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O FaceApp não é problemático porque é russo, mas porque é capitalista

As políticas de privacidade do FaceApp são ruins, mas não porque a empresa é russa.

por Caroline Haskins; Traduzido por Marina Schnoor
22 Julho 2019, 10:00am

Imagem: Twitter/@jchaltiwanger.

Quase todo mês, as fotos do FaceApp – um aplicativo de edição de rosto que usa rede neural para fazer os usuários parecerem mais jovens, velhos, femininos ou masculinos – viralizam. Dois anos atrás, o aplicativo colocou uma função de edição de rosto que transformava as pessoas em caricaturas racistas de diferentes raças. Semana passada, o filtro viral do aplicativo é uma função de envelhecimento, que faz os usuários parecerem idosos.

Em poucas horas, a conversa no Twitter sobre o FaceApp se centrou numa coisa: o aplicativo é feito por uma empresa russa de São Petersburgo, a implicação sendo que o app pode ser uma fachada de coleta de dados do governo russo.

Sim, as políticas de privacidade do FaceApp são muito ruins. Mas não é o único caso de aplicativo que usa dados de imagem, e isso não é ruim porque a empresa que o criou é russa. As características dessas políticas de privacidade problemáticas são muito parecidas com aplicativos feitos nos EUA e outros países. Apps de previsão do tempo, horóscopo, de saúde e fitness.

Para funcionar, o FaceApp exige que o usuário dê acesso a todo seu rolo de câmera, no ponto em que o aplicativo identifica automaticamente imagens com rostos. Ele não deixa que você só permita acesso à câmera e tire, digamos, uma foto para ser usada pelo aplicativo, ou suba fotos individuais para serem filtradas.

O FaceApp também coleta várias informações de identificação pessoal, incluindo “informação para cookies, aquivos de log, identificadores de aparelho, dados de localização e uso de dados”. O aplicativo então fornece esses dados para vagamente definidos “Afiliados” e “Fornecedores de Serviço”, ou terceiros que monitoram a “eficácia” do aplicativo, “desenvolvimento e teste de novos produtos”, medições de aplicativos de rastreio e “problemas de diagnóstico e correção”. Em outras palavras, o FaceApp se reserva ao direito de compartilhar as informações por várias categorias muito amplas, que podem incluir vários tipos de empresa.

Mais importante, o FaceApp também entrega os dados dos usuários para “parceiros de publicidade”.

“Essa informação vai permitir que redes de publicidade de terceiros, entre outras coisas, entreguem anúncios direcionados que acreditam que sejam do seu interesse”, diz a política de privacidade.

E numa declaração para a TechCrunch, o FaceApp disse: “Aceitamos pedidos de usuários para remover todos os seus dados dos nossos servidores. Nossa equipe atualmente está sobrecarregada, mas esses pedidos têm nossa prioridade”.

“Mesmo que nossa equipe de pesquisa e desenvolvimento esteja na Rússia”, o FaceApp disse ao TechCrunch, “os dados dos usuários não são transferidos para a Rússia”.

Extrair dados de usuários desavisados, vender e compartilhar esses dados deus sabe onde, e justificar isso dando aos usuários políticas de privacidade impossíveis de ler é uma prática quase universal. Isso transcende fobias de Guerra Fria. Não é algo russo. Não é algo americanos. É uma prática fundamentalmente capitalista. Empresas só podem fornecer aplicativos gratuitos e lucrar se estão coletando e compartilhando os dados das pessoa que os usam.

O medo de aplicativos russos parece vir do mesmo espírito da obsessão do pessoal #Resistance do Twitter com o Relatório Mueller. O discurso se desviou de questionar a corrupção do executivo no governo americano para papos incoerentes sobre “russos” suspeitos. O fato aqui é que não temos ideia de como o FaceApp está usando esses dados, assim como não sabemos como muitos outros aplicativos estão usando nossos dados. Sim, deveríamos nos preocupar, mas não apenas com o FaceApp.

Há uma discussão legítima que precisamos ter sobre quantos dados entregamos para entidades privadas em troca de entretenimento meia-boca. É inútil eclipsar essa discussão como a última com a Ameaça Vermelha.

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