À Margem da Lei: a vida no que resta do Bairro 6 de Maio

O fotógrafo José Ferreira passou um ano a documentar a vida dos traficantes e das famílias que vivem no que resta de um dos últimos bairros clandestinos que ainda resiste às portas de Lisboa.

Por José Ferreira; Como contado a Sérgio Felizardo
06 Março 2019, 3:11pm

“G” (nome fictício), faz uma vigia no bairro com a sua caçadeira, na expectativa da chegada de membros de gangs rivais. Bairro 6 de Maio, Amadora, Lisboa, 2018. Todas as fotos por José Ferreira.

A pouco mais de cinco quilómetros do centro de Lisboa, onde o turismo avança a velocidades nunca vistas, o Bairro 6 de Maio, no concelho da Amadora, está a definhar. Em contagem decrescente para, daqui a poucos meses não passar apenas de uma memória. Uma realidade a milhas de distância de um dos mais desejados destinos turísticos do Mundo que atrai milhões de visitantes todos os anos. Uma realidade, aliás, a milhas de distância de um país que lhe fecha os olhos, num misto de embaraço, repúdio e incredulidade.

Estigmatizado durante anos a fio, mitificado ao longo de décadas como "o sítio onde nem a polícia entra", o Bairro 6 de Maio começou a ser desmantelado em 2016, num processo de despejos, realojamentos polémicos, rusgas policiais frequentes e tentativas activistas de travar o inevitável. Um processo que se arrasta e que tem servido para enfatizar ainda mais os problemas de uma comunidade na sua maioria composta por cabo-verdianos que decidiram tentar uma vida nova em Portugal no pós-Ultramar, entre o final dos anos 70 e início de 80. Um gueto às portas de Lisboa, onde mais do que viver, todos tentam sobreviver. Alguns da única forma que sabem, à margem da lei.


Vê o primeiro episódio de "Black Market"


O fotógrafo José Ferreira passou um ano a tentar perceber estas pessoas, a conviver com elas, a retratá-las sem filtros e sem rodeios. Conquistou-lhes a confiança. Deixaram-no entrar. Seguiu-lhes os passos. Àqueles que fazem do tráfico de drogas e armas e dos assaltos modo de vida. Porque não conhecem nada mais. "Vêm de famílias pobres, nascem no gueto e pouco têm. Vêem o crime como uma forma de arranjar dinheiro facilmente e não têm nada a perder", explica Ferreira, fotógrafo profissional há oito anos e apaixonado pela fotografia documental.

Quando soube que um dos últimos bairros em Portugal feitos de tijolo e chapa de zinco estava a começar a ser demolido, decidiu que tinha de tentar lá entrar. Documentar o fim de uma comunidade marginal desde o berço. "A inserção no bairro, foi complicada. São pessoas muito desconfiadas e fechadas para o mundo exterior. Mas, depois de as conheceres e de te dares a conhecer são das pessoas mais simples, humildes e amigas", conta. Ferreira não consegue contabilizar as vezes que lá foi e o tempo que lá passou, mas salienta que foi o necessário para que todos estivessem confortáveis com ele.

O tema é sensível, no 6 de Maio vivem tanto aqueles que encontraram no crime o seu espaço, como aqueles que nada têm a ver com isso. Ainda assim, ali ninguém julga ninguém. "É uma comunidade muito chegada, muito amiga, protegem-se todos uns aos outros. Muitos deles não conhecem outra realidade sem ser aquela, nascem ali e a vida é ali...", realça o fotógrafo.

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Mulher caminha no Bairro 6 de Maio, Amadora, Lisboa, 2018. Foto por José Ferreira. Este bairro degradado situa-se a cerca de cinco quilómetros do centro da capital. Construído ilegalmente nos anos 70 por imigrantes Cabo-verdianos e guineenses é, actualmente, um foco de problemas sociais e criminalidade, tráfico de drogas, armas e prostituição.

A imagem actual do Bairro parece saída de uma zona de guerra – seja pela degradação dos edifícios ainda de pé e que serviram durante mais de 30 anos como casas temporárias, ou pelas constantes demolições que agora esperam limpar, homogeneizar e integrar aquela zona como parte de um Portugal cada vez mais europeu. "É neste cenário, enquanto o progresso avança, que muitos sobrevivem como podem e da única maneira que sabem. É onde fazem do tráfico de drogas duras, prostituição e armas o seu ganha-pão, sempre sob o olhar atento das autoridades que pouco mais podem fazer do que olhar para o lado e, de vez em quando, desencadear rusgas cosméticas, mais de controlo e para, creio eu, tentar que a coisa não se espalhe por outras zonas da cidade". Manter o gueto no gueto.

O 6 de Maio está à beira de um fim que, ainda assim, não tem data certa. As retroescavadoras vêm e vão, as obras que Vhils tinha cravado em paredes locais desapareceram e os realojamentos das famílias não deixa de estar envolto em polémica. Não é que não queiram sair, o problema tem outra profundidade. Uma a que nem políticos, nem a sociedade em geral parece querer dar importância. "O Estado está a dar casas a todas as famílias que lá vivem, mas, ao mesmo tempo, está a separar toda a gente e daí os problemas e as notícias que nos últimos meses têm saído. Foram muitos anos a viver numa comunidade em que se conheciam todos e a revolta não é tanto por o Bairro ir abaixo, mas mais por estarem a colocar as famílias em zonas diferentes. A dividir", sublinha José Ferreira.

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Carlon, 35 anos, barbeiro, atende um cliente. Natural de Cabo Verde, imigrou aos dois anos de idade com os seus pais, há 18 anos que é o barbeiro do bairro. Bairro 6 de Maio, Amadora, Lisboa, 2018. Foto por José Ferreira.

Do ano que passou com estas pessoas, resultou a série fotográfica "Out of Law", que aqui publicamos em exclusivo. Pungente, dura, talvez demasiado real para quem está a apenas cinco quilómetros, mas parece que está a cinco mil. O Bairro 6 de Maio não é só criminalidade e prédios devolutos. Mas também o é. É uma identidade e uma realidade pouco convencionais e inválidas perante a sociedade, expostas através destas imagens.

Um trabalho que Ferreira entende como essencial para se perceber este Portugal que também existe. Sem juízos morais. "Não os julgo. Nascem no gueto e seguem as pisadas dos mais velhos e não é só porque vivem ali que são más pessoas ou os únicos criminosos da cidade... quantas pessoas há que nem sequer vivem em guetos e traficam drogas e fazem assaltos?", questiona. E acrescenta: "Fiquei amigo de alguns deles, dos que me abriram portas e me ajudaram. Alguns são rappers e levo-os ao meu estúdio para fazer fotos promocionais e de capas de discos, por exemplo. Não fiz isto para julgar ninguém, fi-lo para mostrar uma realidade".

Vê mais imagens de "Out of Law" abaixo e segue o trabalho de José Ferreira no seu site e Instagram.

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Homem (não identificado), no interior da sua casa empunha uma arma de fogo. A posse de armas ilegais é comum entre os membros dos gangs do bairro. Bairro 6 de Maio, Amadora, Lisboa, 2018. Foto por José Ferreira.
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Jovem (não identificado), junto a uma parede com o graffiti “Thug”. Bairro 6 de Maio, Amadora, Lisboa, 2018. Foto por José Ferreira
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Homens praticam exercício numa casa que tinha sido demolida pela Câmara Municipal e posteriormente reconstruída pelos residentes. Bairro 6 de Maio, Amadora, Lisboa, 2018. Foto por José Ferreira.
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Dois homens lutam junto a uma casa demolida. Ambos são “Snipers”, vigias das entradas do bairro que alertam os traficantes para a aproximação de forças policiais e membros de gangs rivais. A luta foi desencadeada porque um dos “Snipers” falhou na sua missão. Bairro 6 de Maio, Amadora, Lisboa, 2018. Foto por José Ferreira.
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Alex (nome fictício) segura na mão uma catana num dos becos do bairro. Uma arma branca que o seu pai trouxe para Portugal quando emigrou no período pós-colonial. Bairro 6 de Maio, Amadora, Lisboa, 2018. Foto por José Ferreira.
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Elvis (nome fictício) mostra uma cicatriz abdominal resultante de um ferimento causado por uma bala perdida durante uma luta com um gang rival. Bairro 6 de Maio, Amadora, Lisboa, 2018. Foto por José Ferreira.
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Ligações clandestinas à rede de energia eléctrica. Bairro 6 de Maio, Amadora, Lisboa, 2018. foto por José Ferreira.
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Carlos (nome fictício) treina o seu cão “Pitt-Bull” para atacar em frente à sua casa. Bairro 6 de Maio, Amadora, Lisboa, 2018. Foto por José Ferreira.
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Boss G (nome fictício), com uma máscara para ocultar a identidade, mostra as suas jóias de ouro num beco do bairro. Aos 15 anos foi integrado numa casa de correcção juvenil, aos 18 sentenciado a uma pena de prisão por “car-jacking” e aos 25 anos voltou a cumprir pena por assalto a uma joalharia. Bairro 6 de Maio, Amadora, Lisboa, 2018. Foto por José Ferreira.
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Traficante trata plantas de canábis numa estufa ilegal. Bairro 6 de Maio, Amadora, Lisboa, 2018. Foto por José Ferreira.
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Lord (nome fictício) dá banho ao filho de seis meses de idade na sua casa, sem abandonar a arma automática devido a conflitos com a polícia e gangs rivais. Bairro 6 de Maio, Amadora, Lisboa, 2018. Foto por José Ferreira.
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Traficante de droga (não identificado) prepara doses para venda, junto a uma imagem de Nossa Senhora de Fátima. Os traficantes acreditam na sua protecção para o negócio. Bairro 6 de Maio, Amadora, Lisboa, 2018. Foto por José Ferreira.
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Toxicodependentes consomem crack numa das habitações devolutas do bairro. Bairro 6 de Maio, Amadora, Lisboa, 2018. Foto por José Ferreira.
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Fátima (à esquerda), 20 anos, dependente de crack, junto a Joana (à direita - nome fictício), também toxicodependente, mulher trans. Ambas trabalhadoras sexuais. Bairro 6 de Maio, Amadora, Lisboa, 2018. Foto por José Ferreira.
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Patrulha da Polícia de Segurança Pública. Bairro 6 de Maio, Amadora, Lisboa, 2018. Foto por José Ferreira.
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Wilson, 24 anos, treina boxe diariamente num ginásio instalado numa casa demolida e posteriormente reconstruída pelos residentes. Sonha em ser pugilista profissional. Bairro 6 de Maio, Amadora, Lisboa, 2018. Foto por José Ferreira.
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Criança deitada na cama de sua casa após tomar banho, junto à pistola automática do seu pai, traficante com problemas com as forças da autoridade e gangs rivais. Bairro 6 de Maio, Amadora, Lisboa, 2018. Foto por José Ferreira.
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Johnny (nome fictício), olha por uma janela enquanto prepara doses de droga para venda. Bairro 6 de Maio, Amadora, Lisboa, 2018. Foto por José Ferreira.
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Drogas, balança de precisão, arma automática, munições e notas de euros no chão de uma das casas do bairro. Bairro 6 de Maio, Amadora, Lisboa, 2018. Foto por José Ferreira.
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Uma mulher penteia uma jovem e outra alimenta de biberão um bebé. O quotidiano das famílias no bairro. Bairro 6 de Maio, Amadora, Lisboa, 2018. Foto por José Ferreira.
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Esta rua é um autêntico supermercado de estupefacientes, onde os traficantes se juntam para fazer negócio com os residentes e consumidores externos. Bairro 6 de Maio, Amadora, Lisboa. Foto por José Ferreira.
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Rute (à esquerda - nome fictício) e Dany(à direita - nome fictício) acariciam Tivon (nome fictício) numa festa no bairro. Tivon, um dos criminosos mais respeitados do bairro, já foi condenado a penas de prisão mais de quatro vezes, por roubos à mão armada e assaltos a habitações. Bairro 6 de Maio, Amadora, Lisboa, 2018. Foto por José Ferreira.
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Homem espreita por uma janela de um prédio devoluto. É um “sniper”, encarregue de vigiar as entradas do bairro para alerter os traficantes quanto à aproximação de forças policiais e membros de gangs rivais. Bairro 6 de Maio, Amadora, Lisboa, 2018. Foto por José Ferreira.
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Jogo de poker a dinheiro entre habitantes durante a noite. Bairro 6 de Maio, Amadora, Lisboa, 2018. Foto por José Ferreira
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Pai e filha esperam a chegada da mãe após o trabalho. Bairro 6 de Maio, Amadora, Lisboa, 2018. Foto por José Ferreira.
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Homem amputado observa retroescavadora a demolir habitações. Bairro 6 de Maio, Amadora, Lisboa, 2018. Foto por José Ferreira.
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Jovem conduz uma bicicleta. Bairro 6 de Maio, Amadora, Lisboa, 2018. Foto por José Ferreira.
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Casas demolidas no bairro, a Câmara Municipal da Amadora alega que as famílias desalojadas aderiram a programas de apoio ao auto-alojamento. Bairro 6 de Maio, Amadora, Lisboa, 2018. Foto por José Ferreira.
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Homens e mulheres divertem-se numa festa. Bairro 6 de Maio, Amadora, Lisboa, 2018. Foto por José Ferreira.

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