Actualidade

Fotografias de uma Lisboa em quarentena

Esta reportagem fotográfica mostra a capital despida de gente, mais silenciosa do que nunca.
23 April 2020, 3:43pm
DSC_0538
Reportagem fotográfica por lppc_photography

Estamos fechados em casa com a vida em stand-by. Paira uma incerteza no ar - quanto ao trabalho, ao dinheiro, ao futuro e ao que restará da vida como a conhecíamos uma vez que o governo carregue no play.

A ansiedade é tangível, um nó na garganta colectivo, um ponto e vírgula nos planos que tínhamos traçado. Sofrem as contas bancárias, a saúde mental e as relações. Descarregamos frustrações onde não devíamos; deixamos escapar um revirar de olhos, uma resposta torta ou bufamos que nem adolescentes. Choramos a ver as notícias, de coração apertado pelos nossos avós, pais e amigos.

Refugiamo-nos em séries, em música, filmes ou no directo do Bruno Nogueira. Bebemos mais vinho, fazemos ginástica na sala e tentamos apanhar o sol que entra pela janela. Cansamo-nos de olhar as mesmas paredes, as mesmas pessoas e o mesmo beco sem saída. Quando vamos à rua é a medo, em paranóia, de luvas e máscara e com a sensação latente de que o bicho nos vai entrar pelas narinas sempre que nos cruzamos com outros seres humanos no passeio.

Todas as fotografias da autoria de lppc_photography.

Um dia de cada vez é agora a única maneira de olhar a vida. Agora sim, o tal Carpe Diem que tantas influencers espetaram na descrição de fotografias em biquíni, a olhar para o horizonte. Mas, o dia perde-se em trabalho - para os sortudos que ainda o têm -, em máquinas de roupa, aspiradores e vassouras. Perde-se em contagens de mortos e infectados, em calls pelo Zoom e em notificações tão infinitas quanto irrelevantes no WhatsApp.

Falta-nos a esperança, o sabor da liberdade e a água na boca pelos planos futuros. Falta-nos um propósito, uma boa nova ou uma grandessíssima festa. Estamos unidos pelo medo e pela incerteza do que aí vem. Enterramos o rabo no sofá enquanto o André Ventura critica (desta vez) o Ricardo Araújo Pereira, enquanto em Espanha morrem muitos mais, enquanto o Trump suspende a imigração e os refugiados tentam escapar ao vírus atrás de tendas de lona. Temos o Mundo ao contrário, como cantavam os Xutos.

Resta-nos a arte, a paciência e o dever cívico. Resta-nos apenas fazer a nossa parte, mantermo-nos quietinhos para proteger os outros enquanto esperamos que toque o sino a dar licença para sair. O Mundo vai lá estar, à nossa espera. As ruas, silenciosas, aguardam pacientes o nosso regresso. A Natureza está a respirar de alívio - sabe-lhe bem a pausa para café - e prepara-se para florescer com a chegada da Primavera.

Todas as fotografias da autoria de lppc_photography.

Talvez a nós também nos faça bem a pausa, ainda que imposta de forma cruel e fria. Talvez, quando pudermos voltar a pisar o chão da rua sem restrições e a cruzar fronteiras sem motivo, olhemos para a Terra com outros olhos. Olhos saudosos, nostálgicos e agradecidos.

Até lá, aproveitemos quem nos ama, abracemos quem está de quarentena connosco e tentemos aguentar a frustração e o peso da incerteza. Acatemos ordens em prol de um final mais feliz, regozijemos em quem temos ao nosso lado no sofá e tentemos olhar para estas imagens de uma Lisboa vazia não com dor, mas com saudade e esperança.

Todas as fotografias da autoria de lppc_photography.

Todas as fotografias da autoria de lppc_photography.

Todas as fotografias da autoria de lppc_photography.

Todas as fotografias da autoria de lppc_photography.

Todas as fotografias da autoria de lppc_photography.

Todas as fotografias da autoria de lppc_photography.

Todas as fotografias da autoria de lppc_photography.

Todas as fotografias da autoria de lppc_photography.

Todas as fotografias da autoria de lppc_photography.

Todas as fotografias da autoria de lppc_photography.

Todas as fotografias da autoria de lppc_photography.

Todas as fotografias da autoria de lppc_photography.

Segue a página de lppc_photography no Instagram e no website.

Nota final: Se fores vítima de violência doméstica ou souberes de quem seja, por favor entra em contacto com a APAV (Apoio à Vítima) através do número 116 006. A chamada é gratuita e a linha é acessível nos dias úteis, entre as 9 e as 21h00.


Segue a VICE Portugal no Facebook, no Twitter e no Instagram.

Vê mais vídeos, documentários e reportagens em VICE VÍDEO.

Publicidade