Entrevista

Colby Keller sobre comunismo, moda e porno gay

O maior "muso" da pornografia gay da actualidade é, também, um artista visual talentoso e um apaixonado por política, livros e "world music".

Por Tino Monetti
22 Agosto 2016, 9:00am

Este artigo foi originalmente publicado na VICE BRASIL.

É uma estrela improvável. Colby Keller. O nome em si já é capaz de proporcionar muito prazer a quem o ouve e conhece a versatilidade do actor nos filmes que protagoniza. Com quase 35 anos de idade e 12 de profissão na pornografia gay, o artista de cabelos e olhos castanhos, 1,88m de altura e que calça o 48 (!), atrai olhares por onde passa.

Mas há algo mais, para além da (boa) genética, que o torna tão magnético, quer para homens, como para mulheres dos quatro cantos do Planeta. Como bem descreveu recentemente a revista PAPER, "hoje, a relação entre sexo e arte atingiu um novo nível de congruência e a pornstar gay Colby Keller está na vanguarda dessa mudança".

Nos últimos tempos, Colby actuou num filme inspirado no famoso texto de Shakespeare, As Sete Idades do Homem, realizado por Landis Smithers (vice-presidente de marketing da app gay Grindr), serviu de modelo para a campanha Primavera-Verão 2015 de Vivienne Westwood, "Mirror The World", protagonizou um vídeo sexual de moda para a marca nova-iorquina BCALLA, reinterpretou posições de esculturas de Rodin para uma série de fotos de Laurent Champoussin, trabalhou com o realizador Wes Hurley, no filme Zoulshka (uma versão XXX de Cinderela) e na série Capitol Hill e embarcou em Colby Does America, uma digressão de arte e pornografia pelos estados norte-americanos e parte do Canadá, na qual conhecia homens através de "dating apps" para criar 50 peças audiovisuais inovadoras.

Conversámos via e-mail com Colby sobre estes e outros temas, como as suas aproximações políticas ao comunismo e fazer cinema em Hollywood. Demorou alguns dias a responder ao meu primeiro e-mail e, quando o fez, disse-me que tinha acabado de voltar de um acampamento que adora e que estava sem acesso aos mails, para a seguir prometer que responderia com rapidez.

No dia seguinte, as respostas que podes ler abaixo estavam na minha caixa de entrada. Depois de todos os filmes que de Colby que vi passarem durante um segundo pela minha cabeça, até suspirei.

Colby, numa foto por Juergen Teller, para a campanha SS 2015, de Vivienne Westwood.

VICE: Tens quase 35 anos de idade e começaste a carreira na pornografia gay em 2004. Quais são as tuas primeiras memórias desse universo e quais foram as coisas mais importantes que aprendeste desde então?
Colby Keller: A minha primeira memória é de cometer um erro (no caso, vir-me demasiado rápido) e de ter uma segunda oportunidade. O que aprendi nesse momento, e que ainda sei sobre pornografia, é exactamente isso, vais cometer erros frequentemente, mas tens que te recompor e tentar outra vez.

Nasceste no Michigan e cresceste no Texas. Quais são as tuas principais memórias de infância?
Era uma criança sossegada. Ainda sou. Lembro-me de estar sempre a desenhar e a ler. Adorava a cultura indígena norte-americana e tinha o desejo de ser adoptado por uma família indígena feliz do Novo México.


Colby na infância.

És formado em Antropologia e Artes Plásticas e desenvolves trabalhos artísticos paralelamente à carreira no porno. Como é que foi a tua vida escolar?
Adorava estudar, estar na escola; gostava de ter ficado na escola para sempre. Toda a gente deveria abordar as actividades da vida com a mesma curiosidade, lucidez e vontade de fazer o trabalho.

Podes falar-nos um pouco sobre dois dos teus trabalhos como artista, "Pieces of Eight" e "Everything But Lenin"?
"Pieces of Eight" foi um dos primeiros projectos em que explorei as políticas de colaboração. Pedi a toda a gente que conhecia que se juntasse a mim, num projecto de oito meses, em que exploraríamos oito imagens e criaríamos trabalhos juntos. "Everything But Lenin" continuou essa exploração do comunitário, já que dei todos os meus bens em troca do reconhecimento de que esses objectos se tornariam obras de arte nas mãos dos novos proprietários.

Já fizeste mais de 90 filmes. Qual é o segredo de um bom trabalho no set de um filme porno?
É importante ser profissional. Dormir bem na noite anterior. Aparecer no set a horas. Gosto de trabalhar em locais onde as outras pessoas, tanto actores como restante equipa, sejam profissionais e pontuais. Gostei de trabalhar com tantos bons actores e realizadores e com equipas tão boas, que é difícil escolher um como o preferido.

Colby Keller. Foto por Leif Parker.

Fala-me sobre o projecto Colby Does America e o seu desdobramento no trabalho com BCalla?
Colby Does America é uma digressão de arte e pornografia que se estende por 50 estados dos EUA (além do Canadá e do distrito de Columbia). Filmei nesses 50 estados e há 27 filmes já disponíveis no site. Brad (também conhecido como BCALLA) é um grande amigo e colaborámos com Jake Jaxson para o vídeo "Colby Does NY", que estreou durante a NY Fashion Week.

Consideras-te comunista? Achas que a pornografia pode ser uma arma contra o neoliberalismo e as políticas e movimentos de extrema-direita?
O comunismo é a única estratégia política apresentada até este ponto da história em que vivemos, que investiu na ajuda a todos os seres humanos para conseguirem segurança e felicidade. Não acho que a pornografia em si seja uma arma contra o neoliberalismo. A única arma que temos contra o neoliberalismo é o conhecimento.

Protagonizaste uma campanha de Vivienne Westwood. Quão importante é a moda para ti?
Sempre gostei de moda e da capacidade que tem de tornar o Mundo num lugar novo, através de ideias e estéticas. Os dois estilos de trabalhares como modelo, na pornografia e na moda, são muito diferentes. No porno, usas o corpo para vender sexo. E na moda, para vender a roupa, ou o desejo pela roupa.

O que é que tens ouvido, visto ou lido nos últimos tempos? Do que mais gostas em livros, filmes e música?
Gosto muito daquilo a que nós americanos chamamos de "world music". Se é novo para mim e não foi super produzido, ou excessivamente produzido, tendo a interessar-me. Leio muitos livros de não-ficção sobre o fim do capitalismo e as políticas do comunismo. No Outono devo começar a ler alguns romances. Recentemente conheci Garth Greenwell e ele deu-me uma cópia do seu livro What Belongs to You, mas ainda não o comecei [a ler].

Já consideraste uma carreira em Hollywood?
Gosto de muitos cineastas. Seria uma honra poder actuar em Hollywood, mas também adoraria fazer filmes na Coreia do Norte.