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O YouTube mantém propaganda neo-nazi activa na plataforma

Propaganda, podcasts e audiobooks neo-nazis continuam a existir no YouTube. Mesmo quando denunciados, a plataforma desmonetiza e remove algumas opções, mas não apaga os vídeos.

Por Ben Makuch; Traduzido por Sérgio Felizardo
03 Abril 2019, 4:19pm

Imagem: Shutterstock.

Este artigo foi originalmente publicado na nossa plataforma Motherboard.

Depois do ataque terrorista neo-nazi que matou 50 pessoas em mesquitas em Christchurch, Nova Zelândia, empresas de tecnologia, que vão de sites de hospedagem a gigantes das redes sociais estão a banir ou a apagar conteúdo militante da extrema-direita da Internet.

No entanto, mesmo perante estes horríveis ataques, o YouTube continua a ser um bastião da militância nacionalista branca. Nos últimos dias, a Motherboard visualizou vídeos de propaganda nacionalista branca e neo-nazi no site que, ou não foram detectados pelo YouTube, ou tiveram permissão para continuar na plataforma ou foram postados recentemente.


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Quando alguns exemplos foram mostrados pela Motherboard ao YouTube, a empresa garantiu que desmonetiza os vídeos, que os coloca por aderás de um alerta de conteúdo, remove opções como likes e comentários e retira-os das recomendações – mas, ao fim e ao cabo, decidiu não apagar esses vídeos. E eles continuam facilmente acessíveis através da função de busca do site.

A partilha de propaganda de nacionalismo branco e neo-nazismo no YouTube é um problema de há anos a esta parte. O YouTube agiu rapidamente contra o auto-proclamado Estado Islâmico depois de vários vídeos de decapitações e ataques terroristas, mas o site não tem conseguido remover conteúdo neo-nazi e nacionalista branco à mesma escala. Uma investigação da Motherboard em 2018, por exemplo, documentou uma vasta gama de conteúdo neo-nazi partilhado no YouTube. Uma investigação da Bloomberg publicada na última terça-feira, 2 de Abril, mostrou que o YouTube persegue “engagement” às custas da saúde da sua plataforma, permitindo que vídeos tóxicos continuem online.

Nos últimos anos, o YouTube desactivou ou apagou alguns canais neo-nazis, mas muito do conteúdo continua ao vivo online. Por exemplo, em Março de 2018, o YouTube desactivou o canal central do grupo de ódio Atomwaffen Division, onde membros publicavam vídeos pedindo uma “guerra racial” e derrubou outro canal pró-Atomwaffen em Janeiro deste ano.


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Todavia, propaganda de organizações neo-nazis, podcasts conhecidos de nacionalismo branco e textos genocidas da extrema-direita continuam na popular plataforma de vídeo, conforme descobriu a Motherboard.

Vários vídeos de propaganda do Atomwaffen, que mostram homens mascarados com armas a fazerem o “sieg heil” e apelando a potenciais membros para se juntarem ao grupo, continuavam disponíveis no YouTube quando este artigo foi originalmente publicado (2 de Abril). A Motherboard viu vários vídeos de propaganda conhecidos do Atomwaffen ainda disponíveis no YouTube; um deles postado nas últimas 24 horas. Essas republicações de vídeos antigos que o YouTube tinha mandado abaixo anteriormente indicam que a empresa não os detecta automaticamente.

Ironicamente, num dos vídeos do Atomwaffen, membros pedem que o seu conteúdo seja partilhado nas redes sociais. “Espalha e espelha o nosso trabalho em várias redes sociais: YouTube, Facebook, Twitter, etc.”, diz uma mensagem no vídeo de propaganda conhecido do Atomwaffen. “Junta-te aos teus nazis locais”, acrescenta.

No mês passado, o serviço de hospedagem Bluehost derrubou um proeminente site da Atomwaffen, o que significa que o YouTube continua a ser um dos únicos lugares da Internet onde o manifesto Siege – que é tipo uma bíblia da Atomwaffen, escrita pela influente figura neo-nazi James Mason nos anos 80 – pode ser facilmente encontrado como audiobook.

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Em Siege, Mason descreve como funciona a apropriação de movimentos de resistência sem liderança, como fazer ataques contra políticos americanos e perpetrar violência contra minorias, o que a Atomwaffen adoptou como a sua ideologia central. A obra é comparada ao Turner Diaries, outro trabalho de nacionalismo branco, que é citado como uma influência directa para o terrorista de Oklahoma City Timothy McVeigh, que levou a cabo o maior incidente de terrorismo doméstico da história dos EUA antes do 11 de Setembro.

Enquanto isso, o Bluehost e o Zencast baniram o podcast neo-nazi Radio Wehrwolf, mas vários episódios continuam disponíveis no YouTube, incluindo uma entrevista com Mason. Depois de ser derrubado pelo Bluehost e Zencast, o Radio Wehrwolf usou o YouTube para incentivar os seus seguidores a disseminar os links dos episódios na plataforma, prometendo regressar com o podcast.

“Estamos num pequeno hiato com o site. Vamos voltar em breve”, dizia um dos apresentadores do Radio Wehrwolf num vídeo de mais de duas horas no YouTube, denegrindo as violações de termos de serviço que os derrubaram. No mesmo programa, pedem a morte de membros do Southern Poverty Law Center, uma organização que monitoriza extremismo de direita.

O YouTube pediu que a Motherboard enviasse os links de vários vídeos neo-nazis. A empresa confirmou que cópias dos programas do Radio Wehrwolf e cópias de Siege continuam no streaming da plataforma. Ao contrário do Facebook, a empresa ainda permite que podcasts de nacionalismo branco usem os seus serviços. O YouTube disse à Motherboard que não deitou abaixo o conteúdo enviado pela Motherboard, mas que o desmonetizou, removeu comentários e likes e colocou-os atrás de uma mensagem de alerta.

Apesar de todas as evidências de conteúdo militante neo-nazi na plataforma, o YouTube assegura que está a levar a questão a sério. Numa entrevista ao New York Times publicada na última semana, Neal Mohan, chefe de produtos do YouTube, afirmou que a empresa está a tentar policiar o nacionalismo branco, mas que, ao contrário da propaganda do ISIS, esta é mais difícil de detectar e classificar como discurso de ódio.

“No caso de algo desse género”, refere Mohan, fazendo referência ao conteúdo de nacionalismo branco, “os desafios são maiores, porque as diferenças, como podes imaginar, às vezes são mais complexas entre o que claramente pode ser discurso de ódio versus o que pode ser discurso político que podemos achar desagradável e de que discordamos, mas que está a vir de candidatos que estão em eleições e coisas assim”.

Um porta-voz do YouTube disse à Motherboard que o site não tolera discurso de ódio ou promoção de violência, mas não chegou a proibir totalmente nacionalismo branco na sua plataforma, como o Facebook prometeu fazer recentemente. “Discurso de ódio e conteúdo que promove a violência não têm lugar no YouTube”, sublinhou o porta-voz. O gigante de streaming diz que está a investir em moderadores humanos e ferramentas de inteligência artificial para desmantelar conteúdo de ódio que viola os seus termos de serviço.

“Nos últimos anos, investimos fortemente em equipas humanas de moderação e tecnologia inteligente que nos ajudem a detectar rapidamente, rever e remover conteúdo desse tipo”, explicou. E acrescentou: “Removemos milhões de vídeos que violam as nossas políticas a cada trimestre, a maioria detectada primeiro pelos nossos sistemas automatizados”. No entanto, o Counter Extremism Project – uma rede anti-extremismo dos EUA – destaca que o YouTube continua a recusar-se a remover Siege da sua biblioteca online.

“Acho que isso acontece, porque não estão a levar a ameaça a sério”, explica o investigador do CEP Joshua Fisher-Birch, numa entrevista à Motherboard sobre o porquê de o conteúdo nacionalista branco continuar a proliferar no YouTube. Fisher-Birch realça que recentemente tinha visto publicações de Siege e Turner Diaries que tinham milhares de visualizações, com várias novas postagens de propaganda do Atomwaffen a aparecerem quase diariamente. A Motherboard também viu recentemente um canal activo do audiobook Siege no YouTube com milhares de visualizações.

O investigador do CEP acredita que a diferença entre a proibição bem documentada do YouTube de conteúdo do ISIS versus nacionalismo branco, tem a ver com imagem pública e modelo de negócio. “Com o ISIS e conteúdo do ISIS, o YouTube estava a receber muita publicidade negativa”, recorda Fisher-Birch. E adianta: “Estava a tornar-se um problema, com anunciantes a saírem porque estavam preocupados que as suas marcas fossem associadas a conteúdo do ISIS. E não há o mesmo nível de ultraje público ou corporativo sobre este tipo de conteúdo”.

Depois de vídeos de decapitações e declarações do ISIS terem começado a ser difundidos primeiro no YouTube em 2014, a empresa tomou uma posição dura e deliberada contra a organização terrorista, empregando vastos recursos para conter o problema.

Com Facebook, Microsoft e Twitter, o YouTube é um membro fundador do Global Internet Forum to Counter Terrorism, uma iniciativa formada especificamente para cortar o uso das redes sociais por grupos terroristas para recrutar e prosperar online. Mas, o colectivo foi criticado recentemente pela sua falta de atenção ao terrorismo online nascido do nacionalismo branco.

No site do GIFCT, o YouTube mantém que 98 por cento dos vídeos que retiram do ar são “detectados por algoritmos de machine learning”, que ajudam “os revisores humanos a remover quase cinco vezes mais vídeos do que faziam anteriormente”. No entanto, uma conta oficial do YouTube diz que é mais difícil detectar vídeos de nacionalismo branco que conteúdo de grupos jihadistas. “Muitos grupos extremistas violentos, como o ISIS, usam filmagens e imagens em comum. E essas imagens podem ser sinalizadas pelos sistemas de detecção que nos ajudam a remover esse conteúdo em grande escala”, explicaram numa thread no Twitter.


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