte, da literatura, à música, ao cinema etc. Jordan Peele, porém, leva o nosso olhar a tantas direções que o efeito-surpresa se perde, porque estamos a olhar para o céu, para a longa fila de seres replicados espalhados por Santa Cruz, Califórnia, para o close-up às tesouras, para a família branca, para os coelhos espalhados por um laboratório subterrâneo, num jogo de espelhos que nos deixa mais perdidos do que a perceber alguma coisa do que se passa. E não, aqui não cabe o joguinho literário, da crítica especializada: “A obra deixa-nos perdidos, sem chão, destroça-nos” (frase fácil, encontrada em qualquer edição de revista literária e académica que quer ser inteligente). Aqui, ficamos perdidos porque a coisa não está completamente amarrada – e podia estar, não há motivo para não atar aquelas pontas soltas.

Nós, concedo-vos isso, é óptimo na sua execução, nos seus momentos de tensão, na sua história que parece simular um George Romero, um John Carpenter. E não é um filme que esteja preso à sua edição, numa sequência de bons momentos. Toda a coisa é fluída e funciona, verdadeiramente. O que pode fazer-te torcer o nariz é essa tentativa de abrir o arco interpretativo até ele rebentar e depois termos de lançar as flechas com a mão: isso nunca matou ninguém, ou, por outras palavras, não dá um sentido muito consistente à coisa. Porque não fixa, não crava no peito. A flecha só se vai fixar e matar o nosso inimigo quando lançada com um arco poderoso, ainda que esses adversários sejamos nós próprios, numa réplica meio sci-fi, meio histeria biogenética. Isto porque nem estou a comentar a psicologia coxa, de que nós somos a nossa maior ameaça, numa página tão virada e revirada que já se rasgou. Para um Shyamalan (nada contra) funciona. Mas não cabe em Jordan Peele.

Lupita Nyong’o está espectacular no papel duplo que faz, assim como os seus dois filhos no enredo. Elisabeth Moss mal aparece e fica claro de que está subaproveitada. A sua maldade não convence, a caricatura derrete a maquilhagem, muito diferente do lado mau de Lupita, que é aterrador, assustador, um mal latente, quase silencioso e muito, muito lento, o que é óptimo num filme de terror. À excepção da parte em que quando a mãe boa pergunta à mãe má quem eles são e ela responde “somos americanos” (uma platitude que nada quer dizer, meio Spike Lee velho, meio Clint Eastwood velho, que atinge parte da audiência que quer ver coisas a dar para o panfletário – Jordan Peele, tu és jovem, inteligente p'a caraças, não sejas um velho chato e básico), o seu personagem é cuidadosamente construído. E assim são também as suas falas e a sua relação com a família e com os seus demónios.

Peele, para além do terror - que de facto está provado que domina as regras do género - domina bem as questões que fazem falta ao cinema contemporâneo, não só do terror: poucas, pouquíssimas piadas, mas que se encaixam; uma imersão no nosso mundo mais quotidiano, com os nossos hábitos, os nossos defeitos, as nossas bandas sonoras, em que o banal cai no fantástico num piscar de olhos: basta uma família aparecer na tua rua e te observar imóvel a meio da noite. A piada, por exemplo, em que Moss pede à aplicação de voz para ligar para a polícia e a app percebe mal e começa a tocar "Fuck tha Police", dos NWA, num reverso que vai para além do clichê do comic relief: a cena torna-se ainda mais horripilante. O riso do horror.

O versículo de Jeremias, referenciado algumas vezes ao longo da trama, não traz muita coisa, mas pode ser desdobrado nalguma representação do mal, porque é o próprio Deus de Israel, dos hebreus, que se dirige furioso ao seu povo eleito, num período em que Judá queima, com altares acesos a Baal, um dos deuses semíticos mais pesados da Bíblia Hebraica. Vocês não vão escapar e, sinceramente, eu estou-me a lixar. Há um riso aqui, o riso divino do horror. Contudo, esta é só mais uma das muitas referências, caminhos e espelhos infinitos do filme, o que gera uma profusão de sentidos que, no fim, pode não bater bem. Peele fez um bom filme, mas disparou tiros para demasiados lados.

Talvez Nós seja (também) sobre isto: o riso do horror. Entre os poucos defeitos evolutivos ao longo de não sei quantas mil gerações de primatas, um deles é o de termos dificuldade em sentir empatia por aquele que não é da nossa tribo. Por isso é que rimos quando destruímos o outro, por isso rimos quando destruímos uma versão falsa (férias em Santa Cruz, “don’t do drugs” aos filhos, uma vida de conforto relativo) do que somos de verdade: seres subterrâneos, praticamente rastejantes e a comportar-nos como dementes em salas escuras, em busca de um único objetivo: vingança, sangue, conquista. Se Jordan Peele se tivesse ficado por aí, Nós poderia ficar para a história. Mas, o realizador quis mais. Por isso corre, vai ver Nós, mas não deixes de ver Foge, mais importante, melhor realizado, melhor encaixado.


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