A Selecção Portuguesa de Roller Derby só joga para ganhar

Mulheres de patins à pancada? Deixa lá os estereótipos idiotas. Fomos conhecer a selecção nacional da modalidade.

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01 julho 2016, 2:00pm

Apesar da campanha futebolística positiva, nem tudo é bola. Jovem, se gostas de cenas realmente diferentes, foges à normalização e tens mais de 18 anos... este artigo é para ti. Esta selecção nacional raramente empata, individualmente não tem estrelas, mas há quem use uma na cabeça para pontuar. Está mais do que na hora de alargar horizontes, conhecer e apoiar a Team Portugal Roller Derby.

Podem não ter o Pedro Abrunhosa a fazer-lhes o hino, mas também mais rapidamente escolhiam os Parkinsons, D3ö, ou mesmo um Dj Ride para compor uma possível canção oficial. O Roller Derby é um desporto de contacto em patins, maioritariamente no feminino (embora também haja equipas masculinas) e a nossa Selecção prepara-se para entrar num Torneio Europeu em Mons, na Bélgica, a 10 e 11 de Setembro, que vai contar também com a participação de colectivos oriundos da Dinamarca, França, Islândia, Itália, Holanda, Espanha, Suíça, País de Gales, assim como a equipa anfitriã belga.

É uma equipa em construção e que ainda luta - quanto mais não seja - pelo reconhecimento da modalidade em Portugal, mas que tem feito um trabalho de preparação e progressão notável. Cheio de suor e lágrimas de dor, à conta de pés e braços partidos, entorses e lesões várias. São teimosas como tudo e isso é o que tem feito com que continuem e tentem sempre melhorar.

Marta Curtis, do Porto, foi pioneira na introdução da modalidade em Portugal e revela à VICE que tomou conhecimento deste desporto durante uma viagem que fez aos Estados Unidos. Ficou curiosa e resolveu saber se havia alguma equipa em Portugal. Não havia. Calhou também numa altura em que estreou o filme Whip It (2009), com uma abordagem à coisa algo romanceada, mas, pelo menos, serviu para dar a conhecer mais o desporto em terras lusas.

Fez um apelo no Facebook e juntou outras pessoas interessadas que nem se conheciam entre si: "O difícil foi depois arranjar um pavilhão para praticar a modalidade, já que ninguém conhecia e ninguém conseguia perceber exactamente o que era. Foi muito difícil fugir àquele estigma da 'mulher à pancada'...", conta a atleta do Roller Derby Porto, também conhecida como Bloodrunner, porque, aqui, todas têm nicknames.

Neste Europeu, Marta Curtis está convencida que a equipa nacional vai conseguir um bom lugar, acima das outras experiências internacionais anteriores, que já contam com uma presença num Mundial, em Dallas, nos Estados Unidos, e também num outro Europeu na mesma cidade belga, ambas as participações em 2014.

Com mais experiência e mais jogos que as restantes equipas portuguesas, a team do Porto é a principal espinha dorsal do colectivo nacional, que também conta com atletas de Lisboa e até com algumas que jogam em equipas estrangeiras. Embora seja um desporto amador e todas tenham outras profissões, a modalidade é encarada de um modo bastante competitivo, apesar de também existir uma versão mais recreativa.

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Marta Curtis é uma das pioneiras da modalidade em Portugal. Foto por Christian Rosenbauer.

Fora deste Europeu está a equipa de Inglaterra e não, não é nenhuma boca relacionada com o Brexit. De facto - e, principalmente por causa da equipa londrina, que é uma das melhores do Mundo e está uns furos acima das suas congéneres europeias - para este torneio, não vem ninguém do outro lado do Canal da Mancha, o que equilibra um pouco mais o nível competitivo, cabendo assim a posição de favorita, segundo os rankings, à equipa francesa.

Naturalmente que não se podia deixar de ouvir o Mister, ou não tivesse ele o apelido Jesus - mas nada relacionado com o outro da bola, entenda-se. Eduardo Jesus a.k.a. Satyrus, é o selecionador nacional e à VICE confessa que, apesar de reconhecer as limitações, "se fosse para perder, não saia de casa!". E acrescenta: "Temos uma equipa sólida, que quer ganhar, que já demonstrou várias vezes que está aqui para vencer e quer bater o pé às seleções lá de fora. As equipas nacionais evoluíram muito e, naturalmente que, ao nível de selecção, isso também se reflecte".

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Team Portugal Roller Derby no Europeu, em 2014. Foto ©Vinciane Pierart aka NSP189

O lema da equipa portuguesa é Can't Block This e, de facto, determinação não lhes falta. Pelo que, nesse aspecto, é "como uma força que ninguém pode parar", já dizia a Nelly Furtado. Para os torneios internacionais, arranjar meios que façam face às despesas é que é mais difícil e cada deslocação implica sempre um cronograma logístico complicado de forma a se conseguirem fundos. A solução que encontram é, muitas vezes, a venda de merchandise. Ou seja, todos vocês podem ajudar.

MAS AFINAL COMO É QUE SE JOGA A ISTO, PÁ?

O Roller Derby tem um vocabulário muito próprio, e se achas que o "economês" tem muitos estrangeirismos, então o melhor é dares uma vista de olhos nesta linguagem. É todo um admirável mundo novo. Aqui fica o descomplicador possível.

Roller Derby Desporto de contacto, praticado em patins de quatro rodas (quads) e maioritariamente feminino. É jogado cinco contra cinco, numa pista oval e na direcção contrária aos ponteiros do relógio. O jogo (bout) tem duas partes de 30 minutos, que são divididas em jogos de dois minutos (jams) e o objectivo é ganhar o máximo de pontos durante esses 60 minutos. Entre os jams há um intervalo de 30 segundos para as equipas se alinharem, ou procederem a substituições. Por jogo, trabalham sete árbitros ao mesmo tempo.

Bout O jogo no seu todo e com fins competitivos.

Jam O bout é constituído por jogos de dois minutos chamados jams.

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Foto ©Vinciane Pierart aka NSP189

Jammer Uma espécie de ponta-de-lança. É uma patinadora identificada com uma estrela no capacete, que tenta passar pelas blockers da outra equipa. Cada jogadora da equipa adversária que for ultrapassada vale um ponto.

Blocker As blockers são as jogadoras que tentam bloquear a passagem da jammer adversária para impedir que esta passe por elas e pontue, ao mesmo tempo que tentam abrir caminho para que a sua colega consiga furar a barreira adversária que também ali vai. Juntas formam um pack.

Pivot É também blocker, mas parte mais à frente. É diferenciada por uma touca com uma risca; o papel dela é orientar as restantes blockers. Caso a jammer esteja com muita dificuldade em passar as blockers da equipa adversária, pode retirar a touca e dá-la à pivot, que passa a ser jammer, a antiga jammer passa a ser uma blocker e a equipa fica sem pivot naquele jam.

Pack – É o bloco compacto que as blockers formam para impedir que a jammer adversária passe. As quatro blockers de cada equipa formam o pack.

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Foto ©Vinciane Pierart aka NSP189

Scrimmage Jogo amigável entre duas equipas para ganhar experiência. É útil para formações em início de carreira.

Bootcamp Treino intensivo, aberto a quem quiser participar. Geralmente a intenção é cativar novas praticantes. Para além de operação de charme, é também uma oportunidade de treinar com outras equipas. Para ajudar nas despesas, ou para pagar a um formador especial, geralmente cobra-se um valor, que não sendo muito alto, dá jeito.

Suicide Seats Lugares na pista para quem quiser assistir ao jogo: ficam sentados no chão, nas curvas da pista. Arriscam-se a ser atropelados pelas patinadoras.

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Foto ©Vinciane Pierart aka NSP189

Grand Slam Cada ponto é ganho por cada jogadora adversária que se ultrapasse legalmente (sem cometer penalidades). Se se conseguir fazer o pleno e passar as cinco, obtém-se um grand slam.

Unicorn – São 5 grand slams, ou 25 a 29 pontos ganhos pela jammer.

Rainbow UnicornSão 10 grand slams, ou qualquer pontuação acima dos 50 pontos.

Zebra – O árbitro. São 7 ao todo em cada jogo, conhecidos pela sua farda às riscas brancas e pretas, mas também porque, às vezes, têm de deslocar-se em manada, por razões de segurança.

9 Month InjuryGravidez.

Derby Widow O/a namorado/a da/o praticante da modalidade. Como é um desporto muito absorvente em termos de tempo, diz que a malta fica viúva. A solução é apoiar a equipa também.


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