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O caso da Nabrisa evidencia o privilégio branco no rap brasileiro

A dominância de artistas brancos no mercado de rap no país ajuda a normalizar o racismo velado nas letras e na cultura hip hop.

por Amanda Cavalcanti
18 Maio 2018, 5:44pm

Nabrisa no perfil para a Pineappple. Screenshot do YouTube

Pense rápido: quem é o maior nome do rap no Brasil hoje? É possível que você diga Emicida, que inclusive acabou de completar 10 anos de um hit que marcou o rap nacional; talvez caiba o nome do Criolo, que teve grandes álbuns ao longo da última década; e alguém com certeza pensou em Mano Brown e Racionais — com toda a certeza o maior nome do hip hop brasileiro de todos os tempos.

Esses podem ser os artistas que vêm à mente, mas os números mostram realidades muito diferentes do rap no Brasil. Comparando, por exemplo, quantidade de inscrições em canais do YouTube, enquanto Emicida (900 mil), Criolo (340 mil) e os Racionais (600 mil) se contentam com as centenas de milhares, o Costa Gold, hoje com mais de 2 milhões de inscritos, foram os primeiros do rap brasileiro a ultrapassar a casa do milhão, e hoje são superados por 1Kilo (4 milhões), Haikaiss (2,5 milhões) e Hungria Hip Hop (5 milhões).

Uma questão semelhante foi levantada pelo Don L no Twitter, agora à luz de acontecimentos recentes envolvendo a rapper Nabrisa. Em um novo perfil para a Pineapple, a rapper cospe versos que dizem que "Inferno é pra branco e pra preto / Na cadeia tem branco e preto / Na favela tem branco e preto/ O rap é pra branco e pra preto / E todo preço já foi pago / Eu não preciso dar um jeito".

Os versos racistas de Nabrisa foram condenados nas redes sociais por muitos rappers e fãs. No tweet, Don L comparou o número de seguidores de Nabrisa (429 mil) no Instagram com as rappers Alt Niss (9 mil), Drik Barbosa (84 mil) e Lay (27 mil). E conclui: "Se isso não é privilégio branco, eu não sei o que é."

Os números de YouTube e Instagram podem parecer pouco relevantes, mas são, como os versos de Nabrisa, uma representação de uma realidade maior e embranquecida do rap brasileiro na atualidade. A forma de arte, que no Brasil ganhou corpo principalmente pelo trabalho de artistas negros nas periferias de São Paulo, hoje tem parte significativa do seu mercado dominada por artistas brancos. E isso começa a se mostrar perigoso quando nos deparamos com casos similares ao de Nabrisa.

Ainda no começo de 2018, em fevereiro, as rappers Lívia Cruz e Bárbara Sweet gravaram um vídeo comentando a aparência física de vários colegas do rap — o tiro, que pretendia ser uma "brincadeira" que emulava a objetificação do corpo de mulheres rappers, acabou saindo pela culatra quando Lívia e Bárbara fizeram comentários racistas sobre DK e Lorde, do grupo ADL. "Ele é aquele cara que você vai encontrar saindo do camburão e você não sabe se entrega o telefone ou se tira a calcinha", falou Sweet no vídeo, agora deletado.

Uma questão parecida foi levantada pelo Raffa Moreira em março de 2017, ao saber que o Haikaiss tinha sido escalado para o line-up do Lollapalooza. "Artista branco tomando lugar de quem tem o real dom da música é o reflexo do escravagismo", escreveu o rapper no Twitter na época, que ainda criticou o fato do Damassaclan ser uma mob de rap com "28 brancos e 4 negros". Ao G1, ele comentou que "eles [Haikaiss] são os maiores expoentes do gênero hoje, e foram trazendo só brancos. O rap foi criado por negros e eles estão roubando isso."

Raffa e os críticos de Sweet e Lívia, como os de Nabrisa, foram respondidos da mesma maneira: "o rap não tem cor". E qualquer pessoa que discordasse teria um discurso "segregacionista". Mas o momento em que a cultura que cerca o hip hop mais mostra que tem, sim, uma cor, e que essa cor está inclusive cada vez mais clara, é quando repetitivas demonstrações de racismo e preconceito são despejadas em grande escala — impossível de mensurar, então, quantas delas ocorrem de maneira velada ou em espaços de menos destaque.

Como fã de hip hop, jornalista de som e branca, falo por mim que não há esforço descomunal ou trabalho intelectual profundo necessário para respeitar uma cultura em que eu posso até estar de alguma maneira inserida, mas não é minha, quando escrevo sobre ela.

Acredito que a questão para artistas brancos de rap seja um pouco mais delicada, mas não deixa de ser simples. Embora seja difícil ter controle de questões estruturais que tangem a dominância de artistas brancos no mercado, é possível levantar questões de raça em seu som e se posicionar a respeito de casos de racismo e preconceito. Ou, ao menos, não expôr seu racismo tão latentemente e se colocar em seu lugar ao entender que o rap é, sim, primeiramente e fundamentalmente, uma cultura feita de negros para negros.

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