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​A polícia brasileira apreendeu mais uma vez a “droga que induz ao canibalismo”

Será que a metilona, também conhecida como "sais de banho", está ganhando forças no Brasil?

por Débora Lopes
07 Julho 2016, 4:00pm

"Sais de banho." Foto: Drug Enforcement Administration/ Divulgação

Na terça-feira (28), a Polícia Civil do Estado do Ceará deflagrou uma operação para coibir o tráfico de drogas sintéticas na região por conta de uma rave que irá acontecer nos próximos dias em uma fazenda na cidade de Caucaia, região metropolitana de Fortaleza. Entre as apreensões, estavam entorpecentes como maconha, skunk, ecstasy e metilona, uma das substâncias químicas conhecidas pelo nome fictício de "sais de banho". Em nota oficial, a Polícia Civil atrelou a droga ao canibalismo, já que, nos EUA, um sujeito provavelmente sob efeito de metilona comeu o rosto de um idoso em situação de rua, arrancando-lhe as bochechas, o nariz e um dos olhos.

Em Fortaleza, sete traficantes foram detidos com as drogas. Dois deles, de acordo com a polícia, portavam 90 gramas de metilona, que teria vindo da China para o Brasil pelo correio.

Drogas apreendidas pela Polícia Civil do Ceará. Entre elas, 90 gramas de metilona. Foto: divulgação

Parte da imprensa brasileira, principalmente a local, prontamente alardeou para a tal substância que "pode induzir ao canibalismo". Porém, em terras tupiniquins, pouco se sabe sobre essa relação. Por isso a VICE resolveu investigar o assunto.

"SAIS DE BANHO" QUE NÃO SERVEM PARA BANHO

A metilona pode ser aspirada (como a cocaína), ingerida em formato de comprimido ou diluída em líquidos. A sensação provocada pode ser de euforia, prazer, elevação do humor e aumento da libido – bastante similar aos efeitos do ecstasy. Mas há também a possibilidade de o usuário ter batimentos cardíacos acelerados, tremores e convulsões que podem desencadear problemas maiores. Os tais "sais de banho" podem ter outras composições além da metilona, como mefedrona, MDPV, alfa-PVP, etilona e butilona.

"Estas drogas fazem parte de um grupo maior de drogas conhecido como legal highs, substâncias lícitas que possuem a capacidade de produzir efeitos semelhantes aos de drogas ilegais, como a metanfetamina, a cocaína ou a MDMA (ecstasy)", detalha José Luiz da Costa, farmacêutico bioquímico e professor de toxicologia da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade Estadual de Campinas (FCF-UNICAMP). "A metilona é uma substância química pertencente à classe de drogas de abuso conhecida como catinonas sintéticas, que despontou como uma alternativa legal às drogas de abuso, como o ecstasy."

EFEITOS DA METILONA NO CORPO HUMANO

Euforia;
estimulação geral;
maior harmonia e prazer ao ouvir música;
elevação do humor;
melhora da função mental;
aumento da libido;
insônia;
incapacidade de concentração;
alterações no campo visual;
problemas de memória;
irritação e sangramento nasal (quando administrada por essa via);
aumento da temperatura corporal;
dor no peito;
elevação da freqüência cardíaca;
tremores e convulsões;
náuseas e vômitos

O termo "sais de banho" é meramente fictício e não passa de um disfarce para a comercialização do entorpecente, na maioria das vezes online. "[A metilona] pode ser vendida como fertilizante agrícola, repelente de inseto e produto de limpeza", pontua Costa, que em 2013 publicou e coordenou uma pesquisa sobre as substâncias químicas que aparecem nas drogas sintéticas apreendidas no Estado de São Paulo, como o ecstasy.

A metilona, porém, teve um período curto na legalidade brasileira. Em 2014, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) proibiu o consumo de 21 drogas no país, inclusive a metilona. "As 21 substâncias são drogas novas, criadas para burlar as listas de drogas ilícitas publicadas no mundo. Nenhuma delas tem utilidade como medicamento, são produtos que simulam efeitos semelhantes ao de outras drogas ilícitas já conhecidas, como ópio, heroína e LSD, que agem sobre o sistema nervoso central e podem provocar alucinações", explicou, na época, o diretor-presidente da Anvisa, Dirceu Barbano.

De acordo com Idylla Tavares, perita química e doutoranda do programa de toxicologia e análises toxicológicas da Universidade de São Paulo (USP), a temperatura do corpo de quem usa metilona pode chegar a 40°C. E os efeitos podem durar de duas a quatro horas. "A metilona é o que chamamos de nova droga. Ela começou a ser usada em 2000 e pode fazer os usuários se comportarem como 'zumbis'. São drogas muito recentes e não se sabe muito sobre elas."

Há alguns anos publicamos Sais de Banho na Ferida, uma reportagem profunda sobre como o Amped, vendido legalmente nas tabacarias da cidade de Roanoke, no estado da Virgínia (EUA), como o "pó da exuberância", destruiu a vida da comunidade local. Trata-se, também, de um membro da família dos "sais de banho". "Com cocaína, você pode ver um grupo de meninas, achar que é o cara, e ir até lá falar com elas. Com o Amped, você pensa em ir até elas e tirar o pau duro pra fora", relata um usuário na matéria, que retrata o caos enfrentado pelo município com menos de 100 mil habitantes quando a droga virou uma febre na região.

METILONA JÁ FOI APREENDIDA NO BRASIL

Em 2013, a apreensão do que pareciam ser comprimidos de ecstasy na cidade de São Paulo intrigou a polícia quando o exame toxicológico apontou que não havia ecstasy ali, e, sim, metilona. Na época, o delegado do caso informou que a Polícia Federal já havia encontrado a substância no Rio Grande do Norte, em Santa Catarina e Mato Grosso.

"Sais de banho." Foto: Drug Enforcement Administration/ Divulgação

CANIBALISMO

Dirigindo seu Chevrolet roxo na manhã de 26 de maio de 2012, o norte-americano Rudy Eugene, que na época trabalhava em um lava-rápido, foi até Miami Beach. Em dado momento, ele encontrou Eugene Poppo, um homem de 65 anos em situação de rua. Rudy, que estava completamente nu, tirou também as roupas de Poppo e passou a morder seu rosto.

Rudy Eugene (à esquerda), que ficou conhecido como "o canibal de Miami" após devorar o rosto de Eugene Poppo (à direita), idoso em situação de rua. Foto: divulgação.

Mesmo diante de ordens policiais para que parasse, ele seguiu comendo o rosto do sujeito e acabou sendo alvejado e morto pela polícia. O caso, que na época ficou ligado ao uso dos "sais de banho", até hoje permanece inconclusivo, já que a perícia identificou somente o uso de maconha no organismo de Rudy, que, postumamente ficou conhecido como "o canibal de Miami".

Leia também: Perguntamos a um especialista se tomar bala uma única vez pode foder seu cérebro para sempre

Mas foi o suficiente para que a internet e a imprensa "comprassem" a ideia de que esse tipo de droga pudesse realmente induzir o usuário ao canibalismo – ainda que não existam pesquisas e estudos que comprovem a conexão.

Para o farmacêutico bioquímico Costa, "quem escreveu [esse tipo de coisa] não sabia nada sobre a droga, nada sobre toxicologia, e certamente não consultou algum especialista antes de escrever". Ele justifica que a metilona age principalmente na transmissão de dopamina no cérebro, mesmo neurotransmissor onde age a cocaína. "Ela pode aumentar a agressividade do usuário, que pode se tornar violento", informa. "Mas falar em canibalismo foi um erro."

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