Ilustração: Cassio Tisseo

O guru brasileiro acusado de usar ayahuasca, ecstasy e LSD para abusar de mulheres

Quem é e o que fez Gê Marques, um antigo jornalista e professor de teatro suspeito de dopar e se aproveitar de 18 mulheres na igreja Reino do Sol.

por Guilherme Novelli; ilustrado por Cassio Tisseo
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28 janeiro 2019, 9:00am

Ilustração: Cassio Tisseo

Ayahuasca, LSD, ecstasy, DMT puro, maconha, álcool, ritual manipulado. Estes seriam os expedientes usados por Gê Marques, 62 anos, fundador da igreja Reino do Sol – híbrida de Santo Daime e Umbanda – para abusar sexualmente de frequentadoras do local, segundo relato de 18 moças, entre 2003 e 2015. Duas delas disseram ser menores de idade na época dos acontecimentos.

O processo por abuso sexual que envolve Gê Marques, em que quatro das 18 mulheres depuseram, corre no MP de São Paulo e na 14ª DP.

Os casos teriam acontecido quando rituais eram realizados no sítio São Francisco, em Parelheiros. Segundo os relatos, houve oito abusos envolvendo ayahuasca, um envolvendo DMT puro, cinco com ecstasy, dois com maconha, quatro com álcool e quatro com LSD. Atualmente, a igreja fica num sítio em Mairiporã.

VICE teve acessos a documentos dos processos e a e-mails internos de pessoas da Reino do Sol e, nas últimas semanas, conversou com ex-membros, advogados de acusação e de defesa, antropólogos e o próprio Gê Marques para reconstituir os casos relatados a seguir.

O passado obscuro e início da igreja

Sujeito alto, magro, cabelos grisalhos, pele morena. Voz neutra, monástica. Sempre de óculos, convicto. Gê Marques nasceu em Pariquera-Açu, interior de São Paulo, em 2 de dezembro de 1956 e foi criado em Registro, cidade próxima à região, pela família.

Sandra Marques, sua irmã, se mudou para Trancoso, na Bahia, em 1981, onde abriu o restaurante Capim Santo, em 1985. Foi nessa época que Gê morou na vila de pescadores baiana e trabalhou como professor de teatro.

Ex-membros do Reino do Sol afirmam que Gê teria fugido de Trancoso para São Paulo, após ter abusado sexualmente de duas garotas menores de idade, uma delas com 13 anos, outra com 15. Segundo eles, os pais das garotas o perseguiram e o cerco se fechou para ele.

Numa denúncia recente, uma ex-garçonete do restaurante Capim Santo (a primeira filial de São Paulo, na Vila Madalena, aberta em 1998), cujo sócio minoritário era Gê Marques, afirma ter sofrido abuso sexual dele, em 2001, antes da fundação do Reino do Sol. Ela disse que Gê costumava desviar dinheiro do caixa do restaurante e roubar a gorjeta das garçonetes. Outro ex-membro que preferiu não se identificar afirma que o futuro líder religioso começou os trabalhos com Daime no próprio restaurante, antes de iniciar a igreja.

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Gê Marques, acusado de abuso por 18 mulheres. Foto: Acervo de ex-membro do Reino do Sol

A fundação do Reino do Sol ocorreu oficialmente em 23 de setembro de 2001, primeiro dia da primavera. O objetivo de Gê Marques era proporcionar aos frequentadores um local de cura espiritual, segurança, proteção e reverência ao líder. O sítio São Francisco, em Parelheiros, tinha em seu terreno uma casa sede de pé direito alto, vários quartos e janelas grandes. Atrás da construção, havia uma piscina e, acima, um morro com mata fechada, onde Gê armava uma barraca de camping, local de meditação que poucas pessoas conheciam. Um dos abusos teria acontecido dentro dessa espécie de cabana, após o ritual, quando ofereceu maconha a uma das frequentadoras. Outra nova depoente diz ter sido abusada numa clareira dentro da mesma mata.

Na parte baixa do terreno, havia um platô onde ficava o templo e o salão. Todas as igrejas de Santo Daime têm uma mesa em formato de estrela no centro da construção com velas, imagens, flores. No ritual de Umbanda dentro do Daime, esse altar é empurrado para o canto do salão e o centro se torna o local onde as pessoas incorporam. Gê queria construir um altar para homenagear o ‘Preto Velho’, entidade da Umbanda, e organizou um trabalho para arrecadar fundos para isso, mas o altar nunca foi construído. Posteriormente, o teto da igreja desabou, e Gê organizou outro trabalho para arrecadar fundos. Não se sabe o que aconteceu com o dinheiro da construção.

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Gê, à esquerda, em palestra aos membros da igreja. Foto: Acervo de ex-membro do Reino do Sol

O jornalista Danilo Di Giorgi, de 47 anos, começou a frequentar o Reino do Sol em 2005 e se filiou em 2006, participando da organização financeira da casa. Na época em que parou de frequentar, em 2014, a mensalidade dos filiados custava 100 reais, e cada trabalho custava R$ 40,00. Segundo ele, atualmente a mensalidade seria de 120 reais e cada trabalho custaria R$ 60,00. “Nos primeiros meses, mandavam uma prestação de contas, em planilha, do quanto entrava e saía em despesas como luz, caseiro do sítio, preço do Daime”, conta.

Eram cerca de 100 filiados em 2006 e os trabalhos de Gira de Umbanda tinham uma média de 200 frequentadores; os maiores chegaram a 500 participantes. As Giras aconteciam a cada dois meses, e outros trabalhos eram intercalados a elas, como os de São Miguel, São João e de desenvolvimento mediúnico, ‘banca aberta’. “No começo, pagava-se eletricidade, depois virou ‘gato’. Passaram-se alguns meses e eu nunca mais vi essa planilha.”

“Numa prática em duplas, dentro da piscina, ele dominou meu corpo contra o seu, encaixou-me sobre sua genitália, à força, e puxou meu cabelo para trás.”

Com o passar dos anos, o número de frequentadores cresceu exponencialmente. “Ele é um cara de muita lábia, muita autoconfiança, passava a ideia de que tirava dinheiro do próprio bolso para investir no Reino, a igreja tinha acabado com o patrimônio deixado por seu pai...”, afirma o ex-membro. Num trabalho grande, gastava-se uma média de 500 reais de Daime, que vinha do Norte do país.

Di Giorgi fez a revisão da dissertação de mestrado de Gê em Ciências da Religião, pela PUC-SP. (Gê é formado em jornalismo pela ECA-USP. O mestrado foi sobre a Umbanda no Santo Daime, em que ele estudou o primeiro grupo a fazer essa mescla de rituais, do Padrinho Sebastião, responsável pela inserção do daime no mundo. Gê cita o caso de um abusador sexual que Sebastião recebeu em sua comunidade, conhecido como Ceará, que teria sido capado e morto pelos locais da Amazônia.) “Disse para eu pegar meu pagamento no caixa de um trabalho grande e aquilo soou bastante estranho porque a tese viraria um livro, um projeto particular da vida dele”, conta.

Não havia uma conta bancária da igreja, somente a conta pessoal de Gê. “Era um cara muito perdulário, bon vivant, comia bastante fora de casa, viajava muito, usava todo esse dinheiro e ainda cobrava 100 reais por cada atendimento terapêutico particular, sem licença legal, em seu apartamento”, diz Di Giorgi.

Ritual e abuso

Assim como nos trabalhos tradicionais da doutrina do Santo Daime, há, no Reino de Sol, uma oração no início, Pai Nosso, Ave Maria. O trabalho é aberto e todos bebem o despacho de Daime. Os homens formam uma fila, as mulheres outra do lado oposto. O Santo Daime é considerado o ‘ser divino em bebida’. Somente os homens o servem. Gê Marques sempre servia a bebida para as mulheres. Depois da ingestão, começam a ser cantados hinos. Gê tem dois hinários, cadernos onde transcreveu músicas inspiradas pelo Daime. Alguns rituais são sentados, outros são bailados. Homens usam terno branco e mulheres, vestido branco, a farda do mestre Irineu.

“No meio do ritual, ele se levantava e dizia: ‘Se um dia eu reconhecer numa pessoa 98% de sombra e 2% de luz, vou me ligar aos 2% de luz’. Parecia que ele estava preparando a gente para os abusos, enfatizava ‘a importância do silêncio’, ‘saber guardar segredos’”, conta Thaís*, uma das moças que depôs no MP-SP.

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Imagem de gira realizada em 2006. Foto: Acervo de ex-membro do Reino do Sol

Um dos abusos relatados pelas vítimas da igreja teria se iniciado na casa da família de Gê de Trancoso, em 2008. Joana* viajou com ele, uma amiga e a filha de Gê. “Ele me ofereceu um café em sua casa, de noite. Bebi aos poucos. Quando ofereci para sua filha, ele reagiu para que ela não o tomasse, foi quando eu entendi que havia algo ‘especial’ na bebida”, disse. Joana começou a sentir sua consciência alterada, taquicardia, sensações estranhas por todo o corpo. “Gê foi até o hotel onde minha amiga e eu estávamos hospedadas, entrou no quarto e sugeriu que deitássemos todos na cama.” Começou a boliná-la e dizer que estava recebendo um “hino” – canção cantada nos rituais do Daime (diz-se que alguns praticantes da doutrina “recebem”, canalizam e podem oferecer hinos para outras pessoas, como uma mensagem espiritual). Essa mensagem espiritual é também chamada de ‘presente’ e ajuda a firmar os ‘pactos de silêncio’.

Gê também as presenteava com ‘guias de Umbanda’. “Era nítido que ele distribuía as guias, especialmente, para as meninas mais jovens e bonitas, eu mesma recebi uma guia muito precocemente”, conta Helena*, outra mulher que move processo contra o líder da igreja. Ela o conheceu em 1995, quando tinha 9 anos, em outra igreja de Daime que frequentava com sua mãe, a Flor das Águas, ligada ao mestre Irineu, fundador da doutrina. No final dos anos de 1990, Gê também frequentou a Céu de Maria, centro de Daime que foi presidido pelo cartunista Glauco Vilas Boas, assassinado em 2010 no local.

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Outra cena comum nos rituais de gira da igreja. Foto: Acervo de ex-membro do Reino do Sol

Márcia* entrou no Reino do Sol em 2007, com 15 anos. Em 2009, com 17, procurou Gê Marques para aconselhamento sobre questões adolescentes que estava atravessando. Ele morava num prédio antigo na rua Rodésia, Vila Madalena, e realizava os atendimentos na sala, próximo à janela, um espaço separado por um biombo. “Após uma sessão, ele me beijou, bolinou e me chamou de ‘gostosa’, num corredor de um metro que dava para a porta de saída”. O líder espiritual não cobrava os atendimentos de Márcia.

Numa casa alugada na Rua Girassol, sem divisões de cômodos, com piscina interna – uma raia de 25 metros com final em formato triangular – após consagrarem o daime, Márcia conta: “Numa prática em duplas, dentro da piscina, ele dominou meu corpo contra o seu, encaixou-me sobre sua genitália, à força, e puxou meu cabelo para trás.”

"Não reagi, não sabia como reagir. Não lembro como saímos do chão para a cama. Na cama, vestiu a camisinha, realizou a penetração e depois de alguns minutos acabou.”

O terceiro abuso ocorreu também em seu apartamento. “Convidou-me para um jantar em sua casa. Num tom de amizade, ofereceu champanhe para acompanhar e depois maconha”, tirando da gaveta da cozinha um baseado pronto. Quando o efeito da droga “bateu”, levou-a até seu quarto sob o pretexto de fazer uma massagem, colocou uma colcha no chão e pediu para ela se deitar. “Não demorou muito, começou a tirar minha roupa e tentou me beijar. Não reagi, não sabia como reagir. Não lembro como saímos do chão para a cama. Na cama, vestiu a camisinha, realizou a penetração e depois de alguns minutos acabou.”

Esse episódio vazou num círculo interno da igreja, no ano de 2015. Em defesa de Gê, num e-mail, Ramiro Miranda, atual dirigente da igreja, argumenta: “Esta história nunca foi segredo para quem estava próximo. Após este encontro consensual, durante muitos anos ela conviveu normalmente dentro da corrente, sempre alegre, prestativa e disposta.”

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Gê era respeitado por todos os membros antes das denúncias começarem a se espalhar por e-mail em 2015. Foto: Acervo de ex-membro do Reino do Sol

Num e-mail anterior, também do ano de 2015, Gê assume o caso e diz que compartilhou com ela "um alterador de consciência": “Há seis anos atrás (sic), fiquei com uma querida amiga, que estava às vésperas de fazer 18 anos”.

A lista com várias outras denúncias seguiu. Por e-mail, Rosângela Perez, ex-esposa de Gê e dirigente atual da igreja, se manifestou: “Já é muita humilhação, já é suficiente”, ressaltando sua preocupação com a segurança e saúde de Gê e do grupo. “Com todas as situações de dor, não é uma forma de luz fazer esse sofrimento ir além, da mesma forma que foram produzidos todos esses descaminhos”. Acrescentou que o preço já estava sendo alto: “Por algum amor que todos tiveram ou tem por esse homem e por toda luz que ele também canalizou”.

Ecstasy e LSD no método

Na noite do dia 24 de dezembro de 2008 os membros do Reino do Sol passaram cantando o hinário do mestre Irineu, fundador do Santo Daime. Tomaram café da manhã juntos, ainda no sítio de Parelheiros. O grupo se separou e cada membro foi descansar na própria casa, fora do sítio. “Ele me convidou para ir em sua casa, éramos vizinhos, estávamos sozinhos, era Natal”, conta Thaís*. O convite foi para tomar um café, de tarde. “Eu aceitei, mas fui na intenção da amizade, já frequentava a casa dele, tínhamos essa relação.”

Na sala do apartamento, ele a ofereceu ecstasy. “Nunca tinha tomado, falei que não queria, ele insistiu e eu acabei aceitando”. Não houve penetração, mas ele se masturbou em sua frente. “Quando percebi, ele já estava se masturbando.”

Também havia as vivências que Gê organizava para membras ‘especiais’. Em 2009, três frequentadoras da igreja foram convidadas para uma vivência corporal com massagem, velas, ervas, materiais de defumação. Gê tinha dito que seria num lugar legal, com piscina, sauna, pois precisava de água abundante.

“Com meu estado de consciência completamente alterado pelo DMT, depois de sair da piscina, ele me deitou na cama e veio para cima do meu corpo”

No dia do encontro, as três entraram em seu carro sem saber aonde iam. O sacerdote do Reino do Sol disse que ia levá-las a um motel, por ser um local privativo, aconchegante. “Achamos que era piada, rimos, mas ele confirmou que era isso mesmo”, descreve Márcia. Chegando ao local, ele ofereceu DMT puro misturado com champanhe.

Então, quando o efeito iniciou, trouxe alguns óleos e disse para elas tirarem a roupa. Iniciou a massagem em uma das garotas, que estava deitada na cama, de biquíni. Ordenou, incisivamente, para que a outra dupla fizesse o mesmo, mas acrescentou que uma moça deveria bolinar a outra. “No momento seguinte, nos deixou no quarto e levou a outra moça para a sauna”, continua Márcia.

Entraram os quatro na piscina. Disse para a uma delas que tinha levado até a sauna tirar o biquíni, mas ela se negou. Bolinava a outra, enquanto tentava atrair a que se recusou a ficar nua. No fim das contas, acabou com Márcia: “Com meu estado de consciência completamente alterado pelo DMT, depois de sair da piscina, ele me deitou na cama e veio para cima do meu corpo”. Iniciou a penetração sem preservativo, mas parou, dizendo que estava muito perto de ejacular. “Mandou que eu fizesse sexo oral, puxando minha cabeça na direção de seu sexo.”

Dora* relata também um abuso de Gê impulsionado por LSD. Eram três frequentadoras da igreja, uma de fora. Encontraram-se na casa de uma delas. “Ele nos posiciona em círculo, conduz orações no tom ritualístico de sacerdote e oferece LSD, sugerindo incisivamente que todas tomem. Uma das meninas não queria tomar, ele insistiu”, relata Dora. Os cinco tomaram.

“No carro, pairava um clima estranho, um silêncio desconfortável, ninguém entendia direito o que estaríamos fazendo. Então chegamos ao local escolhido pelo Gê, um motel”, conta. Uma das meninas era lésbica. “Achei que ela estava com medo que ele viesse penetrá-la, pois a olhava com excitação. Passei a maior parte do tempo perto dela, enquanto ele penetrava as outras duas sem camisinha, uma depois outra, que estava menstruada”, continua Dora. Elas o alertaram para o uso do preservativo, mas ele se recusou a usar.

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Ao fundo, no centro, Gê está ao lado de Rosangela Perez, sua ex-mulher e dirigente feminina do Reino do Sol por 14 anos. Foto: Acervo de ex-membro do Reino do Sol

“Acredito que Gê Marques seja um psicopata de tríade obscura, pelo seu maquiavelismo, narcisismo, organização, método”, afirma Giulio Ferrari, ativista social e empresário de 39 anos, que ajuda a organizar esta e outras denúncias, como as do caso João de Deus. Ferrari, que sofreu abuso quando tinha 18 anos por outro guru, ajuda pessoas com casos semelhantes a buscar seus direitos na Justiça. “Ele sabia como conduzir a vítima, de maneira com que ela perdesse os filtros, ficasse sem reação, processo facilitado pelo uso das substâncias. As vítimas, na verdade, já ficavam parcialmente sem filtros, pois estavam diante de uma figura que elas julgavam ser religiosa, sagrada, de confiança.”

Em contato feito pela VICE, o advogado de Gê, Luiz Eduardo Kuntz, comentou os episódios: “É o ser humano: inveja, raiva, ciúmes... Gê Marques é um homem que teve relações consensuais com mulheres de dentro e de fora do Reino do Sol, como qualquer outro. Isso é normal.”

A defesa de Gê Marques

Em e-mail de 2015 obtido pela VICE, Gê se manifesta: “Vocês acham mesmo que a continuação desse enxovalhamento vai produzir alguma cura? Ou algo bem pior? Vocês querem mesmo que essa lista de relatos continue desse jeito, aberta a qualquer coisa? Qual o bem que pode advir daí? Vocês querem a minha cura ou me destruir?”.

Seu advogado Luiz Eduardo Kuntz afirma que se trata de uma armação. “Nos chama a atenção a pobreza de provas e a curiosa coincidência das versões, demonstrando que tudo foi orquestrado para prejudicá-lo, sem nenhum respaldo na realidade”, argumenta. “É bizarra essa colocação que ele teria oferecido qualquer tipo de alterador de consciência fora dos rituais do Reino do Sol”. E acrescenta: “Os mentores intelectuais dessa falsa denúncia serão responsabilizados assim que as investigações terminarem”.

Em áudio exclusivo para VICE, Gê declara: “Nós nunca abrimos os rituais para a imprensa, pois os participantes não se sentem confortáveis com isso”, justificando a não permissão da entrada da reportagem no sítio de Mairiporã. Nenhum membro atual, favorável aos argumentos de Gê, aceitou dar entrevista.

Segundo a advogada de acusação do caso, Maíra Pinheiro, especialista na defesa da mulher, estabeleceu-se uma relação de confiança entre abusador e vítima, em que o abuso foi cometido de forma a não parecer ter a intenção que realmente tinha. “Nenhuma dessas vítimas foi parar na situação do abuso achando que tinha qualquer conotação sexual envolvida”, explica.

A antropóloga e autora de 24 livros sobre substâncias alteradoras da consciência, Bia Labate, 47 anos, afirma que "o Santo Daime é uma religião de origem cabocla, tradicional, mas infelizmente alguns líderes aproveitam da hierarquia, da divisão de tarefas por gênero e da essencialização da mulher para conseguir vantagens pessoais”. Ela acrescenta que “não se pode culpar a religião em si, pois não há nada na doutrina do Daime que incentive este tipo de comportamento, muito pelo contrário.”

Segundo seu advogado, Gê está no Brasil. A informação é que o líder afastado tem uma agenda de trabalhos na Índia e na Itália, marcados para o fim deste mês. O MP está encarregado do protesto. Estão marcadas duas oitivas para o início de fevereiro, com a promotora Gabriela Mansur e outras duas promotoras. Até lá, mais casos podem aparecer.

*Os nomes das depoentes são fictícios, atendendo aos pedidos delas.

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