Um papo sobre arte, anarquia e foda-se com Raymond Pettibon do Black Flag

O artista explica por que seu trabalho vai muito além dos desenhos que fez no tempo da SST.

por Nick Gazin; Traduzido por Marina Schnoor; fotos por Nick Gazin
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out 24 2017, 10:00am

Entrevista publicada originalmente na VICE US .

Raymond Pettibon é um artista celebrado que pinta e desenha bonitas e enervantes imagens, geralmente em preto e branco. Ele entrou na consciência de muita gente por meio da sua arte para a banda e gravadora do irmão distante, a SST. Apesar de muitos adolescentes o conhecerem como o artista do Black Flag, o trabalho que ele criou em seus dias punk é só uma gota de tinta num balde quando comparado ao resto de sua gigantesca obra.

O trabalho de Pettibon ganhou uma retrospectiva, Raymond Pettibon: A Pen of All Work, ao longo de quatro andares no New Museum de Nova York. Eu nunca tinha visto tanto do trabalho dele num lugar só, o que fez sentido considerando que a mostra foi a primeira retrospectiva de verdade do seu trabalho. Obras que eu achava que tinha sido vendidas ou perdidas muito tempo atrás estiveram na exposição. As pinturas e desenhos foram agrupados por temas. Havia um punhado de obras sobre Charlie Manson, depois você é confrontado por um canto grande dominado por lindas pinturas de ondas, trens, Gumby, Batman e outros motivos que Ray desenvolveu durante sua carreira de décadas (ele tem 59 anos hoje e desenha desde que se lembra). Os zines e vídeos antigos que ele fez com Sonic Youth e Mike Kelley também foram expostos na mostra.

Pettibon falou comigo enquanto terminava um de seus murais. Eu já tinha entrevistado ele algumas vezes para a VICE, em 2010, 2013 e 2016, é só clicar para ler [em inglês].

Me encontrei com Pettibon em frente ao New Museum com seu assistente. Entramos e começamos a discutir o mural que ele estava pintando no térreo.

Todas as fotos por Nick Gazin.

VICE: Quanto tempo você leva para pintar um mural? Quando começou este aqui?
Raymond Pettibon: Hum, acho que semana passada. Parando e voltando, sabe? Vamos ver. Para este aqui, comecei com Jackie Robinson. É bem improvisado, sabe, porque eu não sabia como ia acabar. Então esse vai ser o primeiro, o da esquerda.

Qual o significado do A?
Tá vendo esse cara com as pernas abertas. Sabe, você acha o "A". Aí a ponte do "A" foi preenchida depois. E o "A" e o "I" são tipo uma homenagem para minha Tia Aino, irmã da minha mãe. Então é algo pessoal.

Você já começou algum trabalho planejando tudo com antecedência, ou é sempre improvisado?
Geralmente improvisado, sabe. Na maioria dos casos, estou pouco me fodendo — não que eu não me importe —, mas não preciso saber as especificações, sabe, qual a largura, a altura, quais são as dimensões porque simplesmente improviso. Então isso só depende das minhas habilidades de improvisação, sabe? Faço isso há tantos anos, porra, então não preciso ter tudo anotado de antemão.

Tem essa história contada por um dos líderes da banda do David Letterman sobre produzir um show onde Sammy Davis Jr. ia cantar, e ele queria que Davis ouvisse o arranjo da música antes. Davis não queria, mas acabou cedendo, e ficou triste porque não pôde experimentar a música inteira pela primeira vez ao mesmo tempo que a plateia. Saber o que ia acontecer matou um pouco de prazer dele com a música.
Ele começou a cantar quando tinha quatro anos, certo? Ele cresceu no showbiz. Ele não precisava que a banda do David Letterman passasse por todos os arranjos e tal. O que funciona, funciona, OK?

Às vezes você se arrepende de não poder guardar ou manter os murais que você faz para suas exposições?
Não, cara. Seria demais.

OK, comecei por Jackie Robinson porque muitos, muitos anos atrás fiz uma retrospectiva no MOCA em LA. E tinha o Jackie Robinson escorregando pra última base, ele era famoso por fazer isso, sabe? E eu pensei que seria uma boa fazer uma ponte entre Nova York e LA. De um jeito simples.

Então comecei isso fazendo uma ponte entre LA e Nova York, apesar de esse ser o New Museum, que fica na Bowery. Não é o Brooklyn Museum. Se você notou, o Jackie Robinson tem um "B", OK? Certo? Ele jogou no Brooklyn Dodgers. Ele nunca jogou no LA Dodgers. Ele nunca jogou no New York Yankees. Perto dele, pintei Whitey Ford, o arremessador. Originalmente, pensei em também retratar o Jackie como um jogador de futebol, porque ele jogou no Olympics. Ele jogou basebol, futebol e basquete na UCLA, onde também estudei. E ele esteve em Pasadena. Pasadena Crip, Raymond Avenue Crip. Então eu estava pensando nele numa pose de futebol? Entende o que eu digo?

Tem algum significado da sua pintura anterior de Jackie Robinson no chão escorregando, e agora de pé com o bastão apontado pra cima?
Não. E estava no meu estúdio, sabe, coleciono bastões e um deles é o bastão de Jackie Robinson, que tem um cabo grosso, não tipo o Nellie Fox, que tem um cabo grosso mesmo. Jackie Robinson, ele tinha mãos bem grandes, e você vê isso aqui. A pintura do bastão era mais longa na verdade, mas pintei por cima, por isso ficou meio estranho. Porque não deveria ser assim. Parece uma palmeira da Califórnia.

Achei que parecia que estava emanando energia. Ou como se fosse o movimento.
Sim, mesma coisa, OK. Essas coisas acontecem sozinhas.

Gostei muito.
Voltando para o que estávamos falando, coisas planejadas, eu não sabia que ia colocar Whitey Ford aqui, OK. Não tem outro artista no mundo que consegue transmitir a diferença entre Nova York, Brooklyn, Whitey, Jackie, Pasadena, Raymond Avenue Crips como eu consigo.

Whitey Ford tinha só 1,70 metro. Ele era o mestre da bola — ele conseguia cortar o arremesso, girar, tudo. E para um cara baixinho, ele era um arremessador incrível. Ele liderava a liga ERA, tipo todo ano. Eles jogaram em times diferentes, mas os dois jogaram em Nova York, mas não exatamente no mesmo time. Jackie e Whitey têm uma geração entre eles.

Essa parede está completa?
Até onde eu sei, sim. Quer dizer, não consigo parar de trabalhar nisso nunca.

"Os melhores pincéis são de zibelina, zibelina russa. E espinhos para canetas, OK? A zibelina mostra seus espinhos. Tá vendo isso? Você tem a ponta certo? Então ela pinga. Tanto faz."

Essas escotilhas são explodidas dos velhos mestres. Dürer, Whistler, como Franz Kline costumava explodir suas merdas.

Você fala muito sobre política no Twitter . Você é anarquista, certo?
O quê?

Você se chamaria de "anarquista"?
Anarquista? O que isso significa? Esses rótulos, eles perdem o significado. Eu não me chamaria de "anarquista". Se você quer incluir anarquismo com pragmatismo, OK. Não me identifico com pessoas que se identificam como anarquistas necessariamente.

"Tenho 59 anos, e a porra da minha biografia vai ser definida pela Wikipédia e o Black Flag."

O que você acha do que está acontecendo agora com nosso presidente?
Depois de tantos anos de Obama, Clinton, Bush, etc., Trump está na presidência, finalmente tem um dissidente, sabe?

Você gosta do que ele está inspirando?
Bom, sim, quer dizer, se é isso que é preciso, OK. O Oriente Médio e o Extremo Oriente estão em chamas há tempos. Não tínhamos um presidente antiguerra, OK? Sou contra a guerra, ponto. Sou contra intervenção/sou contra violência. Sabe o quanto é difícil isso dar certo?

Trump, para mim, é desprezível, ele é deplorável, o que você quiser chamá-lo. Ele "não é um de nós". Sim, ele é um maldito racista, cheio de ódio, ele é mau, é um escroto completo. Mas é isso que os EUA são na realidade. Então não coloque um rosto amigável em Obama com suas bombas com smiley. Ou Hillary Clinton. Agora você sabe o que vai conseguir. Acho que a longo prazo é melhor, porque onde estavam esses millennials nos últimos 20 anos, sabe?

Quando Dave Chappelle apresentou o SNL, ele e Chris Rock estavam tirando sarro de todos os amigos brancos surpresos com a vitória de Trump. Descobri que, entre meus amigos negros, a reação foi similar à esquete. Eles se sentem sem direitos desde sempre.
E não pergunte só para o Dave Chapelle, OK? Pergunte para as pessoas do Oriente Médio. Os sírios, iraquianos, iemenitas, que fugiram de suas casas e estão desesperadamente tentando chegar a algum outro lugar. E quem causou isso? Não foi Trump. Foi Obama, foi Clinton, foi Bush. Hillary Clinton, com ela, seria como Hubert Humphreys com a "política da alegria" enquanto bombardeava o Vietnã. Foda-se isso. Hillary Clinton e sua intervenção humanitária. Sou contra intervenções, ponto. Construa um muro ao redor dos EUA. Não para não deixar as pessoas entrarem, para não deixar os EUA vazar no resto do mundo. Sim, sou isolacionista.

"Construa um muro ao redor dos EUA. Não para não deixar as pessoas entrarem, para não deixar os EUA vazar no resto do mundo."

Sinto que Donald Trump tem colocado um monte de tópicos que tentamos adiar nas nossas mentes. Agora temos que decidir como nos sentimos sobre as coisas e preparados para agir de acordo com nossas opiniões.
Desprezo ele. E enquanto isso Hillary Clinton defendia todas as guerras acontecendo. Desprezo Putin. Minha família é da Estônia. Desprezo o comunismo, mas não gosto de gente como a Hillary Clinton que continua a se desviar da Rússia, como uma Nova Guerra Fria. Sempre temos que estar numa Guerra Fria, para manter o complexo militar industrial funcionando. Bom, o que mais tenho a dizer sobre isso? Nada.

Obrigado por me receber, aliá. Fico muito honrado.
Que isso, por favor. Adoro te ver, cara.

Posso perguntar sobre essa pintura das barras do Black Flag nas portas do elevador? Por que você decidiu colocar elas ali?
Parecia o lugar certo, porque elas se abrem. A razão pra isso foi sarcástica, OK, mais que qualquer coisa. Tenho 59 anos, e a porra da minha biografia vai ser definida pela Wikipédia e pelo Black Flag. Fale comigo algum dia desses sobre a minha história com o SST, OK?

Podemos fazer isso. [Pegamos o elevador do Black Flag para o quarto andar, para ver alguns novos murais que ele pintou para a exposição.]

Fale um pouco sobre este, se puder. É a Terra.
É a Terra, sim. Tipo, uma semana atrás fiz essa varrida de tinta com a mão, sabe, e isso, claro, é Walt Whitman e segurando as bolas, sabe. Essa é a Terra, sim. E, bom, isso aqui é um fígado, OK.

"Deus, eu queria viver duzentos anos! Tem tanta coisa para fazer e sempre a luta pelo tempo meu Goyd, não há tempo suficiente, eu queria viver sem fígado!" Isso é algo original que você escreveu, é de um poema?
Não sei. Procure essas coisas no Google. Não posso fazer todo o trabalho. Não posso mais ser rastreado. Vou objetivar, contar como único, indivisível, quais são as bordas do limite que cresce e se multiplica se alimentando de um abismo.

Isso começou com um porco-espinho, mas acabou sendo meu cachorro.

Whistler era um dos grandes. Ele fez gravuras, desenhos e pinturas. A Mãe de Whistler não era o título original, mas uma coisa personalizada sobre a mãe dele. Originalmente se chamava "Arranjo em Preto e Cinza". Parece a Sra. Eddy, então acrescentei isso.

Os melhores pincéis são de zibelina, zibelina russa. E espinhos para canetas, OK? A zibelina mostra seus espinhos. Tá vendo isso? Você tem a ponta certo? Então ela pinga. Tanto faz.

Notei muito pássaros.
Sim, eu sei, tem uma razão para isso. A Declaração de Independência foi feita com pássaros, OK, sabe, pincéis de penas.

Quem é esse?
É um mágico com uma flor esguichando água. Isso deveria ser tipo um baiacu.

Ainda é emocionante ver seu trabalho pendurado num museu como este? Você fica nervoso?
Não sou blasé com isso...

Sinto que é sempre emocionante a primeira vez que você faz algo novo, ou vejo minha arte de um jeito novo, e da segunda vez é menos emocionante.
É meio deprimente, porque minha vida não é sempre exata e há tristeza. Não é tipo "venci". Nunca.

Você acha que um dia vai achar que venceu? Isso importa?
Será que importa?

É, "vencer" importa?
Quem se importa? As pessoas têm problemas de verdade e eu vou ficar bem.

[O assistente de Ray aparece e sugere que voltemos para o térreo.]

Esse quadro do Reagan é antigo?
Sabe, Ronald Reagan nunca dirigiu, OK? Esse é o ponto. Ninguém deixaria ele dirigir. Ser presidente? Sim, é fácil. Tipo o Donald Trump. Você daria a Donald Trump carta branca, sabe, para ser diretor de um filme de qualquer orçamento? Claro que não.

Muito obrigado pelo seu tempo, Ray. Sou muito grato.
Que isso. A qualquer hora.

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