Mulheres que fazem dos nudes no Snapchat um negócio lucrativo
Foto: Elle Monroe.
Sexo

Mulheres que fazem dos nudes no Snapchat um negócio lucrativo

Numa era de empregos mal remunerados, pode ser mais fácil perceber porque é que há pessoas que decidem fazer dinheiro via “Snapchats premium”.
26 June 2017, 12:15pm

Este artigo foi originalmente publicado na VICE UK.

O Snapchat era a app de que uma geração inteira estava à espera. Em 2011 - ano de lançamento do serviço -, a narrativa das redes sociais era basicamente: cuidado. Todas as palavras, imagens e vídeos que publicas na Internet são armazenados num distante complexo de servidores. Os teus futuros chefes podem encontrar aquela foto em que te tentas embebedar com um supositório de vodka. A tua mãe pode meter o teu nome no Google e encontrar aquela publicação no Twitter de há cinco anos atrás, em que a chamavas de "chata do caraças" e dizias que não pediste para nascer.

Na Era da Partilha, aquela máxima continua, de certa forma, a pairar sobre nós: não podes escapar do teu passado. O Snapchat, no entanto, acabou com essa preocupação. Todas as mensagens que envias são apagadas dos servidores da empresa depois de lidas, ou quando expiram, em 24 horas, o que significa que podes postar o que quiseres em relativa paz (e sem pensares que o teu passado te poderá condenar). Este "detalhe", claro, fez com que as pessoas publicassem fotos sem roupa, afinal a rapaziada não precisa de muito mais que uma boa desculpa para ficar nua.

No início do ano, todavia, o Snapchat anunciou uma proibição de "imagens picantes" na sua área Discovery, depois de reclamações de pais e a empresa aconselha os utilizadores a não "distribuir conteúdo sexualmente explícito" nas Histórias públicas. Ainda assim, as Histórias privadas são uma outra questão. E, na verdade, é aí que toda uma indústria tem vindo a emergir — com jovens mulheres a recorrerem ao serviço para distribuir conteúdo sexualmente explícito, num modelo de negócio assente em pay-per-view.

Uma das publicações de Stacey Carlaa no Instagram.

Conheci uma dessas mulheres quando me mudei para Londres há alguns anos. Não sabia quando a conheci, mas, depois de a seguir no Snapchat, tornou-se bastante claro o que ela fazia para viver. Ou seja, ela postava fotos das mamas — não selfies sensuais da noite passada — e detalhes de como aceder aos "espectáculos premium", anunciados através de pequenos clips SFW.

Enquanto estudante de gestão, o meu pensamento inicial foi o de que que esta rapariga, @StaceyCarlaa, era um génio. Ela cobrava 20 libras [cerca de 22 euros] pelo acesso às actuações e, numa das ocasiões em que assisti, uma lista de convidados mostrava que 15 pessoas estavam a ver o vídeo à mesma hora que eu. Se Stacey fizesse dois destes espectáculos por semana, com pelo menos 15 pessoas a pagarem 20 libras por cabeça, faria 600 libras [cerca de 680 euros] em poucas horas de trabalho.

Uma boa quantia. No entanto, depois de seguir Stacey no Snapchat e reparar que o seu então namorado desapareceu das suas Histórias, fiquei a pensar se essa linha de trabalho teria consequências. "Causou tensão com algumas pessoas da minha família", disse-me Stacey quando a questionei sobre o assunto. Mas acrescentou: "A minha mãe, no entanto, tem-me apoiado".


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Tirar a roupa na Internet não é novidade. Desde que as webcams se tornaram acessíveis, os consumidores utilizam-nas para transmitir imagens dos seus genitais, seja visando o lucro ou por puro prazer. Para muitos, a introdução a este conceito foi a cena — agora, bastante problemática — de American Pie, na qual o protagonista, Jim, tenta transmitir a sua primeira relação sexual para os amigos, mas acaba por convidar toda a gente da sua lista de e-mails, que o vêem a ter uma ejaculação precoce.

Para outras pessoas — os desbravadores da rede mundial de computadores —, transmissões de sexo hardcore, disponíveis assim que foi possível conectar as webcams à internet, foram a porta de entrada para esse universo. E, à medida que as ligações e a qualidade das imagens melhoravam, mais e mais pessoas começaram a envolver-se na cena, pagando por acesso a sites adultos ou por espectáculos particulares. Apesar do porno online ter sofrido com a proliferação de material gratuito, a indústria do camming — que, ao contrário do porno, possibilita uma comunicação ao vivo com as modelos — só cresceu e hoje rende algo como de mil milhões de euros por ano.

My Free Cams, um dos maiores sites de camming do Reino Unido, tem mais de 100 mil modelos e cinco milhões de utilizadores. Os membros compram tokens para pagar por diferentes serviços, como actuações privadas, som total, vídeos maiores e para poderem enviar mensagens particulares para as modelos. O site fica com uma percentagem do dinheiro pago pelos tokens, antes de as modelos receberem a sua parte. No Snapchat, como são pagas directamente pelos clientes, não há dinheiro para o intermediário (é impossível dizer quanto dinheiro está a ser gerado através da app, já que as contas são difíceis de encontrar e o Snapchat não se manifesta sobre esta tendência, nem quis comentar o assunto para este artigo).


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Na era da "gig economy", é fácil ver como este esquema é atraente. A maioria das mulheres com quem falei para este artigo dizem que começaram a tirar a roupa no Snapchat, porque estavam fartas dos empregos mal remunerados. Quando percebem que podem ganhar 600 libras por algumas horas à frente do telemóvel, é compreensível que haja pessoas que entrem nisto de cabeça.

Há dois fluxos de rendimento através destas contas. O primeiro, e mais popular, é a conta dedicada no Snapchat, postando conteúdo diariamente que os clientes pagam apenas uma vez para desbloquear. O segundo são as actuações premium, em que se paga directamente à modelo, tendo depois acesso a uma lista onde ela realiza uma performance "ao vivo", sendo que o conteúdo fica disponível para o cliente durante várias horas.

Poucas pessoas escolhem este último, talvez por o considerarem demasiado pessoal — até mais íntimo que actuações convencionais de webcam. A cena com o camming é que é um tipo de conteúdo "estático". Sentas-te no quarto em frente ao computador. Há uma estrutura; os espectadores vêem a modelo e o seu ambiente de um ou dois ângulos fixos. É mais uma transação. No Snapchat — pelo menos na cabeça dos seguidores — há um acesso maior à vida das modelos. Elas podem postar um vídeo a passear com o cão, depois um vídeo das mamas; a foto com uma roupa nova, depois uma selfie NSFW.

Elle Monroe é uma snapchatter de Londres que cobra 50 libras [cerca de 56 euros] pelo acesso vitalício à sua conta premium. Num bom dia, ela diz que consegue cerca de 20 assinaturas — um lucro de mil libras [mais de mil 130 euros] em apenas 24 horas. Elle diz uma coisa que me surpreende: não sente necessidade de ter outro trabalho, já que ganha o suficiente com o Snapchat para se sustentar.

"Há um ano estava aqui sentada, sem dinheiro e sem conseguir perceber como montar um site de webcam, então entrei no meu Snapchat normal e disse 'Quem quer pagar para me ver nua?' E comecei a partir daí", explica, acrescentando que estava "tão nervosa que tive de beber uma garrafa de vinho" na primeira vez, até ficar mais confortável com as actuações.

Como qualquer trabalho relacionado com sexo na Internet, esta ocupação tem os seus benefícios — "Gosto de não ter que acordar cedo todos os dias, de ser a minha própria chefe e ter uma vida de luxo" — e os seus pontos maus: "Os pedidos estranhos incluem insultar a namorada do cliente, fazer xixi nos meus pés" — o que nunca aceitei, óbvio – "humilhá-los por terem uma pila pequena... a lista continua".

Uma modelo dos EUA, que pediu para permanecer anónima, já que só quatro pessoas próximas sabem que tem uma conta premium - portanto vamos chamá-la de Rochelle - diz-me que começou a publicar este tipo de conteúdo pelas mesmas razões que Elle: falta de dinheiro e um desejo de controlar o próprio tempo. Perguntei-lhe como se diferencia das outras contas, no que já é um mercado competitivo.

"Acho que as pessoas já têm um crush estabelecido por certas raparigas que se encaixam nos seus gostos", considera Rochelle. E acrescenta: "A única coisa que faço e que muitas outras não fazem é anal. Nem sempre gosto da forma como algumas pessoas falam comigo, mas isso já não me incomoda tanto como há tempos atrás. Pode fazer com que te sintas suja, e não de uma forma positiva, mas aprendi a bloquear essas pessoas e a seguir em frente. Às vezes sinto-me mal comigo própria, mas depois percebo que foi isso que me deu a liberdade financeira para trabalhar na minha arte, ter uma agenda livre e estar realmente no controlo da minha vida".

O salário-mínimo nos EUA é de 7,25 dólares por hora [à volta de 6,50 euros], o que significa que uma semana de trabalho (40 horas) rende 290 dólares [cerca de 260 euros], descontando os impostos. Contratos nos quais os empregadores não são obrigados a fornecer um número mínimo de horas são muito comuns, tanto nos EUA, como no Reino Unido, o que deixa muita gente sem uma fonte fiável de rendimento. Se és uma jovem aspirante a artista, como Rochelle, porque não ganhar um extra quando podes?

CrazyyCatt

A última modelo com quem falei foi "CrazyyCatt", uma rapariga tatuada e de cabelo rosa, que vive nos EUA. Como outras, entrou no Snapchat porque rende "um dinheiro decente". Cobra uma taxa única de 65 dólares [cerca de 68 euros]. "Há semanas em que consigo 15 assinaturas, noutras cinco", diz, o que rende entre 325 e 975 dólares por semana [de 290 a 870 euros]. Faz isto há apenas seis meses, mas parece estar a gostar — por enquanto. "Vou parar quando me aborrecer", sublinha.

E aqui está outro ponto atraente: o Snapchat dá a estas mulheres o poder de gerar um rendimento substancial, com total autonomia sobre quando e onde. Podem postar um nude a partir de um provador de roupa numa loja; transmitir um vídeo ao vivo da sua cozinha. Ao contrário dos sites de webcam, recebem 100 por cento do dinheiro e podem investir no que quiserem. Elle está a investir ou dinheiro, Rochelle tem tempo de perseguir uma carreira nas artes graças à sua recém-descoberta liberdade financeira.

Algumas pessoas trabalham em escritórios, outras mostram as mamas no Snapchat. E, desde que toda a gente esteja feliz, é difícil encontrar aqui um problema.

@madiewhite