Drogas

Especialistas em drogas comentam a escolha de Jordan Peterson de tratar seu vício em benzodiazepinas na Rússia

A filha de Peterson disse que médicos ocidentais não têm “coragem” para fazer o detóx médico do pai. Mas especialistas dizem que essa é uma narrativa enganosa.
19 Fevereiro 2020, 10:00am
Jordan Peterson Benzodiazepines
A filha de Jordan Peterson diz que ele está fazendo tratamento na Rússia para sua dependência em benzodiazepinas. Foto por Carlos Osorio/Toronto Star via Getty Image.

Revelando que seu pai famoso está fisicamente dependente de benzodiazepinas, Mikhaila, filha de Jordan Peterson, repreendeu os médicos do “Ocidente”. Mas especialistas em políticas de drogas dizem que algumas das alegações dela são perigosas e não parecem baseadas em evidências.

Em duas matérias no National Post semana passada, Mikhaila Peterson disse que seu pai, o polêmico psicólogo e autor da Universidade de Toronto, está sofrendo com uma dependência severa em benzodiazepinas. As benzodiazepinas mais populares são Xanax e Valium.

As matérias, baseadas apenas nos relatos de Mikhaila, detalham várias circunstâncias e reações médicas extremas que supostamente levaram Peterson a procurar um tratamento de desintoxicação na Rússia.

Mikhaila, uma defensora da “Dieta do Leão” baseada apenas em carne, disse que médicos receitaram uma dose pequena de benzodiazepina para Peterson em resposta a uma reação autoimune a alimentos. (A matéria do Post não especifica o que isso significa, ou como isso é diferente de uma alergia alimentar.)

Mikhaila disse que a dose do pai aumentou quando sua mãe foi diagnosticada como câncer terminal em abril do ano passado, e que ele desenvolveu uma dependência física da medicação. Ela disse que ele desenvolveu um efeito colateral chamado “acatisia” – uma incapacidade de ficar parado que o deixou suicida. Segundo Mikhaila, o pai “quase morreu várias vezes” enquanto passava entre hospitais da América do Norte e recebia ainda mais medicação.

Mikhaila disse que o pai buscou tratamento na Rússia em janeiro, onde foi colocado num coma induzido por oito dias e “teve a síndrome de abstinência mais horrível sobre a qual já li ou ouvi falar”. (Peterson parou de postar no Twitter entre 22 de janeiro; sua coluna mais recente para o Post parecer ser de novembro.)

“Ele quase morreu com o que o sistema médico fez com ele no Ocidente”, disse Mikhaila. “Os médicos aqui não são influenciados pelas companhias farmacêuticas, não acreditam em tratar sintomas causados por medicação acrescentando mais medicação, e têm a coragem de desintoxicar uma pessoa de benzodiazepinas.” A Rússia é conhecida por ter leis severas para drogas, recursos escassos para recuperação, e uma abordagem “cold turkey” para tratamento que inclui a proibição de metadona como uma substituta de drogas.

A VICE pediu comentários a Mikhaila Peterson, mas não obteve resposta.

As coisas parecem mesmo ruins para Peterson, que juntou seguidores quando se recusou a usar os pronomes de gênero preferidos de seus alunos, e mais tarde lançou 12 Regras Para a Vida: Um Antídoto Para o Caos, um livro com dicas como: “coloque sua casa em perfeita ordem antes de criticar o mundo”. Mas especialistas trabalhando com políticas de drogas e saúde pública dizem que a versão de Mikhaila dos eventos levanta questões e perpetua narrativas ignorantes sobre o tratamento de vícios no Canadá.

O Dr. Evan Wood, médico e cientista especialista em vício do Centro de Uso de Substâncias da Colúmbia Britânica, disse que mesmo não podendo comentar sobre as especificidades da situação de Peterson, a declaração de Mikhaila de que os médicos no Canadá não têm “coragem” para desintoxicar uma pessoa de benzodiazepinas é totalmente equivocada.

“Tem toda uma comunidade de profissionais de uso de substâncias que tratam rotineiramente pessoas que se tornaram viciadas em benzodiazepinas, e isso envolveria uma redução gradual da medicação”, ele disse. A razão para isso é que a redução gradual da droga diminui a probabilidade de recaída, acrescentando que entrar num coma induzido é algo “muito extremo” e só acontece no Canadá para sintomas severos de síndrome de abstinência alcoólica. (Não há indícios de que Peterson procurou tratamento para problemas com álcool.)

Wood disse que redução gradual de benzodiazepina pode ser “um grande desafio”, e pode levar até um ano.

“É uma medicação muito perigosa”, ele disse, apontando que benzodiazepina não é eficaz para ansiedade porque funciona a curto prazo, mas redobra a ansiedade quando uma pessoa para de tomar a medicação.

Wood também disse que passar por uma desintoxicação, como Mikhaila disse que Peterson fez, não significa que a pessoa não vai ter uma recaída.

“Seria o mesmo com síndrome de abstinência de fentanila ou álcool. O potencial de voltar a usar permanece.”

Mikhaila também especificou que o pai não tem um “vício psicológico” em benzodiazepinas mas desenvolveu uma dependência, uma distinção em que os seguidores de Peterson parecem estar fixados.

Wood disse que não faz uma distinção médica entre pessoas com dependência física por causa de drogas receitadas e aquelas que têm um vício, definido como “continuar o uso diante dos danos”.

“Odeio ver as pessoas categorizadas como más porque são viciadas”, ele disse. “A manifestação física é a mesma, mas se você tem acesso a drogas que foram prescritas, isso é chamado de dependência.”

A especialista em saúde pública e professora da Universidade de Calgary Rebecca Haines-Saah disse que a declaração de Mikhaila implica que não há opções seguras de desintoxicação para benzodiazepinas no Canadá.

“Acho que essa é uma desinformação para pessoas que podem estar vulneráveis ou sentem que precisam de tratamento pra isso”, ela disse. “Considerando a influência da família Peterson online e os muitos seguidores deles, acho que essa informação, que pode não ser baseada em evidência, pode ganhar impulso, e acho isso muito perigoso.”

Ontário, onde Peterson mora, tem várias opções públicas e privadas para desintoxicação de drogas.

Haines-Saah também disse que a história levanta muitas questões, incluindo como Peterson supostamente quase morreu várias vezes devido ao tratamento que recebeu na América do Norte.

“Pode haver partes da história que não estão sendo compartilhadas com o público”, ela disse.

Simpatizantes de Peterson foram rápidos em repreender pessoas que não se mostraram particularmente simpáticas com ele.

“A crítica é que essa família está pedindo compaixão, mas parece que eles não mostraram compaixão com outros indivíduos que experimentaram vício”, disse Haines-Saah.

(Uma das palestras de Peterson no YouTube é intitulada “o problema com muita empatia”.)

Mas mesmo a narrativa cercando o vício e recuperação de Peterson manda a mensagem de que para ser um “homem de verdade”, o indivíduo precisa passar por desintoxicação sem a ajuda de outros medicamentos, disse Haines-Saah. Isso se alinha com as visões de masculinidade dele. Isso também combina com o foco na dependência física de Peterson versus um vício psicológico.

“Isso visa elevar o poder da força de vontade da psicologia versus a dependência física”, ela disse. “Isso realmente apoia a ideia de vício como uma falha moral.”

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Matéria originalmente publicada pela VICE Canadá.

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