Sexo

Um baile de fetichistas num qualquer domingo de Páscoa

Desci pela toca do coelho, para ver criaturas imbuídas do espírito pascal a chicotearem-se numa cruz. Tudo em nome do simbolismo da época.

Por Allison Elkin
14 Abril 2017, 12:26pm

Todas as fotos por Luis Mora

Este artigo foi originalmente publicado na VICE USA.

Se estivesses onde eu estava nas primeiras horas da manhã de Páscoa, poderia muito bem pensar que tinhas, literalmente escorregado pela toca do coelho abaixo. Não uma toca proverbial, mas uma toca de coelho à séria, com luzes néon coloridas a piscar, um DJ sem camisa a tocar house industrial para uma sala cheia de coelhos seminus, aos pulos em roupas bondage.

Claro que também havia decorações típicas que podes encontrar em qualquer festa de família neste feriado: cestas com ovos multicoloridos, chupa-chupas arco-íris... mas também chicotes, uma quantidade ridícula de cabedal e pessoas puxadas por coleiras.

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Todas as fotos por Luís Mora

No salão principal do "Baile Fetiche de Páscoa", da Subspace, realizado em Toronto, Canadá, o ambiente não era muito diferente de algumas raves que frequentei na vida, a não ser a quantidade cada vez maior de pele que os participantes mostravam e a quantidade de acessórios de cabedal.

Ao entrar na zona da masmorra, que era uma grande sala nas traseiras do local, com chão de madeira e paredes brancas, comecei a ficar mais consciente de onde diabos estava a meter-me no fiim-de-semana da Páscoa.

Depois de ler as regras coladas na porta - que proibiam nudez genital e penetração, mas permitiam piercings e "brincadeiras limitadas com faca" - admito que fiquei um pouco confusa.

No caminho para a festa, a minha cabeça estava cheia de dúvidas sobre se haveria ou não sexo, se fetiche de Páscoa é uma inclinação sexual real e se eu entraria numa cena parecida com o infame porno de coelhas lésbicas de Sasha Grey. Mas, felizmente, o organizador do evento Craig Galbraith esclareceu alguns equívocos em que eu e muitas pessoas fora da subcultura acreditam.

"Fetiche tem menos a ver com sexo e mais com sexualidade. É um acordo entre duas pessoas para participarem numa actividade que é erótica, mas que não precisa de incluir sexo...", explica Galbraith.

Sentada num dos bancos do bar, ao lado de uma área decorada por cinco peças de mobiliário - incluindo um grande X de madeira, chamado cruz de Santo André - onde pessoas podiam ser amarradas e chicoteadas, conheci uma rapariga simpática chamada Sabrina, que vestia uma mini saia roxa e orelhas de coelho pretas com lacinhos.

"É uma óptima forma de aproveitar a Páscoa e sei que muita gente que aqui está não tem muitos familiares", revela Sabrina. E acrescenta: "Para mim é especialmente incrível - conheci tanta gente espectacular aqui e fazer parte da comunidade BDSM é como fazer parte de uma família... não estás sozinho, toda a gente partilha alguma coisa".

Enquanto Sabrina começava a transformar-se na minha guia espiritual de fetiche, olhei para a área da masmorra e notei que os dois amigos que me acompanhavam no evento tinham-se ali instalado - ela estava inclinada num banco, enquanto o namorado lhe batia no rabo com uma longa calçadeira de metal e gemia à medida que ele lhe acertava ao ritmo da música.

O "Baile Fetiche de Páscoa" é um evento anual, realizado pela Subspace, uma comunidade de fetiche de Toronto, fundada em 2006. A Subspace, baptizada com o nome do estado mental alterado em que uma pessoa submissa pode entrar durante uma cena com uma dominadora, já fez vários eventos temáticos nos últimos anos, de militar a médico, até abdução alienígena.

O Baile daquele sábado era um dos últimos grandes eventos que a Subspace organizaria. Galbraith, que tem 45 anos, disse-me que estava prestes a retirar-se das grandes festas, para se concentrar principalmente em eventos mais íntimos no seu estúdio. Naquela noite, no entanto, a multidão ainda era grande e povoada por coelhos, porcos e outras criaturas associadas à Páscoa.

Quando perguntei a Sabrina se existia mesmo um fetiche com a Páscoa, ela basicamente disse-me que tudo é possível: "Uma pessoa pode curtir coelhos e, claro, há os fetiches religiosos – há gente que curte muito a ideia de ser Jesus na cruz".

Armada com essa informação e com o facto de Sabrina ter mencionado ter visto alguém com estigmas na festa, decidi tentar encontrar Jesus.

E encontrei não apenas um, mas toda uma trindade deles, incluindo um com uma coroa de espinhos e estigmas de glitter vermelho. Um deles, uma maquilhadora profissional que estava vestida como um coelho demente vermelho e preto e atendia pelo nome Helly, mostrou-me cicatrizes verdadeiras de piercings que fez no pulso, enquanto me explicava o que a Páscoa significava para ela.

"Em certo ponto da vida, tive uma família grande que recheava perus e todas essas merdas, depois, durante um tempo, não tive onde morar e andei a saltitar de casa em casa", conta Helly. E acrescenta: "Até recentemente, este era apenas mais um dia para mim... mas agora é diferente, ainda na noite passada tive um encontro incrível com um gajo que queria comemorar a Sexta-Feira Santa a crucificar-me. Não aconteceu, mas quero muito tentar!".

Galbraith, dono da Subspace, diz-me que, além dos grandes bailes fetichistas mensais, ele (e um grupo de voluntários dedicados) também realizava pequenos jantares íntimos de Acção de Graças e Natal no estúdio da Subspace em Liberty Village - que serve como casa de Galbraith, masmorra e oficina de aulas de fetiche, como o bondage japonês, por exemplo.

E, apesar de haver uma atmosfera sexualmente carregada nos eventos da Subspace, aqui não é um lugar onde vás encontrar gente agressiva a dar em cima de mulheres desinteressadas. A comunidade tem directrizes severas quando se trata de respeito e consentimento.

"Gosto muito de me divertir com mulheres lindas e nuas e quando comecei a fazer estes eventos, percebi que não havia muitos locais onde as raparigas pudessem expressar a sua sexualidade num ambiente protegido, onde não fossem assediadas por gajos aleatórios", explica Galbraith.

Depois disso começou a construir um cenário com os eventos da Subspace (listado no Fetlife) nos quais os seus convidados podiam sentir-se num espaço seguro para expressarem as suas fantasias, incluindo a implementação de monitores na masmorra para garantir que os participantes estão a seguir as regras.

"É uma questão de juntar as pessoas certas, que entendem o que é respeito e etiqueta. Assim, toda a gente pode ser quem é, sem se sentir envergonhado ou julgado", sublinha.

Os sentimentos de Galbraith foram repetidos por, literalmente, todas as pessoas com quem falei no evento, incluindo o casal Stuart e Rachel, que frequentam os eventos da Subspace desde que estão juntos, há sete anos.

Quando perguntei a Stuart, um advogado de seguros de 51 anos, vestido com umas calças de cabedal pretas e justas, porque é que vinham aos eventos da Subspace, respondeu: "Não importa àquilo em que estamos interessados no momento, podemos experimentar... O nosso sexo não é muito baunilha, portanto, se queremos encontrar parceiros extra, este, geralmente, é um bom lugar". Rachel, a sua parceira, acrescenta: "As pessoas são muito mais abertas [nos eventos da Subspace]. Num ambiente de clube de sexo, tudo tende a ser muito fechado e muito hetero".

Como Stuart e Rachel, muitas pessoas nos eventos da Subspace são veteranos da cena. Ao lado da pista de dança no final da festa, conheci Mstress Leah (que foi agressivamente insistente para que eu me lembrasse de tirar o "i" de Mstress), uma mulher com uma blusa transparente a cobrir os seus enormes seios, vestida de cabedal dos ombros aos pés e que é parte da comunidade de fetiche há 23 anos.

"Adoro a estética, o visual - mas é algo funcional também... quando domino alguém, sinto um prazer que dura por dias", confidencia Mstress Leah, que mencionou ainda que tinha um jantar com amigos na noite seguinte, enquanto gesticulava para uma mulher presa num bondage com cordas num canto do salão principal. "Eu poderia colocar alguém na cruz de Santo André e castigar a pessoa fortemente, isso deixar-me-ia muito feliz com os dias santos... o simbolismo é demasiado carregado para não te divertires com ele".

No final da noite, as minhas orelhas de coelho começaram a apertar-me a cabeça, à medida que me aproximava de uma overdose sensorial, mas finalmente ganhei coragem para participar na masmorra pelo menos uma vez.

Enquanto a minha amiga me inclinava sobre um equipamento, cobri o rosto, sentindo-me ligeiramente envergonhada e deixei que ela me batesse várias vezes com a longa calçadeira de metal. O metal estava gelado, mas fiquei surpresa ao perceber quer não doía assim tanto. Pedi-lhe para bater com mais força.

"Estou a sentir que vais voltar", diz-me Sabrina.


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