Relato

Não consigo falar com o meu pai, mesmo que ele esteja às portas da morte

Quando o homem que te meteu no Mundo se prepara para entrar numa sala de cirurgia, torna-se tudo muito difícil.

Por John Doran; Traduzido por Madalena Maltez
08 Outubro 2018, 5:05pm

O autor e o pai, no Natal de 1988.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE UK.

Foi no primeiro dia verdadeiramente quente do ano que o meu pai foi hospitalizado. Ainda está internado, ligado a máquinas e soro. Quando cheguei a casa dos meus pais, foi como se nada de diferente estivesse a acontecer. A minha mãe conta-me tudo sobre os vizinhos (“Uma família negra mudou-se para a nossa rua!”, diz, orgulhosa) enquanto o meu pai passa pelos canais da televisão. Ele parece bem e saudável para um tipo de 82 anos a ver TV.

Nas próximas 24 horas, a sensação de que devo falar com o meu pai sobre o que está a acontecer intensifica-se. Na noite antes de ele ser internado no hospital, o silêncio entre nós começa a ficar pesado. Sei que devia dizer alguma coisa pelo bem dele, se não pelo meu; se algo correr mal – e há muita coisa que pode correr mal, já fui avisado que devo preparar-me para essa possibilidade – esse vai ser o meu arrependimento mais imediato e, provavelmente, o mais duradouro.

Desenvolvo a ideia de que o vou entrevistar para algum projecto e depois, com um gravador entre nós, falar com ele sobre a vida. Posso dizer-lhe que estou a escrever alguma coisa sobre a onda de calor de 1976 (estou sempre a pensar em escrever sobre a onda de calor de 1976 – isso pelo menos é verdade). Só tenho que encontrar a oportunidade certa.

Ele está sentado a olhar intensamente para o televisor. Sento-me na cadeira de baloiço do outro lado da sala, a apagar e-mails no meu iPhone. Quatro décadas de conversas mínimas apenas sobre o funcional deixaram-nos completamente despreparados para esta troca, mesmo que a sua chegada fosse uma das poucas certezas da vida.

Eventualmente, praticamente descontrolado, levanto-me e grito: “Olha-me o estado deste cinto”. Levanto a minha t-shirt de Sly & The Family Drone e aponto para o meu cinto. É verdade que o cinto já viu melhores dias. O que parecia cabedal revelou-se algum tipo de substituto que descora em certas partes para mostrar um tecido gasto. Claramente só vou conseguir usá-lo mais uma semana. Ele salta para o meio da acção: “Eu tenho um cinto de sobra. Podes ficar com ele. Está lá em cima”. Sai praticamente a correr para subir as escadas.

No quarto dos meus pais, entrega-me um cinto ainda na embalagem. Tiro o velho que levava posto e troco. E ficámos ali parados, um diagrama de Venn humano. O homem de 82 anos que só fala livremente sobre conduzir e decoração, ou para reclamar dos outros e o homem de 47 anos que só comunica livremente para falar de música e reclamar da saúde, com uma ténue sobreposição representada pelo cinto novo.

“É demasiado luxuoso para mim”, diz ele, balançando a cabeça para apontar para o cinto, que é completamente normal. “Não, é óptimo”, digo. “Muito obrigado.” Ele dá meia volta e desce as escadas, portanto sigo atrás dele. Sinto o ar a ficar mais denso entre nós, tornando-se quase palpável. Sinto que seria possível dar um murro à distância entre nós.

Ele pára na sala da frente e a sua mão não chega à maçaneta. Será que vai dizer alguma coisa? Reparo que os seus dedos estão esticados para pegar na maçaneta, sem realmente a alcançarem e percebo nesse segundo que está a cair para trás. Seguro-o e levanto-o, quebrando por fim o silêncio com duas sílabas: “Pronto”.

Mais tarde, quando ele está deitado no quarto, tomo uma chávena de chá com a minha mãe e ela solta tudo de uma vez. “É a quarta vez que ele cai. As células brancas devem estar novamente a baixar. Não importa quanto ferro coma, nada disso está agora a ser absorvido. Fiquei aliviada que a direcção do hospital tenha decidido operar. Quer dizer, ele tem 82 anos. Eles disseram 'De maneira nenhuma' se ele tiver mais de 82. Mas, ele não tem realmente 82, pois não? É só o que diz a certidão de nascimento. Olha para ele. Não é possível que seja um homem de 82 anos. E eles devem ter visto como é forte. As coisas são muito melhores agora do que há 15 anos, mesmo... quando teve isto pela primeira vez... muito melhores. Quer dizer, só passou uma semana desde que foi diagnosticado e aqui estamos... vai ser internado amanhã. Os exames mostraram com 100 por cento de certeza que isto não vai se espalhar. Tem uma mancha num dos pulmões e está a tossir sem parar há meses. Mas, como sabes, teve tuberculose quando tinha 19, então o pulmão deve ter ficado marcado por causa disso. É o mesmo que antes – tu sabes – só que mais em cima. O cirurgião disse que não sabe quanto vai tirar até o abrirem. Vamos ver amanhã, acho. Provavelmente vão colocá-lo numa dieta. E... tu tens que te preparar, John, tens que estar preparado. Tudo pode acontecer. Mas, olha para ele. Não pode ser um homem de 82 anos, não há como...”.

Foto: Al Overdrive

Na manhã seguinte, sentámo-nos na sala de espera do Whiston Hospital – provavelmente a alguns metros de onde nasci – em baixo de um cartaz grande sobre doações de órgãos. Três pessoas estão à espera de cirurgia; cada uma acompanhada de um pequeno grupo. E toda a gente está a tentar não olhar para o cartaz. Um anestesista, uma enfermeira da ala de cancro, um cirurgião e um enfermeiro explicam os detalhes do que vai acontecer. Todos terminam cada frase com uma pergunta: “Tudo bem consigo, Kevin?”. O novo credo de inclusão completa. Sei que o meu pai não está a ouvir nada do que eles estão a dizer. Está com os dentes cerrados, a desejar que terminem. Quase que o consigo ouvir a pensar: "Vamos lá acabar já com isto, pessoal'".

Despedimo-nos e, alguns minutos depois, regressamos ao calor sufocante, à espera de um táxi de volta para Rainhill. Um homem num conjunto desportivo conversa com uma mulher de 40 e poucos anos de vestido numa cadeira de rodas, enquanto os dois fumam. “Vamos esperar um pouco lá mais para a frente?”, digo à minha mãe e começo a andar com ela pela calçada até já não dar para ouvir o que o casal está a dizer. Paramos em segurança perto de uns adolescentes com t-shirts dos Slipknot a fumarem erva atrás de um arbusto.

Em casa, as coisas seguem normais durante o resto da manhã. Há vários trabalhos domésticos para fazer aqui e ali, depois do almoço conversamos um pouco, mas quando batem as três da tarde sei que ela está a começar a ficar agitada. Eventualmente digo: “Olha, liga-lhes se quiseres”. Ela liga para o hospital: “Uhum... Sim... Sim... Cirurgia... John Kevin Doran... Uhum...”. Sinto que estou à beira de um precipício. Não aguento isto. Quero sair a correr pela porta. Vou voltar para Londres e nunca mais atender o telefone a nenhum número de Merseyside.

A conversa demora muito tempo. Eles não lhe vão dizer por telefone, ou vão? Faria qualquer coisa para atrasar os próximos segundos. Literalmente, qualquer coisa..Depois, ela larga o telefone e começa a chorar, com a cabeça afundada entre as mãos. Sinto-me como se tivesse levado um soco no estômago e sido picado por uma cobra ao mesmo tempo, como se tivesse veneno a correr pelas veias. Como se uma porta se estivesse a abrir lentamente para um mundo de horror.

Subitamente, a minha mãe está a falar diretamente comigo: “Desculpa... Desculpa, John. Ele está bem. Ele já acordou. Só fiquei... fiquei um pouco...”. Pego no telefone do tapete bege e coloco-o no gancho: “Bem, então é melhor voltarmos para lá”.

Num quarto só dele, o meu pai está no centro de uma teia de aranha de tubos e soros. Uma máscara que faz um barulho alto de assobio está presa ao seu nariz e boca. Está cercado de cobertores, apesar do calor. Umas calças muito antigas, uma t-shirt de algodão estampada e um colete branco estão dobrados numa cadeira ao lado da cama. Mesmo agora, não parece tão velho. Momentaneamente, parece o homem que eu esperava sentado à janela; esperando que ele voltasse do trabalho, preocupado que pudesse ter acontecido um acidente na fábrica, há uns 40 anos atrás.

É magro, fora os antebraços muito musculosos. Braços de alguém a quem eu nunca conseguiria vencer num braço de ferro. Mas então, a minha mãe tira-lhe os óculos bifocais e grossos para ajeitar a máscara de oxigénio e, de repente, sem essa última linha de defesa, parece mesmo ter cada dia dos seus 82 anos.


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