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Opinião

Não há nada de pretensioso em ser vegan

Vivemos num mundo em que os alimentos mais saborosos estão impregnados de morte e sofrimento.

Por Jamie Lee Curtis Taete
07 Janeiro 2015, 3:50pm

Este artigo foi originalmente publicado na VICE USA.

Há dias recebi um e-mail de um tipo muito chateado, por causa de um artigo que escrevi sobre um restaurante de Los Angeles. Nesse artigo explicava que não gostava muito de comer em restaurantes pretensiosos. Também mencionava que era vegano e, esta última parte, causou alarido. "Como é que podes gozar com as pessoas pretensiosas sendo tu vegan?", dizia o gajo. "Vai-te lixar".

Quando li os comentários ao artigo percebi que ele não era o único a pensar assim. Alguém chamado Dante Thomson escreveu que eu era um "imbecil" por ser vegan. Ainda acrescentou que era um "hipster de merda". Outro comentário, assinado por Riley Ulrich, dizia: "És uma merda e devias ser despedido. Toda a gente te odeia".

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Achei estranho que a minha forma de comer fosse qualificada como pretensiosa. Aqui em cima está uma imagem do que almocei hoje. Uma sandes de almôndegas feitas com carne vegetal, com muito mau aspecto. Ao pequeno almoço comi Doritos. E é bem possível que vá jantar ao Taco Bell. Embora não coma produtos de origem animal, a minha dieta é a de uma criança malcriada (ou, na melhor das hipóteses, de um skater adulto).

Quando fiz 20 anos decidi comer uma salada, ou algum tipo de prato saudável, pelo menos uma vez ao dia, porque parece que é isso que se espera de um adulto. Mas, lá no fundo, sempre soube que isso não era para mim. Num Mundo ideal, alimentar-me-ia à base de queijo e carne, servidos num pão qualquer, ou qualquer coisa feita a partir da farinha. No entanto não vivemos num Mundo ideal. Vivemos num Mundo em que os alimentos mais saborosos estão impregnados de morte e sofrimento.

Esta é a razão pela qual não como carne, nem produtos de origem animal. Porque a carne e esses produtos são do pior que há. Não é preciso explicar de onde vêm a carne e o leite. Certamente já o viste em montes de sítios e sabes que se trata de uma espécie de pesadelo cheio de bicos serrados, pescoços esfaqueados e carcaças em decomposição em lugares nauseabundos.

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T-shirt via Skreened

Presumo que estamos todos de acordo em que isto é terrível, ou não? Consumas ou não produtos provenientes da indústria da carne e dos lácteos, tenho a certeza que és capaz de admitir que a matança massiva e industrializada de animais é tudo menos agradável, certo? Poderia falar de muitas outras coisas. Das emissões de gás provocadas pelo efeito de estufa da indústria pecuária, da contaminação da água, ou de como comer carne aumenta as probabilidades de ter cancro. Mas não seria honesto da minha parte, porque estas não foram as razões que me levaram a ser vegan.

Não estou a dizer sou uma pessoa mais ética que tu, só porque tento não fazer mal aos animais. Ninguém é completamente ético. Os humanos são um cancro para o Planeta e tudo estaria melhor se estivéssemos todos mortos. Este texto escrevo-o num portátil, que funciona com energia produzida a partir de fontes não renováveis, que contém minerais que provocam conflitos no Mundo e que foi fabricado, suponho, em condições bastantes diferentes daquelas em que trabalho.


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Ainda por cima, tenho vestida uma t-shirt que me custou cinco euros. Não sei bem como foi fabricada, enviada para os Estados Unidos, nem como chegou até mim. Mas posso imaginar, pelo seu preço, que alguém foi bastante prejudicado neste processo. Não achas? Tenho uma t-shirt que lixou muitos seres humanos durante o seu processo de fabrico. Fabrico esse que ajudou a foder ainda mais o Planeta. É quase impossível viver no Mundo actual sem cometer diariamente actos moralmente duvidosos.

O que quero dizer é que sou um cabrão. E tu também és. E estou-me nas tintas para o que tu comes. Podes comer o que quiseres, quando quiseres e como quiseres. Como já disse antes, tirando o tema de matar animais, não me preocupo nada com o que como. Nem tenho tempo para preocupar-me com o que tu comes.

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Acho que a maioria das pessoas não é indiferente ao facto de que um animal tenha sido morto para que elas possam comê-lo. É difícil acreditar que a maioria dos que lêem este artigo pudessem comer um McRib depois de entender todo o seu processo de fabrico: criar a vaca, matá-la, estripá-la, limpar os restos com uma mangueira de pressão, pegar em todos esses restos e formar um pedaço de carne. De certeza que alguns de vós seriam capazes e está tudo bem.

Quando alguém se coloca moralmente acima de algo que não nos faz sentir especialmente orgulhosos, é normal que pensemos que estão a julgar-nos. É por isso que odiamos os hippies, as pessoas que conduzem carros eléctricos, ou a Gwyneth Paltrow. Porque esta gente nos faz sentir julgados. E quando nos sentimos assim, é fácil que nos comportemos como idiotas.

Também existe o estereótipo do vegan proselitista, aquele que supostamente quer convencer toda a gente a deixar de comer carne e produtos animais. Não sei se sou eu, que normalmente não saio com idiotas, mas nunca me encontrei com um vegano proselitista. Com carnívoros aborrecidos sim, uma data deles. Estas pessoas fazem-me sempre muitas perguntas sobre a minha alimentação, especialmente sobre as proteínas. Milhões de perguntas sobre as proteínas. Não sei porque é que pessoas, que nem sequer me conhecem, se preocupam tanto com o que como.

Há muitas, muitas coisas que faço e que são más para a minha saúde, mas ninguém se importa com elas. Vivo a um quilómetro de uma auto-estrada, bebo cerveja pelo menos uma vez por semana e estou sempre a beber refrigerantes light. Mas, de repente, parece que toda a gente é especialista em nutrição e quer saber se ingiro as proteínas suficientes, ou onde é que vou buscar a vitamina D e o ferro que o meu corpo precisa. De certeza que nem sequer essa pessoa sabe onde vai buscar as suas. Lá porque de vez em quando comes um hamburguer de frango no Burger King, não quer dizer que o teu corpo esteja em perfeita harmonia, nutricionalmente falando.

A parte mais bizarra desta implicação com os vegans é o prazer que as pessoas têm quando vêem que cometemos um erro. No artigo que mencionei antes, pus uma fotografia de uma coisa que comi. Embora não me tenha apercebido nesse momento, a comida continha ovo. Comer acidentalmente produtos animais é algo que pode acontecer aos veganos, de vez em quando. Em todo o caso, muita malta adorou frisar que tinha metido água, por causa do incidente do ovo.

Se vejo alguém que tenta fazer algo positivo por um animal, e se por alguma razão a coisa não corre bem, acho que a minha reacção imediata não é rir-me dessa pessoa. Imaginas-te a rir de alguém que levou o cão ao veterinário para curá-lo de um tumor, mas que não conseguiu salvá-lo? "Foda-se, que looser. Morreu-lhe o cão". Se calhar há quem o faça. Para dizer a verdade, nem sei bem.

Agora, com a vossa licença, vou ali ao Taco Bell. Pedirei feijão em vez de carne e, por favor, nada de queijo.


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