Sexo

O dia a dia de trabalhadores sexuais do OnlyFans

Como é ser como um performer que filma, dirige e posta seus próprios vídeos de sexo com outros modelos.

por Michael Segalov; Traduzido por Marina Schnoor
19 Agosto 2019, 10:00am

O trabalhador sexual que só atua para fãs online Frankie Quinn (todas as fotos por Isaac Kariuki).

A primeira vez que Frankie Quinn transou diante das câmeras, ele estava nervoso. Como é de se imaginar, quando você está se preparando para fazer sexo para um público de 15 mil pessoas, várias dúvidas provavelmente vão passar pela sua cabeça: e se meu rosto aparecer e eu for reconhecido? E se eu não conseguir ficar de pau duro? E se a performance for muito ruim?

Faz dois anos e meio que Frankie e sua namorada perderam sua virgindade de webcam. Os dois trabalhavam em escritórios em Cambridge – Frankie como gerente de contabilidade, sua parceira trabalhando como contadora – mas depois de assistirem um documentário do Channel 4 sobre camming, eles decidiram tentar. “Essas pessoas estavam escondendo o rosto e tinham trinta, quarenta anos”, diz Frankie, “e estavam ganhando mais de £500 [mais de R$2.400 hoje] por semana, com apenas algumas horas de trabalho”.

Frankie e a namorada sempre brincaram entre si que transavam como atores pornô. “Olhamos um pro outro e dissemos 'foda-se – vamos saber mais sobre isso'.” Três meses depois? Eles estavam no negócio em tempo integral. E o casal gostou – com certeza bem mais que trabalhar das 9 às 18h num escritório. Medo de que eles podiam se entediar um com o outro no quarto nunca se realizou, e eles estavam fazendo um bom dinheiro sem sair de casa. Mas depois de um tempo, fazer shows de webcam se tornou cansativo. A questão é que você está constantemente se apresentando nos termos do público, não nos seus. O dinheiro vem de fazer o que os espectadores pedem, e você depende das pessoas entrando no site na hora certa. Claro, isso significava que Frankie fazia quase mil libras depois de apenas algumas horas no seu quarto, mas em outros dias era difícil tirar qualquer dinheiro do show.

Aí Frankie topou com um site chamado OnlyFans. “Tinha um cara com 200 fãs, cobrando cerca de 10 paus por mês de cada, e eu fiz as contas...” ele diz agora, sorrindo. “Decidi parar o que estava fazendo imediatamente e investir nisso.”

Sites como o OnlyFans e JustForFans são a nova fronteira para pessoas querendo viver de trabalho sexual na internet. A premissa, se você nunca cruzou com essas plataformas, é simples. Em vez de assinar um site pornô, os clientes podem pagar para acessar conteúdo criado por artistas individuais, que postam seus próprios vídeos direto no site. Quando você loga para se masturbar, um feed em tempo real com fotos, postagens e vídeos está esperando por você. Sites assim são basicamente como o Facebook ou Instagram, só que você paga para ser amigo de alguém. E, em vez de #lifehacks e fotos das férias dos amigos, você entra nesses sites para ver as pessoas que selecionou transando.



Agora com 25 anos, Frankie – que se identifica como bissexual – mora em Manchester, e quando nos encontramos no apartamento de um de seus amigos, ele não poderia estar mais feliz com sua linha de trabalho. “Trabalho nos meus próprios termos, posso fazer uma pausa sempre que quiser. Tirar folga também. Agora construí uma base leal de fãs. Se tiro uma semana de folga, eles continuam inscritos.” Frankie está fazendo milhares de libras todo mês com sua conta. Mas ele insiste em apontar que o trabalho é mais que só transar. Diferente de filmagens feitas por um estúdio, tudo – gravação, edição, encontrar locações e pós-produção – tem que ser feito pelo próprio artista. “Eu já tinha experiência em marketing e promoção antes”, explica Frankie, “então investi em câmeras e equipamento de iluminação, aprendi a editar, e comecei a fazer meus próprios vídeos”.

OnlyFans / JustForFans: Fan-funded online sex work performer Frankie Quinn
Frankie Quinn

Manter os fãs interessados e entretidos exige um fluxo regular de postagens. Nas duas semanas antes do nosso encontro, entrei no JustForFans, me inscrevi na conta dele e logava quase todo dia para ver o que havia de novo. Ele tem vídeos solo, vídeos dele transando com outros artistas do site, e em alguns vídeos, ele atua com modelos que claramente querem permanecer anônimos.

Frankie diz que tenta postar algo novo, seja uma foto ou vídeo, todo dia. “Tento fazer um vídeo longo com modelos uma vez por semana”, ele continuou. “Nove entre dez vezes, será com alguém com uma página similar. Outras vezes, é só uma pessoa que quer transar comigo e não vê problema em ser filmado”. Inscrições, diz Frankie, inundam seus inbox nas redes sociais: até agora ele fez vídeos com caras que conheceu no Twitter, Instagram e Grindr. “Muita gente simplesmente quer fazer sexo com um ator pornô”, ele diz, sorrindo.

Enquanto Frankie me explica sua rotina diária, Xavier Sibley – outro artista, dono do apartamento onde estamos – volta do quarto onde estava atualizando sua página, e se junta a nós nos sofás da sala. Dois anos antes de seu aniversário de 21 anos, Xavier estreou em seu primeiro filme adulto. Crescendo nos arredores de Paris, ele se interessava pela indústria adulta desde os 13 – dificilmente uma surpresa. Mas enquanto para a maioria dos moleques adolescentes essa fascinação raramente sai do quarto e seu computador, Xavier sempre soube que se a oportunidade surgisse, ele faria um filme.

Hoje, Xavier ainda faz filmagens profissionais às vezes, mas sites de fãs são responsáveis pela maioria de sua renda. Ele e Frankie fizeram uma cena juntos ontem, ele diz. “Antes de entrar para esses sites, eu estava postando clipes curtos dos meus vídeos filmados com estúdios”, me conta Xavier, “ou talvez uns 30 segundos comigo me masturbando em casa. Então percebi que não precisava dar isso de graça no Twitter”.

Diferente de Frankie, Xavier posta três vezes por semana: uma única cena cortada em três partes, lançadas terça, quinta e sábado online. “Se você posta um vídeo de dez minutos, as pessoas dizem que é longo depois”, continua Xavier, “mas se posta um de dois minutos, vão dizer que é muito curto”. Depois de alguma experimentação, Xavier diz que encontrou a duração ideal para seus filmes. “A maioria não precisa de mais que cinco minutos para gozar.”

*

Quando topei pela primeira vez com esses sites de fãs na internet, foi meio que por acaso. Eu estava passando pelo meu feed no Twitter num dia ocupado no escritório alguns meses atrás, e algo se destacou no meio das opiniões polêmicas e retuítes. Era um clipe curto de um cara que devia ter vinte e poucos anos, se masturbando. Com medo que alguém que eu seguia estava ajudando a espalhar vídeos particulares ou pornô de vingança (e meio que intrigado), cliquei na conta que originalmente postou o vídeo, e logo me vi explorando perfis de vários caras como Frankie, que usam as redes sociais para conseguir mais pessoas que paguem diretamente por seu pornô.

OnlyFans / JustForFans: Fan-funded online sex work performer Xavier Sibley
O performer Xavier Sibley preparando o equipamento de filmagem em sua apartamento.

Sem generalizar, os caras que encontrei no site podem ser divididos em duas categorias distintas. Alguns, como Frankie e Xavier, têm vinte e poucos anos ou são um pouco mais velhos, são gays ou bissexuais, e veem o que fazem como pornô. Mas há outro grupo de garotos no site – um pouco mais novos (mas todos acima de 18 anos) que são héteros. Também há uma diferença em seu conteúdo.

Eles postam apenas material solo. E muitos parecem ter começado postando selfies sem camisa no Instagram, logo percebendo que mostrar mais atraía um público mais amplo e mais dinheiro. Frankie e Xavier veem o pornô como uma carreira, mas quando comecei a conversar com esses outros caras mais novos, ficou óbvio que eles não viam a coisa assim. Uma das condições para falar era o anonimato, e a maioria diz que está nessa “só por diversão” ou que “não pensam muito no futuro”. “Muitas pessoas fazem vídeos de sexo quando são mais jovens e depois passam para outra coisa”, um deles sugere.

Mas a questão é que, apenas alguns anos atrás, filmar alguns vídeos pornô para um estúdio não atraía tanta atenção. Se você tivesse feito uma cena, ela estaria trancada atrás de um paywall, ou poderia ser encontrada nas profundezas de um site tube da vida. A probabilidade de alguém que você conhecia topar com um vídeo seu era baixa, e se isso acontecia – a pessoa que o assistiu teria que admitir que estava vendo pornô em primeiro lugar. Mas com sites como o Twitter, que não proíbe conteúdo explícito, esses caras estão se expondo na internet desde o primeiro dia.

Por semanas, tentei combinar um encontro com os caras que não veem esse trabalho como carreira, mas eles não estavam interessados. Quando pedia para entrevistá-los, a maioria se preocupava com a publicidade que podiam receber. Mas aí, finalmente, um sim. Um cara chamado Sam*, de 21 anos, se ofereceu para me encontrar em sua cidade depois do trabalho. Ele é hétero, e sabe que seus clipes solo atraem muitos seguidores na rede social. Peguei o trem para encontrá-lo, esperando duas horas até que ele terminasse seu turno num canteiro de obras – como combinamos. Ele não apareceu.

Decidi entrar em contato com Dominic Ford. Ele se descreve como um veterano da indústria que já esteve dos dois lados da câmera, e comanda seu próprio estúdio. No Dia dos Namorados do ano passado, ele lançou seu novo site: JustForFans. Quando perguntei por quê, ele simplesmente respondeu: “Acho que é apenas a tempestade perfeita”. Com isso ele quer dizer que fatores apontam que sites como o JustForFans são o futuro do pornô. Primeiro, os estúdios não estão fazendo tanto dinheiro e filmes quanto costumavam – sites tube garantem isso. Ao mesmo tempo, pessoas estão postando seus próprios vídeos amadores em sites como o Xtube. “Os consumidores curtem a autenticidade que esses vídeos apresentam”, continua Dominic. “Não são vídeos bem iluminados, ou com ótimos ângulos. Os usuários preferem esses do que os trabalhos produzidos por um estúdio pornô. Tudo isso se juntou, e modelos que não estavam recebendo tanto de estúdios perceberam que precisavam se sua própria plataforma.”

OnlyFans / JustForFans: Fan-funded online sex work performer Gabriel Cross
O performer Gabriel Cross

Segundo Dominic, pirataria na internet começou a prejudicar a indústria pornô já em 2008. Antes disso, os modelos faziam milhares de dólares por cena, e os estúdios estavam lucrando. Agora um modelo tem sorte de fazer $500 por uma cena. Enquanto isso, modelos no site dele estão trazendo mais de $8 mil por mês – e o número está subindo. Tem uma loja online e opções de download de vídeos no site. Você pode pagar extra para falar diretamente por telefone com um artista escolhido. O site tira 30% do que os artistas fazem.

A conversa então passa para os caras jovens usando o site dele, particularmente aqueles que podem parar um dia e refletir sobre compartilhar seus vídeos tão publicamente. Dominic vê a questão assim: “Imagine o cenário: um cara de 19 anos decidi entrar para o pornô. Ele é contratado por um estúdio, filma, é pago e assina o formulário de liberação. Ele faz 30 anos e se arrepende da decisão. Ele não é dono daquele conteúdo, e o estúdio ainda pode fazer o que quiser com ele. Mas agora: com 19 anos ele faz um vídeo, e se quando tiver 30 ele se arrepender, ele pode deletar sua conta. Ele é dono de seu conteúdo e imagem – ele pode fazer o que quiser”. Segundo ele, os artistas têm o copyright do que produzem. Para Dominic, os modelos estão sendo empoderados como nunca antes – não só financeiramente, mas em teoria estando no controle do que fizerem.



Dois performers adultos estão no flat de Gabriel Cross no centro de Londres quando me encontro com ele na manhã de quinta-feira. Diferente de Frankie, Xavier e Sam, a carreira de Gabriel no pornô já tem uma década. E ele lembra dos dias quando fazia milhares de dólares filmando uma cena com um estúdio. Agora com trinta e poucos anos (ele não especifica), Gabriel vem usando sites de fãs há um ano e meio. No começo ele achou que seria uma moda passageira, uma fase da indústria que passaria. Mas logo ficou claro que essas plataformas são seu futuro profissional.

“Recentemente eu estava com problemas, mesmo já sendo bem estabelecido, para conseguir trabalho consistente dos estúdios”, ele me conta. “Tenho uma taxa por cena que não vou abaixar, então agora apenas não trabalho tanto para eles. A melhor parte dos sites de fã é que não preciso mais me preocupar com isso.” Tendo cimentado uma grande presença online através do trabalho com estúdios, agora ele está feliz em se livrar deles. “Na verdade você diminui o valor do seu produto se estiver disponível em plataformas demais”, ele sugere. “Se tem um monte de coisas suas em diferentes sites de estúdio, por que alguém se inscreveria no seu site de fãs?”

Assistindo os vídeos de Gabriel, fica claro que ele sabe o que está fazendo: dez anos na indústria significa que ele entende do negócio. Mas pornô DIY, ele descobriu, apresenta novos desafios. Por exemplo, encontrar novos parceiros. Como Frankie e Xavier, Gabriel não paga pessoas para fazer sexo com ele para seu site. “É sempre uma preocupação se vou cruzar com modelos, ou pessoas dispostas a filmar comigo, porque essa rotatividade constante de conteúdo é exigente”, ele explica. Mas Gabriel acredita que esse não é um modelo de negócio que funciona se o ator tem que pagar o parceiro. Em vez disso, é uma forma de cooperação: nenhum explora o outro por seu trabalho. Duas pessoas decidem fazer sexo consensual, na visão dele, depois levam para casa uma cópia da filmagem e editam e fazer o que quiserem com ela.

“Pagar também tiraria a realidade da coisa toda”, acrescenta Gabriel enquanto nos despedimos, já que ele está esperando para filmar um ménage. “A ideia que atrai as pessoas é que esse é um vislumbre da vida sexual pessoal de alguém que elas gostam. Dito isso, muitas vezes acabo com uma filmagem impossível de usar de caras que, bom, não manjam de multitask”, ele diz, rindo.

Na sociedade das redes sociais, não é uma surpresa que consumidores de pornô queiram estar ainda mais próximos dos artistas que gostam. Todo mundo compartilha coisas demais online, e faz sentido que alguns queiram uma experiência mais íntima. E os sites de fãs fornecem isso de um jeito que empodera os artistas: renda estável que corta o intermediário, e os performers pode escolher com quem fazem sexo e quando. Todos com quem falei disseram que isso é muito mais prazeroso que camming ou filmagens de estúdio. É uma forma de trabalho sexual onde os participantes, em cada estágio, sentem que estão no controle.

@mikesegalov / @isaackariuki.jpg

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