Política

Por dentro do evento de stand-up dedicado à "liberdade de expressão" em Londres

Comediantes que acreditam que “já não se pode dizer nada” actuaram para a elite da extrema-direita britânica: Paul Joseph Watson, Toby Young e o editor do Breitbart, James Delingpole.

Por Yohann Koshy; Traduzido por Madalena Maltez
11 Junho 2019, 5:46pm

Ilustração: Mike Hughes

Este artigo foi publicado originalmente na VICE UK.

“Este não é um espaço seguro. Se vieste aqui e ficaste ofendido, vai-te foder!”, disse Francis Foster, apresentador do Comedy Unleashed, um evento mensal que se descreve como o único espectáculo de comédia de “pensamento livre” em Londres. Estamos num bar em Bethnal Green. O público: umas 100 pessoas, na sua maioria homens, incluindo alguns grandes nomes da extrema-direita. Vi Paul Joseph Watson, o YouTuber teórico de conspiração, sentado na fila da frente; Dan Jukes, assessor de imprensa de Nigel Farage, perto dele; lá ao fundo, Toby Young, jornalista perpetuamente desgraçado e James Delingpole, editor-executivo do Breitbart, mesmo atrás de mim.

O Comedy Unleashed foi co-fundado por Andrew Doyle, que escreve a personagem do satírico apresentador Jonathan Pie. Doyle diz que criou esta noite para ir contra ao que via como uma moda de “humor consciente” na cena de comédia: comediantes de esquerda que são “inofensivos, inclusivos e têm consciência social”. O stand-up, segundo ele, perdeu o seu impacto: “Uma verdadeira cena de comédia alternativa envolve riscos”.


Vê o primeiro episódio de "Odiarás o Teu Vizinho"


“O que é que tu fazes, Ian?”, pergunta Foster a um membro do público.
“Sou professor”.
“O que é que ensinas?”.
“Psicologia”.
“Então... não és um professor a sério!”.

Sem surpresa, esse tal “arriscar” era só conversa; houve pouca coisa que não ouvisse num clube de comédia típico numa noite de terça-feira. “Agora, é possível fazer um transplante de rosto total. Incrível! Mas, parece que não como presente de aniversário”, começou o comediante Andrew Lawrence. Tudo isto à frente de uma faixa que dizia, sem ironia: “Proibido auto-censura... Se é engraçado, é engraçado”.

Ainda assim, surgiam algumas características com frequência. A primeira era uma tendência dos comediantes para se acharem mais polémicos do que realmente eram. Depois de uma piada sobre agentes imobiliários terem abastecido a ascensão do BNP – que parecia ter uns 10 anos –, Foster declarou que havia uma “tensão” no ar, quando o que realmente parecia era que parte do público não tinha achado mesmo graça. Depois de fazer uma piada sobre aborto que foi recebida de maneira desigual, Andrew Lawrence disse “Agora estou sentir a vibe da sala!”.

Essa tendência em confundir uma variedade de reacções com ter ofendido alguém, espelha bem a extrema-direita da Internet, que diz que as pessoas vêem “gatilhos” nas suas opiniões, quando na verdade pode haver uma explicação mais simples: discordar dessas opiniões.

A segunda tendência era um apetite de parte do público por hostilidade em relação à esquerda, mulheres e minorias. Heydon Prowse, que se declara um centrista liberal – e metade do The Revolution Will Be Televised da BBC – estava lá para representar a suposta diversidade política, cumprindo a promessa de Doyle de que o espectáculo teria “comediantes à direita e à esquerda do espectro”. Mas, foi a sua piada sobre o Partido Trabalhista – “Na teoria do Brexitverso do Partido Trabalhista, todas as permutações do Brexit coexistem, a única constante sendo que a culpa é sempre dos judeus” – que gerou mais reacções: risos, assobios e uma ronda de aplausos. Alguns aplausos também vieram depois da piada de Lawrence sobre a mulher conseguir um emprego nos Correios: “'Como é que ela deve ser chamada: carteiro, carteira, pessoa das cartas?' Eu chamo-a de péssima mãe!”.

Depois, havia a noção omnipresente de que já ninguém pode dizer nada. “As pessoas agora parecem ter ficado realmente irritadas”, disse Jojo Sutherland no final da sua apresentação. E acrescentou: “As leis estão a ser mudadas pelas petições de pessoas emotivas. E vocês têm que ser cuidadosos p'ra caralho. Porque, sem se aperceberem, podem ir parar à prisão por causa de uma brincadeira” – que gerou vários “yeah” do pessoal da frente e 10 segundos de aplausos. Parece que Sutherland, ou o público, estava a referir-se ao caso de Count Dankula, o YouTuber – e candidato do UKIP que não foi eleito – que apanhou uma multa de 800 libras por postar um vídeo do cão da namorada a fazer a saudação nazi, enquanto ele dizia “gás nos judeus” e que se apresentou no Comedy Unleashed em Fevereiro. O vídeo da apresentação dele não está no canal do YouTube do Comedy Unleashed, mas está no dele, onde tem mais de 200 mil visualizações.

O Comedy Unleashed gira em torno da questão da “liberdade de expressão”. Esse é um dos tópicos mais contestados nas guerras culturais que a extrema-direita americana e europeia está a travar desde os anos 1990, com os pontos-chave incluindo o caso de Salman Rushdie, o atentado ao Charlie Hebdo, aquele filme do Seth Rogen e vários eventos menores, como o colunista de jornal que foi desconvidado para falar em universidades e o filósofo Roger Scruton a perder um trabalho não remunerado como consultor do governo, depois de fazer comentários racistas numa entrevista ao New Statesman.

O pano de fundo desta guerra cultural é duplo. Primeiro, ter intelectuais convencidos de que precisam de defender valores liberais dos muçulmanos e esquerdistas, mostrou-se uma cobertura ideológica útil para as muitas guerras do Ocidente em e contra países de maioria muçulmana desde os anos 90. Essas guerras têm motivações geopolíticas, mas são vendidas como um choque de valores “civilizacionais” incomensuráveis. Segundo, o debate da liberdade de expressão intensificou-se nos últimos 10 anos, como observou o sociólogo Will Davies, para compensar os fracassos das estratégias económicas desde a crise financeira de 2008. Enquanto a expectativa de vida cai sob a austeridade e os salários estagnam para a maioria, “liberdade de expressão faz agora o que a ideia de livre mercado já não faz” para a direita britânica.

Vale a pena apontar que houve alguns desenvolvimentos nada liberais com efeitos perturbadores na liberdade de expressão, mas que não têm nada a ver com as políticas das universidades. O esquema Prevent do governo britânico desencadeou várias denúncias contra crianças muçulmanas por alegadamente terem pensamentos considerados suspeitos por, simplesmente, discutirem ecoterrorismo na escola. A Polícia Metropolitana criminalizou o género musical drill e fez história nos tribunais: dois rappers negros, Skengdo e AM, apanharam recentemente nove meses de prisão por tocarem uma música.

Em termos de distribuição de liberdade de expressão, um país onde Nigel Farange tem o recorde de aparições no Question Time (entre 2008 e 2012, antes de ser um nome conhecido, apareceu mais do que todos os líderes de sindicatos juntos) e onde um estudo da LSE descobriu que as visões de Jeremy Corbyn eram sistematicamente “representadas de maneira injusta” na imprensa britânica, não é um país onde a direita seja silenciada.

O pessoal do Comedy Unleashed sabe disso, por isso dizem que o seu alvo não é a sociedade, mas o “establishment da comédia”. Lawrence tem uma parte onde reclama que o principal critério para a BBC passar desenhos animados já não é que sejam engraçados, mas sim politicamente relacionados com uma perspectiva liberal. Mas, isso também não se sustenta com factos. Dois dos maiores "figurões" desse establishment, Jimmy Carr e Frankie Boyle, fazem piadas na televisão britânica que são muito mais “politicamente incorretas” do que o que testemunhei no espectáculo do CU. E muito do establishment da comédia – seja David Baddiel e Ricky Gervais a defenderem Count Dankula, a transfobia do guionista de Father Ted Graham Lineham (que ele nega), ou Robert Webb do Peep Show a sair do Partido Trabalhista – encontra uma causa comum no sentimento anti-esquerda. A fusão de comediantes com a sociedade em geral permite que os participantes do Comedy Unleashed ofusquem os inimigos da direita, enquanto se focam na sua indústria em particular; isso permite-lhes acreditar que o que estão a fazer é subversivo, quando, na verdade, não estão a ameaçar absolutamente ninguém no poder.

Houve um momento realmente perturbador no final da noite, quando o público estava mais relaxado. Aconteceu durante a apresentação do Andrew Lawrence. Num sentido puramente formal, Lawrence é um comediante eficiente: conseguiu sentir que o público estava a deixar-se levar pela sua rotina e persona, ambas auto-depreciativas e cruéis. Quando perguntou “Há algum racista aqui? Diz olá!”, ele provavelmente estava à espera de risos constrangidos, o que permitiria que ele estabelecesse a premissa para uma nova piada. Ma,s o que aconteceu foi um murmúrio ambivalente e depois uma mulher no fundo a gritar “Aqui!”.

“Foda-se!”, disse ele, com um sorriso de descrença.

Duas pessoas à minha frente viraram-se em choque para tentar ver quem tinha dito aquilo (elas saíram logo a seguir). Mas, o resto do pessoal não pareceu ligar muito. Lawrence continuou com a sua piada, que começava com ele a dizer que tinha vários amigos de minorias étnicas e que eram todos “uns conas”, o que a mulher de antes comemorou; depois, continuou e chamou aos brancos, ruivos e deficientes “conas” também. A piada em si, da perspectiva de Lawrence, provavelmente “funciona”, porque o que o público espera ser uma atitude particularmente racista transforma-se em misantropia universal. Mas, aquele momento captou o que realmente acontece quando o Comedy Unleashed entra na sua frequência pretendida: comediantes a jogarem com opiniões além do aceitável, para que o público as aceite pelo seu valor nominal. “Liberdade de expressão” é o nome que eles dão a essa interacção sinistra de ironia e sinceridade.

Apesar de o riso fraquinho ter caracterizado grande parte do envolvimento do público naquela noite, havia uma parte perto da frente do palco que estava totalmente "a bordo": a comitiva de Paul Joseph Watson. Durante o segundo intervalo, falei com um tipo de fato no bar. Disse-me que trabalhava para um “YouTuber de alto nível” e ia ao Comedy Unleashed todos os meses. Quando lhe perguntei como descreveria o público habitual, ele escolheu as palavras com cuidado: “Somos um grupo de pessoas da contracultura que, pelos padrões distorcidos deste país, seriam consideradas de extrema-direita”. Antes, tinha-o visto a trocar olhares de reconhecimento com o gajo ao lado, quando Heydon Prowse fez referência aos voluntários que combateram os fascistas durante a Guerra Civil Espanhola numa piada sobre activismo millennial. Mas, é assim que a Inglaterra é hoje em dia: já nem podes apoiar o General Franco sem que sejas rotulado de extrema-direita.

YouTubers de extrema-direita, The Spectator (onde Toby Young escreve) e Breitbart não estão realmente interessados em liberdades civis ou comédia stand-up, mas sim em executar as suas políticas. E isso está a acontecer no mundo real. O atirador de Christchurch disse aos espectadores do seu vídeo do massacre “Inscrevam-se no PewDiePie” - um YouTuber que Watson já defendeu num vídeo - antes de abrir fogo. O Spectator publica editoriais de opinião de apoio a neo-nazis gregos, afirmando que as piadas não são suficientemente islamofóbicas em Inglaterra, enquanto mesquitas são vandalizadas e planos de atentados com bombas saem frustrados. A premissa partilhada da visão de Mundo deles é que homens brancos conservadores e “valores europeus” estão em perigo. É uma ilusão que contradiz o facto de que o Mundo, como está materialmente constituído – com um sistema político e económico que drena valor do Sul Global e obriga milhares de migrantes a afogarem-se no Mediterrâneo – está feito à imagem deles.

Em Abril, o agora ex-chefe do UKIP – que se reconstituiu como um partido de alt-right desde que Farage saiu – foi entrevistado pelo programa de domingo da BBC. Um pouco antes disso, o escritor francês que popularizou a “Grande Substituição” teve tempo de explicar a sua teoria racista no The World at One da Radio 4. Colunistas em jornais nacionais dizem estar a ser censurados. Painéis de discussão morderam o isco, convidando “especialistas” que mal podem esperar para repetir aquela frase do John Stuart Mill que decoraram na universidade. Para eles, esse debate é um exercício de argumentos abstractos; para outros, é uma questão de vida ou morte. Ao ceder à ficção de que a liberdade de expressão dos conservadores está ameaçada, o mainstream permitiu que a extrema-direita encontrasse um novo espaço na cultura. E eles usam esse espaço para se sentarem numa sala escura uma vez por mês e rirem-se da sua sorte.


Segue a VICE Portugal no Facebook, no Twitter e no Instagram.

Vê mais vídeos, documentários e reportagens em VICE VÍDEO.