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As mulheres organizaram a maior marcha antifascista do Brasil

As manifestações por todo país contra Jair Bolsonaro foram o acontecimento mais importante das eleições até agora.

por Amanda Cavalcanti, Julia Reis, e Marie Declercq
01 Outubro 2018, 5:12pm

O ato contra Bolsonaro na cidade do Rio de Janeiro. Foto: Matias Maxx/VICE

Normalmente, o sucesso político de algo pode ser medido com base nas respostas da oposição. No dia 29 de setembro, manifestações foram marcadas no país inteiro contra o candidato presidencial Jair Bolsonaro (PSL). Quase que simultaneamente, bots da extrema-direita e alguns seres humanos de carne e osso rebolaram o máximo possível para descaracterizar a quantidade massiva de manifestantes que foram às ruas com montagens tentando provar que a quantidade de pessoas em São Paulo era falsa. Uns até assumiram o papel das agências de checagem de fatos e afirmaram que a fotografia tirada no Largo da Batata era do carnaval de 2018 e não do ato.

O ato Mulheres Unidas Contra Bolsonaro começou virtualmente quando a baiana Ludimilla Teixeira, 36 anos, criou um grupo com o mesmo nome no Facebook como uma forma de reunir as mulheres que rejeitam veementemente o candidato do PSL, cuja história parlamentar é recheada de comentários condescendentes à própria existência das mulheres. Segundo o último Datafolha, 52% das mulheres não votariam de jeito nenhum em Bolsonaro, enquanto 38% dos homens o rejeitam.

O grupo virtual rapidamente ganhou atenção nacional por receber mais de três milhões de membros em pouco tempo de existência. Ele foi hackeado algumas vezes. As administradoras foram ameaçadas por perfis falsos de apoiadores do presidenciável e até foi feito um grupo de mulheres pró-Bolsonaro, que acabou virando uma espécie de piada por conta da maioria das postagens serem de autoria masculina.

O ato contra Bolsonaro em São Paulo. Foto: Felipe Larozza/VICE

Da internet para a rua, foi um pulo. No dia 29, mais de 160 cidades no Brasil e no exterior registraram atos contra o presidenciável. No Rio de Janeiro, a marcha começou às 18 horas, se iniciando na Cinelândia e indo até a Praça XV, no centro da cidade. Em São Paulo, às 15h, já haviam milhares de mulheres de todas as idades e origens acompanhadas de amigas, namorados, namoradas, filhas e mães no Largo da Batata, zona oeste da capital.

Dias antes, algumas preocupações entraram em pauta. Uma delas seria da manifestação se esvaziar de significado político e virar uma espécie de “não é só por 20 centavos” ou “Fora Temer” pasteurizado. Outras, de movimentos a favor do candidato bagunçarem a manifestação e catalisar alguma confusão por ali. Além do ato ter sido pacífico do começo ao fim, houve uma tentativa de deixá-lo apolítico na internet. Mas o que rolou ao vivo foi algo muito mais suprapartidário. Algumas mulheres agitaram a ideia de todas irem de branco, roxo ou rosa, para não ser um evento partidário. Isso, felizmente, não vingou. Sim, haviam mulheres vestindo essas cores (o que é ótimo), mas elas não censuraram ou mandaram embora partidos políticos ou movimentos sociais que foram em peso para repudiar Bolsonaro, como aconteceu em 2013 na segunda metade do que ficou conhecido como as Jornadas de Junho. As bandeiras de partidos como PT, PSOL, PCdoB e PSTU e PDT eram numerosas entre os cartazes políticos.

O ato das mulheres, além de ter sido falado e convocado sucessivamente nas redes sociais, também foi mencionado na campanha política de Geraldo Alckmin (PSDB), a fim de meter uma tática para bater o máximo possível no candidato do PSL. Essa postura do PSDB foi vista desde em campanhas voltadas às mulheres criticando seu adversário, passando por Alckmin nos debates saudando os espectadores com o termo “brasileiras e brasileiros” até a bizarrice em indicar Ana Amélia (PP) como um token de que o PSDB não é machista – muito embora o partido de Ana Amélia (e ela também) apoie Bolsonaro.

#EleNão no Rio de Janeiro. Foto: Matias Maxx/VICE

Mesmo com a convocação do PSDB (que ninguém pediu, mas legal que rolou), não foram avistadas bandeiras do movimento jovem do partido. A vice de Alckmin sequer marcou presença na manifestação, como fizeram as respectivas vice Sônia Guajajara (PSOL), Manuela D’Ávila (PT), Kátia Abreu (PDT) e as candidatas à presidência Marina Silva (Rede) e Vera Lúcia (PSTU). Tímidas bandeiras do Novo foram vistas no ato em São Paulo, mas eram tão poucas que seria necessário pedir para a agência Aos Fatos um fact-checking da realidade.

A linha de frente das manifestações estava dominadas por mulheres cantando para Bolsonaro tomar cuidado com as “fraquejadas” que poderão tirá-lo rapidamente da corrida presidencial. Inclusive, após as pesquisas mostrarem que são as mulheres que mais rejeitam o candidato, uma onda elogiosa (às vezes bastante forçada) começou entre os homens em dizerem que são as mulheres que salvarão o Brasil. Como se isso fosse novo.


Assista ao nosso documentário 'O Mito de Bolsonaro':


Apesar de todos os problemas entre alguns partidos políticos da esquerda com o PT e o movimento autônomo não concordar com grande parte dos partidos brasileiros, o discurso era único e claro: estavam ali contra o fascismo. Ponto final. Houve até alguns teóricos vaidosos que escreveram sobre como eram exagerados os comentários de que Bolsonaro era um fascista tropical, porém isso não colou com ninguém.

Com as declarações de General Mourão, vice de Bolsonaro, sobre famílias formadas por mulheres serem desajustadas, do povo estar “se lixando” para o fim do 13º salário e que nem sempre uma Constituição precisa ser feita por pessoas eleitas democraticamente, o repúdio só aumentou. Mesmo Bolsonaro ficando algumas semanas de molho por causa da facada, ele também se esforçou para dar uma contribuição: disse em rede nacional que não aceitará sua derrota nas urnas eletrônicas.

Ato em SP. Foto: Felipe Larozza/VICE

Antes dessa marcha, atos contra o fascismo existiam (e sempre vão existir), claro, mas sempre foram associados aos black blocs ou a extrema-esquerda. Não que isso fosse necessariamente ruim, mas quem costuma ir nessas coisas sabe que as chances de levar bomba de gás da polícia costumam ser altas. Na manifestação das mulheres contra o Bolsonaro, não. Era popular, o famoso mainstream, ser antifa. Ser antifascista, agora por causa das mulheres brasileiras, é ser alguém de bom-senso que não deseja o fim da democracia e suas instituições.

São as mulheres que vão salvar o Brasil do fascismo? Não dá pra saber, ainda. Mas é por causa delas que essa questão foi levantada e materializada na figura que Bolsonaro representa.

O Brasil ainda bloqueia a participação feminina na política institucional, e mesmo assim elas representam 52% do eleitorado e uma grande ameaça a candidatura de Jair, que está atualmente em primeiro nas pesquisas.

Rio de Janeiro. Foto: Matias Maxx/VICE

A Polícia Militar não confirmou o número de manifestantes nos atos que ocorreram no país, e por conta do sucesso, as organizadoras do grupo Mulheres Antifas estão planejando outra manifestação no dia 6 de outubro, um dia antes das Eleições Gerais. O evento de São Paulo já conta com 30 mil confirmações e 100 mil interessados. “Informamos que nosso objetivo não é esvaziamento da pauta, ao contrário, é o fortalecimento de uma pauta plural antes da aparente super polarização do segundo turno”, destacam na nota publicada no Facebook.

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