A história oral de 'Esqueceram de Mim'

Incluindo a vez que o Michael Jackson visitou o set do filme.

por Jake Lauer; Traduzido por Marina Schnoor
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jan 9 2018, 11:00am

Senta Moses Mikan

Texto originalmente publicado na VICE EUA.

Apesar de ter sido lançado décadas depois de filmes tradicionais de Natal como A Felicidade Não Se Compra e De Ilusão Também Se Vive, Esqueceram de Mim é um clássico natalino. Batendo forte em vários pontos emocionais, o filme evoca nostalgia dos anos 90 e a magia do Natal enquanto captura as maravilhas da imaginação de uma criança.

Ao explorar a fantasia de toda criança em liberdade sem supervisão dos pais, no final das contas Esqueceram de Mim celebra a família. Os disfuncionais McCallisters fazem os nossos parentes parecerem normais, e todo dezembro, muitos recebem os McCallisters em casa assistindo de novo a família esquecer seu filho em casa no caminho para o aeroporto. Tem alguma coisa no caos natalino dos McCallisters que faz a gente se sentir confortável e satisfeito durante as festas de final de ano.

Se faz tempo que você não assiste Esqueceram de Mim, você provavelmente vai notar que o filme é bem mais violento do que você lembrava. “Tem várias matérias dizendo que, na vida real, os bandidos teriam morrido ou sido mutilados”, diz o ator Michael C. Maronna, que interpretava Jeff McCallister. E é verdade: Kevin McCallister usa táticas bem mortais para derrotar os vilões como um herói de ação em miniatura, descontando sua frustração nos dois bandidos invasores (interpretados por Joe Pesci e Daniel Stern) depois de sofrer nas mãos dos irmãos e primos.

Mas no cerne, a mensagem de Esqueceram de Mim é sobre empoderar os indefesos e inocentes, revertendo o equilíbrio de poder entre crianças e adultos com más intenções. E apesar da violência cômica, Esqueceram de Mim é um filme centrado na criança; muitos dos coadjuvantes eram crianças, e o maior tempo na tela é do Macaulay Culkin de dez anos.

Depois do enorme sucesso de Esqueceram de Mim e da sequência de 1992 Esqueceram de Mim 2 – Perdido em Nova York, Macaulay Culkin se tornou uma das estrelas mais requisitadas de Hollywood. Mas desde o meio dos anos 90, ele vive longe dos holofotes, e mesmo que Culkin diga que está “basicamente aposentado”, um ar de intriga continua a seguir o astro da comédia de maior bilheteria dos anos 90.

Falamos com membros da família McCallister sobre suas impressões do colega de elenco Macaulay Culkin, a visita de Michael Jackson ao set, e suas memórias favoritas da família cinematográfica.

Senta Moses Mikan (Atriz, Tracy McCallister): O que torna Esqueceram de Mim tão especial é que esse é um filme sobre família. Tem muitos sentimentos, fora de todos os truques que o Kevin faz na casa. É sobre querer estar com sua família e perceber como é importante ter sua família por perto.

Terrie Snell (Atriz, Tia Leslie): A atmosfera no set era divertida e familiar. Tinha criança pra todo lado, e era muito gostoso assistir enquanto elas construíam uma relação umas com as outras e se tornavam próximas.

Diana Rein (Atriz, Sondra McCallister): Lembro que o elenco estava jantando uma noite, e eu estava brincando com as crianças e o John Heard [que interpretava Peter McCallister]. Eu tive a brilhante ideia de jogar um cubo de gelo nas costas dele por dentro da camisa, e o pessoal do figurino ficou muito puto. Fiquei toda vermelha, mas o John veio me defender.

Mikan: A gente se abraçava muito nas pausas e depois de filmar. Éramos muito unidos, e isso aparece na tela.

Jedidiah Cohen (Ator, Rod McCallister): Além de trabalharmos juntos, as crianças também tinham aula juntas. Entre as cenas, a gente trabalhava com professores particulares em projetos da escola. Compartilhamos uma experiência durante nossos anos de formação, e isso sempre vai ser uma ligação entre nós.

Kristin Minter (Atriz, Heather McCallister): Eu era um pouco mais velha [que as outras crianças] e meus pais não estavam lá, então eu estava basicamente por conta própria. As crianças vinham para o meu quarto assistir filmes e pedir pizza.

Rein: Até planejamos viagens em grupo nos finais de semanas em que não estávamos trabalhando, só para nos divertirmos juntos.

Mikan: Hoje eu tenho pena do assistente do diretor, porque era muita criança e a gente tinha muita energia.

Minter: Acho que o filme fez tanto sucesso porque a alegria aparecia. Além disso, toda criança sonha em ficar sozinha em casa e se divertir – quer dizer, não que apareçam bandidos. Mas toda criança quer passar um tempo sem a família, sem disciplina, fazendo tudo o que quer.

Maronna: Esqueceram de Mim nos ajudou a conquistar nossos medos. O que poderia ser pior do que os pais de uma criança estarem fora da cidade e dois bandidos invadirem a casa? De algum jeito, dá tudo certo.

Snell: Esqueceram de Mim veio num tempo quando empoderamento de jovens não era algo realmente investigado. Foi um dos primeiros filmes da nossa era mostrando uma criança empoderada e no controle da situação.

Maronna: O diretor Chris Columbus sabia como fazer um sucesso de empoderamento infantil. Goonies, que ele escreveu, era todo sobre isso – crianças sem proteção de adultos derrotando vilões bizarros. Ele sabia o jeito certo de fazer o filme.

Rein: O filme tem a vantagem de ser um longa de Natal, mas minha família riu muito da primeira vez que assistiu. A comédia física era incrível, e a premissa de um garotinho sendo mais esperto que dois bandidos adultos realmente tocou o público.

Maronna: É meio como assistir Tom e Jerry – o contraste atraente de ver esse menino de cara de anjo fazer essas coisas violentas.

Minter: O Mac[caulay] era muito fofo. Ele era um garoto totalmente normal. Tipo: “Olha esse menino que é o astro de um filme com Catherine O'Hara e Joe Pesci, e ele só tem dez anos!”

Snell: Macaulay era muito engraçado. A família tinha um pote dos palavrões, e as vezes alguém soltava um no set. O Macaulay tinha um saco de papel marrom, e toda vez que alguém falava um palavrão, ele fazia a pessoa colocar uma moeda no saco.

Mikan: Mac era um menino muito legal. Claro, ele era muito precoce para sua idade. A gente se divertia muito no set. Ele não era tratado diferente de nós. Ele era parte da família. Apesar do que aconteceu com ele e sua carreira – se tornar esse grande astro por causa do filme – ele era só o Mac. Um menino pateta de dez anos.

Minter: Imagine a pressão para o Macaulay de apenas dez anos – ele é o filme. Ele fala sozinho na metade do tempo. Entendo por que ele saiu dos holofotes. Acho que ele estava sob muita pressão.

Snell: Mac era um garoto muito doce no começo – um menino fazendo uma coisa que ele achava divertida. Quando fizemos o segundo filme, tinha mais uma sofisticação nele, porque ele já tinha feito outras coisas.

Rein: Um dia, a gente estava ensaiando na frente da casa em Evanston no final de semana, e do nada o Macaulay chegou com o Michael Jackson. Todo mundo ficou surpreso e empolgado. Ele ficou com a gente por um tempo e tirou fotos com todo mundo. Ele era muito tímido, mas gentil.

Mikan: Isso aconteceu durante o segundo filme. Tenho uma foto disso. Estávamos na frente da casa dos McCallisters quando uma van sem janelas estacionou, e o Michael Jackson saiu dela. Ele veio visitar o Mac, e passou o dia inteiro no set com a gente, o que foi muito surreal.

Cohen: Eu geralmente não me apresento dizendo que fiz Esqueceram de Mim, mas esse é um interesse universal. Invariavelmente, amigos mencionam isso depois de alguns minutos, e as pessoas mostram uma mistura de surpresa e interesse. É um tópico de conversa que incluo no meu currículo, e isso surge em toda entrevista de emprego que já fiz.

Maronna: A presença do filme na minha vida agora se limita a essa época do ano – receber mensagens e ligações tipo: “Estou aqui com a minha família e sua cara apareceu na tela. Como você está?” Esse tipo de coisa. Mas o filme ajudou a financiar meu estilo de vida nos últimos 25 anos.

Rein: Participar de Esqueceram de Mim fez com que eu me apaixonasse pelo cinema, e foi incrivelmente triste me despedir da minha família do filme. Isso também criou um vício, no sentido que eu estava sempre esperando a próxima “dose” de ser escalada para alguma coisa. E isso me colocou numa jornada de 20 anos dando tudo de mim, sem receber muito em troca. Isso mexeu com o meu valor próprio. Eu olhava para fora de mim buscando validação. Não foi fácil.

Durante minha vida adulta, passei por uma fase onde tinha um ressentimento com o filme. Só alguns anos atrás, quando meu filho tinha idade suficiente para ver o filme pela primeira vez, abracei isso de novo e tive orgulho de ser parte de algo tão especial e único.

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